Medo e maternidade: os dois pesos que limitam a jornada das motoristas de aplicativo
Mulheres que dirigem por app enfrentam o dilema entre garantir a renda e evitar situações de risco
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 17/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA
Dirigir à noite pode ser mais rentável, mas também é mais perigoso, especialmente para as mulheres motoristas. O dado é repetido em relatos e na pesquisa apresentada pela Think Eva em parceria com a 99, que reuniu experiências de quase 900 motoristas e potenciais motoristas de aplicativo. Mais da metade delas afirmou não se sentir segura para rodar durante a noite.
“Metade delas [motoristas] associa a sensação de risco a determinadas horas e locais. Então, eu não me sinto tão segura em trabalhar de dia, mas eu não trabalho à noite, por exemplo, ou eu não trabalho em determinadas regiões da cidade”, explicou Maíra Liguori, diretora da Think Eva, durante o evento de apresentação da pesquisa.
Além da insegurança pública, os dados também mostram que motoristas do sexo feminino evitam a madrugada por medo de assédio, roubos e abordagens abusivas de passageiros ou mesmo da polícia.
“A gente sabe que é complicado para uma mulher que sofreu violência relatar isso para quem quer que seja. Desde pessoas próximas até a empresa, ou uma autoridade judicial”, alertou Malu, gerente de prevenção e percepção em segurança da 99.
A sobrecarga invisível do cuidado na vida das motoristas

Outro fator que limita a atuação das mulheres motoristas no trabalho por aplicativo é o cuidado com filhos, pais idosos ou pessoas com deficiência, um peso social quase sempre carregado por elas. Segundo o levantamento, sete em cada dez motoristas mulheres têm filhos, e boa parte delas utiliza o aplicativo como única ou principal fonte de renda.
“A necessidade de conciliação do cuidado com a atividade remunerada é um dos principais fatores que levam essas mulheres a dirigir carros por aplicativo”, apontou Maíra Liguori.
Em sua fala, ela destacou ainda que muitas motoristas pertencem à chamada “geração sanduíche”, que cuida ao mesmo tempo dos filhos e dos pais idosos: “A gente sabe que agora tem uma geração que está tendo que cuidar não só das crianças da geração que vem, mas também da geração que veio antes, os pais, os avós”.
Na prática, isso se traduz em jornadas exaustivas, horários quebrados e rotinas imprevisíveis. “Ela precisa parar de trabalhar para levar uma criança ao médico, e isso não traz nenhum tipo de constrangimento para essa mulher que dirige”, relatou Maíra, ao comparar com o mercado formal de trabalho, que não oferece essa flexibilidade.
Trabalhar com medo ou não trabalhar: o dilema das mulheres motoristas
A combinação entre insegurança pública e falta de políticas de acolhimento às cuidadoras leva muitas motoristas a optarem por horários de menor risco, ainda que isso signifique perder parte significativa da renda.
O relato de uma motorista ilustra bem o peso da escolha: “No máximo, alguém vai arremessar alguma coisa no veículo, mas eu já estou preparada para essa situação”. Ela preferia dirigir de madrugada porque se sentia mais segura sem trânsito, uma escolha que escancara como a falta de políticas públicas obriga mulheres a escolher entre o medo e a necessidade.
Falta respaldo: segurança pública e social não alcança as mulheres que dirigem
Apesar da existência de ferramentas digitais, como botão de emergência, gravação de áudio e central de atendimento 24h, a própria equipe da 99 reconhece que essas tecnologias não são suficientes sem apoio do Estado. “Hoje não tem uma legislação que obrigue a gente a fazer isso. Hoje não tem uma regulamentação robusta pra suportar as mulheres, de forma geral”, afirmou Malu durante a coletiva.
A percepção se repete entre passageiras e motoristas. “A gente tem uma questão muito grande de subnotificação, especialmente em caso de violência contra a mulher. E a gente conseguir incentivar essa notificação ajuda também o poder público a ter políticas direcionadas”, apontou outra integrante da equipe de segurança da plataforma.
Mulheres evitam a noite, mas querem trabalhar: é hora de políticas públicas de verdade
Enquanto motoristas relatam medo, insegurança e sobrecarga, o poder público segue ausente. Não há políticas específicas para garantir segurança no transporte noturno, nem políticas sociais que garantam apoio às mulheres que acumulam jornadas de trabalho e cuidado.
A pesquisa revela ainda que 40% das mulheres que inicialmente não queriam dirigir por aplicativo reconsiderariam a decisão caso tivessem mais segurança. Esse número é chave para entender o potencial represado por falta de condições básicas.
“Garantir a segurança das mulheres motoristas vai trazer mais motoristas. E, aí, com mais motoristas, a gente tem um trânsito melhor, uma cidade melhor e uma vida melhor para as mulheres também”, concluiu Maíra Liguori.