MixBrasil 2025 reinventa a arte queer com filmes criados por IA

Festival celebra 33 anos com 142 filmes, oito espetáculos e a primeira mostra competitiva de produções feitas com inteligência artificial

Crédito: (Divulgação)

O Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade chega à sua 33ª edição reafirmando o posto de maior evento cultural LGBT+ da América Latina. De 12 a 23 de novembro, São Paulo será palco de uma imersão artística e política que une cinema, teatro, literatura, tecnologia e representatividade sob o tema “A Gente Quer+”.

Mesmo em um cenário desafiador para a cultura, o MixBrasil mantém o vigor que o consagrou como símbolo de resistência, inovação e celebração da diversidade. A cada edição, o festival reafirma sua capacidade de se reinventar, unindo arte, política e afeto em uma plataforma que ultrapassa fronteiras. Para o diretor André Fischer, essa vitalidade nasce da coletividade que sustenta o projeto. “O MixBrasil se tornou uma força transformadora, movida por equipes, artistas e um público que acredita na potência da produção cultural LGBTQIA+”, afirma.

A reinvenção como resistência

A colaboração internacional foi essencial para viabilizar a edição de 2025. Fischer explica que parcerias com a França e outros países da Europa permitiram expandir o alcance do evento, mesmo em tempos de retração de patrocínios. “O MixBrasil se reinventou como plataforma global de afeto, inovação e ousadia, qualidades que sempre definiram a criatividade brasileira”, conta.

A abertura, em 12 de novembro, trará o longa francês “Me Ame com Ternura”, de Anna Cazenave Cambet, exibido em Cannes e inédito em São Paulo. A diretora apresentará o filme no Brasil, seguido pela homenagem a Marisa Orth, que desde 1999 conduz o lendário Show do Gongo. Ela receberá o Prêmio Ícone Mix, em reconhecimento à sua contribuição à história do festival.

Inteligência Artificial e a poética do algoritmo

Entre as grandes novidades está a Mostra Competitiva de Inteligência Artificial, que reúne 24 filmes criados com ferramentas de IA, sendo 19 em competição e outros cinco em parceria com o Festival Internacional de Vídeo e Inteligência Artificial de Marselha (FIVIA).

Para Fischer, a proposta não é apenas tecnológica, mas conceitual. “A Mostra de Inteligência Artificial nasceu desse espírito curioso que nos move: entender a tecnologia como aliada e não como ameaça. A IA pode nos ajudar a preservar memórias, reconstruir arquivos e imaginar futuros que ainda não existem, inclusive futuros mais diversos e empáticos”, afirma. Ele acrescenta que essa nova linguagem desafia o próprio conceito de autoria. “A ideia é repensarmos o que é autoria, identidade e até o próprio conceito de humanidade. No fundo, o que a gente está fazendo é criar pontes entre o corpo e o código, entre a ancestralidade e o algoritmo”, define.

Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade - André Fischer
André Fischer, diretor do Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade (Reprodução/Instagram)

Filmes que traduzem um mundo em transformação

A programação internacional exibe obras que passaram pelos principais festivais do mundo. Estão entre os destaques “Twinless – Um Gêmeo a Menos” (Sundance), “O Olhar Misterioso do Flamingo” (Cannes), “Meu Peito em Chamas” (Málaga), “A Sapatona Galáctica” (Festival do Rio) e “Manok”, da Coreia do Sul.

Já os longas brasileiros reforçam a potência da produção nacional, com obras como “Apenas Coisas Boas”, “Apolo”, “Torniquete”, “Trago Seu Amor”, “Arrenego”, “Ato Noturno” e “Ruas da Glória”. A série “Ayô”, dirigida por Yasmim Thayná, terá, inclusive, pré-estreia com Lucas Oranmian, Lázaro Ramos, Caio Blat e Tania Toko.

Teatro, literatura e XR: a expansão da experiência

No teatro, o Dramática Mix apresenta oito espetáculos que exploram corpo, trauma e reinvenção. Peças como “Bigorna”, “Irremediáveis” e “Segredos Privados para uma Vida Sexual Pública” destacam trajetórias que unem dor e liberdade, enquanto “Hospital de Puppet” mistura performance, ópera e experimentação visual.

A literatura ganha voz com o Mix Literário, em sua 8ª edição, que promove debates e prêmios com autoras e autores nacionais e estrangeiros. Entre as presenças confirmadas está Anne Pauly, escritora francesa celebrada pela força lírica de sua literatura lésbica contemporânea.

Nas artes visuais, a exposição “Kwir Nou Exist” homenageia a comunidade trans de Reunião, e o Museu da Diversidade Sexual abriga uma mostra organizada pela Vórtice Cultural, com curadoria voltada à criação coletiva e às narrativas dissidentes.

Premiado pela WSA Brasil 2025, o Mix XR reforça a presença da inovação no festival. A programação apresenta experiências em realidade virtual e o espetáculo imersivo “Kancícà”, um domo sensorial de 360° que conecta espiritualidade afro-brasileira e linguagem audiovisual. Para Fischer, o uso da tecnologia no Mix não é moda, mas propósito: “Trata-se de expandir o campo da sensibilidade e traduzir a diversidade em novas linguagens.”

Marcado para 18 de novembro, o Show do Gongo retorna ao Teatro Sérgio Cardoso sob o comando de Marisa Orth. O público participa ativamente, aplaudindo ou “gongando” curtas de até cinco minutos. A celebração é um dos símbolos do festival, mistura de humor, provocação e ternura, e segue como uma das experiências mais catárticas da cultura queer brasileira.

Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade - Marisa Orth - Show do Gongo
Marisa Orth comanda o tradicional Show do Gongo no MixBrasil (Divulgação)

MixBrasil: legado que transcende gerações

Ao completar 33 anos, o MixBrasil consolida-se como um dos festivais mais longevos e influentes da América Latina, reconhecido por revelar talentos, acolher novas linguagens e transformar narrativas em resistência. Fischer vê nessa trajetória um gesto coletivo de permanência e propósito. “Chegar aos 33 anos é um feito raro para um festival independente. O MixBrasil nunca foi só um evento, é um movimento cultural, um ponto de encontro onde política, prazer e arte se misturam.”

Com edições marcadas por experimentação e sucesso de público, o festival se tornou referência internacional em representatividade e curadoria diversa. André Fischer reforça que o futuro do Mix é guiado pela expansão e pela escuta. “Essa edição nasce com entusiasmo e com o desejo de abrir espaço para mais vozes, mais linguagens e mais formas de existir. Porque querer mais é, acima de tudo, fazer história”, finaliza.

Serviço: 33º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade

Quando: 12 a 23 de novembro de 2025
Onde: CineSesc, CCSP, Spcine Olido, IMS Paulista, Reserva Cultural, MIS, Teatro Sérgio Cardoso, e outros.
Quanto: Gratuito (Reserva Cultural, Cinemark e Show do Gongo – R$ 20)
Mais informações: mixbrasil.org.br / @festivalmixbrasil

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 07/11/2025
  • Fonte: Teatro Liberdade