Vacina contra Covid-19 produzida com a USP encerra mais uma fase com resultados promissores

Imunizante se mostrou seguro e eficaz ao fim da segunda etapa de testes clínicos, mas ainda é necessário testá-lo em um maior número de voluntários

Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Recentemente, pesquisadores do Centro de Pesquisas em Biotecnologia CT-Vacinas, localizado em Minas Gerais, concluíram os ensaios clínicos de fase 2 para uma nova vacina contra a Covid-19, denominada SpiN-Tec. Os resultados obtidos com 319 voluntários ao longo de um ano foram considerados promissores, evidenciando a segurança e eficácia do imunizante frente a diversas variantes do vírus SARS-CoV-2. Com esses dados em mãos, os cientistas estão agora na expectativa de receber a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar para a fase 3 dos testes, que incluirá aproximadamente 5 mil participantes, visando validar as descobertas iniciais.

A vacina SpiN-Tec teve seu desenvolvimento iniciado em 2020, sob a orientação da imunologista Julia Teixeira de Castro, que estava em seu doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP). A princípio, Julia focava no desenvolvimento de uma vacina contra a doença de Chagas, mas devido ao agravamento da pandemia de Covid-19, redirecionou seus esforços. O resultado foi um imunizante totalmente nacional que oferece proteção contra o surgimento de novas variantes do vírus. O projeto foi supervisionado pelo professor Ricardo Gazzinelli, coordenador do CT-Vacinas e associado da FMRP.

Julia Teixeira explica que a abordagem adotada consiste em criar uma vacina que promove principalmente uma resposta imune celular. “Desenhamos um imunizante que é capaz de identificar regiões do vírus mesmo após mutações”, afirmou à reportagem do Jornal da USP. Este método utiliza uma proteína recombinante que estimula uma resposta mediada por linfócitos T, células essenciais no combate a infecções virais.

A composição da vacina inclui sequências das proteínas nucleocapsídeo (N) e spike (S) do SARS-CoV-2. “É a primeira vez que um imunizante inteiramente desenvolvido no Brasil alcança este estágio“, celebrou Julia.

O professor Gazzinelli destacou que a SpiN-Tec não apenas incorpora tecnologia nacional, mas também apresenta um custo de produção reduzido. “Ela se mostrou estável por 24 meses quando mantida a 4ºC, permitindo armazenamento em refrigeradores comuns”, acrescentou.

Base Científica Sólida

Vacinação Covid-19
Fernando Frazão / Agência Brasil

Atualmente, muitas vacinas disponíveis focam apenas na proteína spike (S), que é crucial para a entrada do vírus nas células humanas. Contudo, com o avanço da pandemia, surgiram diversas mutações na proteína spike que resultaram em um aumento na taxa de transmissão e escape dos anticorpos neutralizantes gerados pelas vacinas existentes.

Gazzinelli observou que no início da vacinação as vacinas apresentavam uma eficácia aproximada de 90%, mas essa taxa diminuiu para cerca de 40% com o aparecimento das novas variantes. Por outro lado, estudos indicaram que a proteína nucleocapsídeo (N) permaneceu praticamente inalterada ao longo do tempo, tornando-se um alvo viável para o desenvolvimento de vacinas que garantam uma resposta imune robusta.

A primeira fase dos estudos incluiu análises in silico, onde simulações computacionais foram utilizadas para interpretar dados biológicos e matemáticos. Através dessa abordagem, Julia realizou predições sobre epítopos – regiões das proteínas com alta probabilidade de interação com o sistema imune. “Identificamos os dois alvos promissores [proteínas S e N] e unimos suas sequências para criar um único composto“, explicou.

Nos experimentos in vitro, amostras de sangue foram coletadas de pacientes imunizados com Coronavac e convalescentes. Os resultados mostraram que a proteína SpiN da SpiN-Tec foi reconhecida pelos linfócitos T de memória. Em testes realizados com hamsters e camundongos, observou-se uma produção significativa dos anticorpos IgA e IgG após a administração das duas doses da vacina em intervalos de 21 dias.

Os testes foram conduzidos no Laboratório de Nível de Biossegurança 3 (NB-3) do Centro de Pesquisa em Virologia da FMRP na USP. Animais transgênicos e hamsters foram expostos ao vírus SARS-CoV-2 após receberem o imunizante. Os resultados mostraram proteção substancial: os animais mantiveram seu peso corporal, apresentaram 100% de sobrevida e tiveram redução nas cargas virais pulmonar e cerebral.

“Animais infectados sem vacinação geralmente perdem peso e podem falecer em um período entre dez a quinze dias devido à infecção”, ressaltou Julia. “Portanto, o monitoramento do peso corporal e mortalidade era fundamental.”

Pólo Acadêmico

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Caso receba o sinal verde da Anvisa, Julia continuará sua participação nos ensaios clínicos subsequentes enquanto retoma seu projeto original sobre a doença de Chagas. Seu trabalho já lhe rendeu reconhecimento: ela foi agraciada com o Prêmio Teses Destaque USP 2024 na categoria Inovação por sua pesquisa intitulada Desenvolvimento de proteína quimérica e avaliação de seu potencial vacinal contra Covid-19, acessível através deste link.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 17/07/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo