Nem Lula nem Bolsonaro: o brasileiro cansou da política
Pesquisa e analistas revelam como a frustração com a economia e o cansaço do radicalismo geram um abismo entre o eleitor e a política
- Publicado: 23/06/2026 15:03
- Alterado: 23/06/2026 15:03
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: ABC do ABC
A ilusão da polarização total
Um estudo divulgado pelo Laboratório de Opinião Pública da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) mostra que 69% do eleitorado brasileiro não está polarizado. Contrariando a percepção pública sobre o ambiente político, a pesquisa, liderada pelo cientista político Jairo Pimentel, aponta que, embora a polarização tenha crescido nas últimas duas décadas, ela ainda não ultrapassou a marca de 31% do eleitorado.
Entretanto, apesar da polarização ainda não alcançar nem a metade da população brasileira, o estudo identificou outro ponto crítico em nosso processo democrático: a indiferença do eleitor e o voto por rejeição.
De acordo com a pesquisa, hoje o eleitor não vota porque acredita fielmente em um político, mas porque não quer ver o adversário vencer. Ou, pior, abstém-se de votar por não enxergar candidatos que considere qualificados.
“O processo de decisão eleitoral não é movido apenas por ideias, programas ou identidades positivas. O que vemos hoje é um eleitorado cada vez mais orientado pela rejeição ao adversário e, em muitos casos, por uma relação fria ou desencantada com a política”, analisa Pimentel.
O cansaço tem data de início: a linha do tempo da frustração

O consultor político Ailton Bosi explica que esse cansaço com a política não surgiu da noite para o dia, mas foi construído ao longo dos anos por diferentes experiências frustrantes dos eleitores, que vão desde escândalos de corrupção até promessas não cumpridas.
“O brasileiro está frustrado. Eu não o vejo como um eleitor apático; vejo uma pessoa cansada do processo”, afirma o especialista.
A disputa de 2014 e o impeachment de 2016: O país entrou em um “terceiro turno” permanente após a reeleição de Dilma Rousseff, o que culminou no impeachment e abriu caminho para uma desconfiança generalizada em relação à política.
A onda da Lava Jato e o outsider (2018): Jair Bolsonaro surfou na imagem de alguém que vinha de fora para romper com o sistema. Porém, a economia não decolou como muitos esperavam, e o impacto da pandemia de Covid-19 agravou a frustração de parte do eleitorado.
A volta de Lula (2022–2026): O atual presidente venceu prometendo uma espécie de retorno aos anos de maior poder de consumo do início dos anos 2000.
“Só que o mundo mudou. Essa volta ao passado não se concretizou e nem teria como se concretizar”, pontua Bosi.
O resultado? O eleitor olhou para os lados, viu os mesmos atores de sempre e simplesmente se cansou.
O bolso aperta, o eleitor some

O grande perigo dessa ressaca política não é uma revolta nas ruas, mas o silêncio das urnas. O número de pessoas que deixam de votar, votam em branco ou anulam o voto continua crescendo.
Recentemente, em uma eleição suplementar em Roraima, vencida por Arthur Henrique, ex-prefeito de Boa Vista, o que chamou a atenção dos especialistas foi a quantidade de eleitores que preferiram ficar em casa. Embora eleições fora de época costumam atrair menos participação, o tamanho do “não voto” acendeu um sinal de alerta.
A explicação é simples: o cidadão comum avalia a política pelo mundo real, não pelas discussões teóricas de Brasília.
“O eleitor não mora no estado nem no município. Ele mora na rua dele. A vida dele é muito singular”, diz Bosi.
Se a vida não melhora na ponta, o preço dos alimentos não cai e o poder de compra continua pressionado, ele passa a questionar se votar realmente faz diferença.
E, para Bosi, não adianta atribuir o problema apenas à comunicação.
“Estão jogando a culpa na conta da comunicação, mas não é uma questão de narrativa. É uma questão de poder de compra. As pessoas não estão conseguindo consumir e não sentem melhora real na vida prática”, afirma.
O medo virou o novo combustível das campanhas

Com 69% do eleitorado desmobilizado e sem paciência para a política, os marqueteiros precisavam encontrar uma forma de levar as pessoas às urnas. Em uma mudança de cenário, a esperança perdeu espaço. O que move o voto hoje é o medo.
“Eu estava conversando com o João Santana em um evento que participamos. O João é um gênio, um cara incrível. Antigamente, as eleições eram construídas em torno da esperança. Hoje, infelizmente, o sentimento que move uma eleição é o medo. Então acontece muito de a pessoa pensar: ‘Não gostaria de votar no candidato A, mas vou votar nele porque não tolero o candidato B’.”
Essa dinâmica reduz a capacidade de planejar o país no longo prazo. Bosi, que trabalhou com figuras como Eduardo Campos, cita propostas de José Serra como exemplos de projetos que buscavam pensar o Brasil para os próximos 30 ou 50 anos, com foco em transição tecnológica e menor dependência de commodities.
Hoje, porém, a disputa política se concentra no curto prazo.
“Quando você rompe com um modelo, acaba voltando algumas casas para trás. Todo projeto que se inicia, e isso é algo que o eleitor precisa entender, independentemente do governo, não se concretiza em quatro anos. Um projeto de país exige uma visão de 20 ou 30 anos”, alerta o consultor.
A era dos vídeos curtos e dos candidatos de nicho

A internet e as plataformas de vídeos rápidos, como Reels, TikTok e Shorts, mudaram a velocidade do debate político. Tente explicar, em trinta segundos, que problemas como violência pública ou fome exigem políticas complexas e anos de implementação. É quase impossível.
Candidatos que apostam em discursos mais densos e propostas de longo prazo acabam sendo ignorados. Por outro lado, movimentos como o MBL e figuras como Nikolas Ferreira compreenderam a nova linguagem digital: criam comunidades em plataformas como o Discord, utilizam elementos da cultura gamer e focam em pautas morais ou emocionais que dialogam diretamente com o cotidiano e com as crenças de seus seguidores.
Essa fragmentação abriu espaço para um fenômeno que deve ganhar força nas próximas eleições: os candidatos temáticos.
Projeta-se um aumento de pelo menos 20% no número de candidatos focados em defender uma única causa, como:
- Médicos voltados exclusivamente para a gestão da saúde pública;
- Ativistas dedicados à pauta ambiental;
- Defensores de direitos de grupos específicos, como pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Se, para a ciência política tradicional, isso pode representar uma perda de visão ampla sobre os problemas do país, para o eleitor cansado pode soar como uma proposta mais honesta.