Perfil das vítimas da ditadura revela repressão seletiva e subnotificada no Brasil

Levantamento do Observatório Nacional dos Direitos Humanos mostra quem foram as principais vítimas do regime militar, mas especialistas alertam para omissões e distorções nos dados oficiais.

Crédito: Divulgação/Sindicato dos Metalúrgicos

Um estudo recente do Observatório Nacional dos Direitos Humanos, vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, traçou o perfil das 434 vítimas oficialmente reconhecidas da ditadura militar brasileira entre 1946 e 1988. A maioria era composta por homens, estudantes e moradores das capitais São Paulo e Rio de Janeiro.
A faixa etária predominante era de jovens entre 18 e 44 anos, com média de 32,8 anos. Entre os mortos e desaparecidos, 82,5% estavam ligados a organizações políticas, e 37,3% eram filiados a partidos. Também se destacam estudantes (140), operários (57), trabalhadores rurais (30), jornalistas e professores (28 cada).

Violência não poupou mulheres e crianças, e perseguição começou antes do golpe de 1964

Embora representassem apenas 11,8% do total, a proporção de mulheres entre as vítimas aumentou significativamente nos anos finais do regime, chegando a 35% entre 1979 e 1985. Grande parte delas era ainda mais jovem: 68,7% tinham entre 0 e 29 anos. O levantamento também registra a morte de uma criança de menos de um ano.

A repressão, segundo os dados, não começou com o golpe militar de 1964: vítimas já eram contabilizadas antes, o que demonstra que perseguições políticas já estavam em curso. Mesmo durante o processo de redemocratização, a repressão continuou ativa, com 20 mortes entre 1979 e 1985.

Historiadores apontam exclusão de indígenas, negros e camponeses dos números oficiais

Especialistas entrevistados criticam a metodologia utilizada pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), da qual o ObservaDH se baseou, afirmando que ela ignorou importantes grupos afetados pela violência do Estado.
Entre os invisibilizados estão os indígenas — mais de 8 mil mortos segundo a própria CNV, mas fora do número oficial —, além de pessoas negras das periferias e trabalhadores rurais.

“Ser vítima da violência e ser reconhecido como tal são coisas diferentes”, resume o historiador Lucas Pedretti. Para os especialistas, o número real de vítimas pode ser muito maior.

O Ministério dos Direitos Humanos reconheceu as limitações e afirmou que segue comprometido com a continuidade das investigações para a identificação e reparação de todas as vítimas.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 07/04/2025
  • Fonte: FERVER