A Ilusão do universo coach jovem no livro ‘CEO aos 14’

ABCdoABC faz um review de CEO aos 14, obra independente que expõe as armadilhas da cultura da hiperprodutividade e dos coaches entre jovens

Imagem ilustrativa da capa

Crédito: Imagem ilustrativa da capa

Em uma era dominada por algoritmos, métricas de vaidade e gurus digitais que prometem enriquecimento rápido, a ficção infantojuvenil brasileira ganha um olhar necessário com CEO aos 14, livro escrito e publicado de forma independente pelo jornalista e educador capixaba Maxwell dos Santos. A obra atua como um raio-X da chamada “cultura da hiperprodutividade” e da pressão prematura pelo sucesso corporativo exercida sobre adolescentes.

O enredo vai do isopor ao empreendedorismo de palco

CEO aos 14
Imagem ilustrativa da capa

A narrativa de CEO aos 14 se passa em Vitória (ES) e acompanha Lucas, um garoto de 14 anos que vende brigadeiros caseiros feitos por sua avó, Dona Lurdes, na Praça dos Namorados. Seu objetivo inicial é simples e palpável: juntar dinheiro para comprar uma bicicleta com marcha.

Tudo muda quando um gesto espontâneo de gentileza é filmado e viraliza nas redes sociais. O garoto atrai a atenção da organização Instituto Gigantes, liderado por Júlio Rattes, uma figura caricata e precisa dos coaches messiânicos modernos. 

Atraídos pela promessa de transformar o menino em um case de sucesso, a mãe de Lucas, Viviane (que trabalha como secretária), e a avó comprometem uma fatia esmagadora do orçamento doméstico para custear o programa de mentoria.

Aos poucos, Lucas é arrastado para uma engrenagem perversa: a obrigação de gravar vídeos diários, encenar reuniões em cafés de luxo para fingir sucesso até virar verdade e vender ingressos caros para os próprios eventos da instituição sob a ameaça de punições e humilhações públicas.

Os pontos altos de CEO aos 14

O principal trunfo de Maxwell dos Santos está na escolha da tecnologia como linguagem e elemento estrutural da narrativa. O livro CEO aos 14 utiliza mockups de conversas de WhatsApp, postagens do Instagram, threads do X (ex-Twitter) e modelos de contratos. Esse recurso confere um ritmo ágil e dinâmico, aproximando a leitura do universo digital do público jovem.

Outro ponto forte é a construção dos personagens e o contraste discursivo. Por exemplo:

Teco: O melhor amigo de Lucas funciona como a âncora de realidade e a voz da razão. É quem aponta, com o humor e a linguagem das ruas, a perda de identidade do amigo: “Esse papo de ‘gigante’ tá te comendo vivo. Tu não tá virando um empreendedor, Lucas. Tu tá virando um mentiroso.”

Tatiana: A coordenadora da escola representa o contraponto institucional e pedagógico. É ela quem batiza o drama vivido por Lucas com os termos “adultização precoce” e “evasão escolar interna“. Em uma das cenas mais marcantes, ela aconselha o garoto: 

“O conhecimento é o único investimento que não perde valor. A escola é o chão firme. (…) Não troque o seu chão firme por um palco de areia movediça.”

Já a decisão narrativa de não entregar um final ingênuo enriquece a obra. Após o escândalo e a queda de Júlio Rattes, Lucas descobre que dois de seus colegas (Marina e Léo) rapidamente transformaram o trauma do golpe em um novo produto de marketing de superação e resiliência, cobrando ingressos para palestras sobre como recomeçar do zero. 

A constatação de Lucas é cirúrgica. “A gente achou que tinha vencido, mas o Júlio sumiu e deixou o veneno. (…) Eles não são mais os coaches mirins do Júlio. Agora são os ‘sobreviventes resilientes’. É a mesma farsa, Teco. Só que com outro nome.”

CEO aos 14 também tem tropeços por falta de uma revisão profissional

Como ocorre em muitas publicações independentes nas quais o próprio autor acumula as funções de escrita, diagramação, capa e revisão final, a obra CEO aos 14 apresenta falhas formais de edição que prejudicam o acabamento técnico.

CEO aos 14
Reprodução

No Capítulo 10, por exemplo, a conversa inteira entre Lucas e a professora Tatiana no pátio da escola aparece duplicada na íntegra de forma idêntica logo na sequência. O leitor que compara o diálogo nas páginas 118–121 logo percebe que tem alguma coisa errada na narrativa.

O uso de um recurso criativo que dá dinâmica à história, os mockups de telas simuladas de redes sociais, traz pequenos artefatos e erros de digitação internos, como “O segerdo do nosso sabor” ou termos truncados como “cmietas”, observada na imagem da página 65.

Esses deslizes de CEO aos 14 demandam uma segunda edição com um trabalho rigoroso de preparação de texto e copidesque, medida que o autor confirmou à reportagem do ABCdoABC que está considerando.

Veredito do ABCdoABC

Apesar dos equívocos na revisão editorial, CEO aos 14 é um livro bom, urgente e necessário. Maxwell dos Santos constrói um alerta preventivo valioso para pais, educadores e adolescentes sobre os limites éticos do discurso de alta performance e os perigos da exploração financeira vestida de oportunidade.

É uma leitura que incomoda ao expor como a busca desesperada pela aprovação digital pode custar a infância, além de lembrar que a verdadeira liberdade pode estar, simplesmente, no ato de desenhar na mureta da praia sem a obrigação de postar.

Serviço

Título: CEO aos 14

Autor: Maxwell dos Santos

Gênero: Ficção juvenil brasileira

Editora / Publicação: Edição do Autor

Ano de lançamento: 2025

Número de páginas: 243 páginas

Responsabilidade editorial, capa e diagramação: Maxwell dos Santos

Formato: Recurso eletrônico / E-book

Venda: Amazon

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  • Publicado: 24/07/2026 14:51
  • Alterado: 24/07/2026 15:02
  • Autor: Thiago Quirino
  • Fonte: ABCdoABC