Morre o jornalista Mino Carta, fundador da Carta Capital
Mino Carta, fundador da Carta Capital, também atuou na criação de Quatro Rodas, Veja, IstoÉ, Jornal da Tarde e Jornal da República
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 02/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
Mino Carta, renomado criador de publicações e uma das figuras mais influentes do jornalismo brasileiro, faleceu nesta terça-feira (2) aos 91 anos. O jornalista estava internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, há duas semanas.
De acordo com informações da revista CartaCapital, Mino enfrentava problemas de saúde há um ano, com frequentes internações hospitalares.
Inseparável de sua fiel máquina de escrever Olivetti, Mino é um nome que se entrelaça com a história do jornalismo no Brasil. Ele integrou a equipe fundadora do Jornal da Tarde na década de 1960 e foi um dos responsáveis pelo lançamento da revista Veja, considerada um marco nas publicações semanais do país. Em seguida, fundou a Istoé e, na década de 1990, estabeleceu a CartaCapital.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou suas condolências em suas redes sociais, lembrando-se de sua amizade com Mino ao longo de quase cinco décadas. “Estas décadas de convivência me dão a certeza de que Mino foi — e sempre será — uma referência para o jornalismo brasileiro por sua coragem, espírito crítico e compromisso com um país justo e igualitário para todos os brasileiros e brasileiras”, afirmou Lula.
Em homenagem ao jornalista, o presidente decretou luto oficial de três dias e alterou sua agenda para comparecer ao velório.
Nascido em Gênova, Itália, como Demétrio Carta, Mino veio de uma família tradicionalmente ligada ao jornalismo; seu avô foi diretor de um periódico italiano. No entanto, existem controvérsias sobre sua data de nascimento: enquanto seu passaporte italiano registra 6 de novembro de 1933, outros documentos indicam 6 de janeiro de 1934. Mino optava por considerar a data do passaporte como correta.
Sua infância foi profundamente impactada pela Segunda Guerra Mundial. Em entrevista ao jornalista Lira Neto para o projeto Memória do Brasileiro – Jornalismo Contemporâneo, ele recordou as noites marcadas por bombardeios e as corridas da família para abrigos ao som das sirenes. Um dos irmãos ficou com sequelas emocionais por anos após o término do conflito.
Desde cedo demonstrou inclinações políticas à esquerda. Seu pai, Giannino Carta, era um antifascista que foi preso pelo regime de Mussolini em 1944 antes de conseguir fugir.
A família mudou-se para o Brasil quando Giannino recebeu uma proposta para dirigir a Folha de S. Paulo. Francisco Matarazzo Júnior, que buscava controle sobre o jornal, fez o convite; no entanto, devido à legislação brasileira que impedia italianos de possuírem meios de comunicação no país e a conflitos internos na empresa, Giannino acabou sem o emprego prometido.
Mino iniciou sua carreira jornalística ainda na adolescência, quando seu pai recebeu uma proposta para escrever sobre os preparativos do Brasil para a Copa do Mundo de 1950. Como seu pai não gostava de futebol, passou a tarefa ao filho. Com isso, Mino vislumbrava comprar um terno azul para usar em bailes.
A família retornou à Itália em 1956, onde Mino começou sua trajetória no jornalismo local e trabalhou como correspondente para publicações brasileiras como Diário de Notícias e Mundo Ilustrado.
Posteriormente, seu pai voltou ao Brasil para assumir a editoria internacional do O Estado de S. Paulo e logo Mino recebeu um convite da Editora Abril para liderar a revista Quatro Rodas. Sua crítica incisiva frequentemente atingia até mesmo seus superiores. Ele se lembrava que o sucesso da revista se devia ao fato dele não entender nada sobre automóveis.
Mino saiu da Quatro Rodas após ser chamado por Julio Mesquita Neto para criar uma nova publicação esportiva no O Estado de S. Paulo. Após um ano, essa iniciativa resultou na fundação do Jornal da Tarde em 1966.
Descontentado com o apoio do jornal ao golpe militar de 1964, Mino aceitou outro convite da família Civita para retornar à Abril e criar a revista Veja. Durante este período conturbado da ditadura militar brasileira, ele enfrentou censura severa e repressões diretas contra jornalistas críticos ao regime.
Ele relatou ter sido convocado diversas vezes pela Polícia Federal e ter sido preso em duas ocasiões por suas convicções editoriais. Orgulhava-se das denúncias que fez na Veja contra torturas cometidas pelo regime militar.
A saída de Mino da Veja envolveu tensões significativas com os Civita e divergências sobre pedidos governamentais para demitir colaboradores críticos. Após deixar a revista, ele teve uma breve passagem pela Folha antes de fundar a Istoé.
Na Istoé, estabeleceu uma amizade duradoura com Lula e contribuiu para elevar a imagem pública do líder sindical nas décadas seguintes.
Em 1994 fundou a CartaCapital, cujo nome não tinha relação direta com seu sobrenome. A revista rapidamente se consolidou como uma publicação crítica e alinhada à esquerda política brasileira durante os governos subsequentes.
A partir de 2001, CartaCapital passou a ser semanal em resposta à competitividade crescente no setor editorial.
Após enfrentar perdas pessoais significativas nos últimos anos — incluindo a morte trágica de seu filho Gianni em 2019 — Mino encontrou apoio em sua filha Manuela Carta que assumiu o legado familiar na editora e preservou uma herança significativa que remonta à sua história familiar.