Jaguatirica volta à Mata Atlântica após reabilitação

Jaguatirica resgatada com sarna em Miracatu passou por meses de tratamento e foi devolvida à Mata Atlântica totalmente recuperada

Crédito: Reprodução Semil

Voltar para a floresta nem sempre significa apenas abrir uma caixa de transporte. Foi exatamente esse o desafio enfrentado por uma jaguatirica (Leopardus pardalis) que, após meses de tratamento e reabilitação no Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres de Registro (Cetras-Registro), da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), voltou à Mata Atlântica completamente recuperada na última quarta-feira (24).

O animal foi resgatado em uma área rural de Miracatu depois que moradores perceberam sua presença frequente nas proximidades de propriedades rurais, onde passou a buscar alimento entre criações de aves domésticas. A Polícia Militar Ambiental realizou o resgate e encaminhou a felina ao Cetras-Registro.

Os primeiros exames identificaram baixo peso, um ferimento em uma das patas traseiras e lesões na cabeça, orelhas e pescoço. A investigação clínica confirmou um diagnóstico incomum para animais silvestres da região: sarna. Além do tratamento imediato, a equipe coletou amostras biológicas para exames complementares que acompanharam toda a recuperação.

Tratamento garantiu retorno seguro à natureza

Durante os meses seguintes, veterinários monitoraram a evolução clínica da jaguatirica até a completa eliminação da doença. Somente após recuperar a saúde e demonstrar capacidade de sobreviver de forma independente foi autorizada sua soltura.

O destino escolhido foi a Reserva Legado das Águas, área estratégica da Mata Atlântica conectada a importantes Unidades de Conservação do Estado de São Paulo. O local oferece alimento, abrigo e um ambiente adequado para a adaptação de animais reabilitados.

Segundo Daniela Gerdenits, gerente do Legado das Águas, a reserva integra um importante corredor ecológico e reúne todas as condições necessárias para garantir a sobrevivência do animal, além de representar um exemplo da eficiência das parcerias voltadas à conservação da biodiversidade.

Para Hanna Sibuya Kokubun, chefe do Cetras-Registro, cada soltura simboliza muito mais do que o fim de um tratamento.

“Quando abrimos a caixa de transporte e vemos um animal voltar para a floresta, temos a certeza de que todo o esforço valeu a pena. Cada indivíduo devolvido à natureza representa uma nova oportunidade para a conservação da espécie e reforça a importância do trabalho realizado diariamente por toda a equipe do Cetras.”

Aproximação entre fauna e áreas ocupadas preocupa especialistas

A história da jaguatirica evidencia um fenômeno cada vez mais frequente: a aproximação entre animais silvestres e regiões ocupadas por pessoas.

Com a redução e fragmentação dos habitats naturais, diversas espécies passaram a circular próximas de sítios, fazendas e áreas urbanizadas em busca de alimento ou abrigo. Nesses cenários, os riscos aumentam significativamente, incluindo atropelamentos, ferimentos em cercas, agressões e a transmissão de doenças provenientes de animais domésticos.

A sarna diagnosticada no felino é um exemplo dessas ameaças. Outras enfermidades, como o herpes humano, também podem ser fatais para espécies como os saguis.

Considerada vulnerável à extinção no Estado de São Paulo, a espécie depende da preservação de cada indivíduo para manter suas populações. Ao encontrar um animal silvestre, a recomendação é não tentar capturá-lo, alimentá-lo ou afugentá-lo, acionando sempre os órgãos ambientais responsáveis.

Trabalho de conservação avança em São Paulo

A soltura também reforça os resultados das ações desenvolvidas pela Semil. Desde a criação do Grupo de Trabalho de Coexistência Humano-Fauna, em 2024, a Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia já respondeu a mais de 160 solicitações de orientação técnica relacionadas à presença de animais silvestres em áreas urbanas e rurais.

Como parte dessa estratégia, a secretaria promoveu, em maio, o 1º Encontro de Coexistência Humano-Fauna, em Anhumas, reunindo representantes de municípios paulistas para discutir prevenção de conflitos, manejo adequado da fauna e convivência sustentável.

Cetras-Registro acumula histórias de sucesso

A devolução da jaguatirica à Mata Atlântica soma-se a outros casos recentes de reabilitação conduzidos pelo Cetras-Registro.

Na semana anterior, uma fêmea de gato-do-mato-pequeno-do-sul retornou à floresta após quase seis meses de recuperação. Resgatada ainda filhote depois de ser separada da mãe durante um ataque de cães, foi alimentada com mamadeira, desenvolveu gradualmente os comportamentos naturais de caça e voltou ao ambiente natural preparada para viver sozinha.

Em maio, uma preguiça também foi devolvida ao Parque Estadual Carlos Botelho após se recuperar de um atropelamento que resultou na amputação de duas garras do membro dianteiro esquerdo.

Desde sua inauguração, em agosto de 2024, o Cetras-Registro recebeu 1.876 animais silvestres. Desse total, 479 concluíram o processo de reabilitação e cerca de 62% conseguiram retornar ao ambiente natural. Os demais foram encaminhados para empreendimentos autorizados, conforme critérios técnicos e as necessidades de cada espécie.

Cada soltura representa mais do que um número nas estatísticas: simboliza a recuperação da fauna paulista e reforça a importância do trabalho desenvolvido pelo Cetras-Registro para a conservação dos ecossistemas da Mata Atlântica.

  • Publicado: 29/06/2026 10:32
  • Alterado: 29/06/2026 10:32
  • Autor: Daniela Penatti
  • Fonte: Semil