Bienal do Livro recebe obra Era uma vez uma história

Às vésperas da Bienal do Livro, Carla Meneghini fala sobre imaginação, infância, psicanálise e bloqueio criativo no livro "Era uma vez uma história"

Bienal do Livro recebe obra Era uma vez uma história

Crédito: Divulgação

Às vésperas da Bienal do Livro, uma história que nasceu presa na cabeça de sua criadora se prepara para encontrar novos leitores. Em Era uma vez uma história, primeiro livro infantojuvenil da escritora e psicanalista Carla Meneghini, a própria narrativa se transforma em personagem e decide que não quer passar a vida confinada à imaginação de sua autora. Ela quer virar livro, viajar pelo mundo e morar na cabeça de outras pessoas.

O problema é que sua criadora enfrenta um bloqueio criativo e não consegue encontrar um final que considere suficientemente bom. A partir daí, a personagem parte em uma jornada por diferentes lugares da mente, encontrando uma narrativa que esqueceu o próprio nome, uma princesa abandonada em um conto de fadas, duas minhocas chamadas Para Sempre e Nunca Mais e uma criatura misteriosa que guarda uma chave.

A aventura, porém, esconde uma discussão que ultrapassa a literatura infantil. Ao longo da história, Carla aborda medo de errar, autocobrança, infância, imaginação e criatividade, além da importância de encontrar espaço para elaborar aquilo que sentimos.

A aproximação com a Bienal do Livro ganha um significado especial justamente porque a protagonista deseja sair da cabeça de quem a criou e encontrar outras imaginações. A 28ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo acontece de 4 a 13 de setembro, no Distrito Anhembi, reunindo autores, editoras, leitores e atividades voltadas à literatura e à formação de novos leitores.

Para Carla, estar nesse ambiente representa justamente o encontro que está no centro de sua obra.

“A Bienal do Livro é um espaço privilegiado de encontro entre histórias e novas cabeças e corações. Para mim tem uma importância gigante poder fazer parte desse território de trocas tão fértil com este livro, que é justamente sobre esse encontro”, afirma.

Uma história dentro da própria história

Livro infantojuvenil "Era uma vez uma história" será apresentado na Bienal do Livro - (Divulgação)
Livro infantojuvenil “Era uma vez uma história” será apresentado na Bienal do Livro – (Divulgação)

A ideia de transformar a própria narrativa em personagem nasceu do desejo de Carla de construir uma obra que olhasse para si mesma.

“Surgiu de um desejo de construir uma narrativa que olhasse para si mesma, uma história dentro da história, exercitando um olhar reflexivo, algo que é muito explorado na literatura adulta, mas não tão exercitada pela literatura infantojuvenil”, explica.

O recurso permite que a autora trate do próprio processo de criação. Na história, a personagem fica paralisada porque sua autora procura um final supostamente genial.

“Muitas vezes deixamos de fazer coisas ou ficamos paralisados porque estamos fixados em caminhos idealizados, assim como a personagem fica procurando um final supostamente genial. Mas o bloqueio só pode ser superado quando há um desapego desse final idealizado”, diz.

A solução para a protagonista está justamente em abandonar a obrigação de encontrar a resposta perfeita e continuar caminhando.

Voltar ao início

Em determinado momento da aventura, a personagem recebe um conselho que se torna central para a narrativa: quando não souber para onde ir, deve voltar ao início de sua história.

Para Carla, essa ideia também encontra eco na psicanálise.

“Cada um de nós já foi criança e carrega dentro de si vivências do início da vida, que são muito importantes e, em verdade, constituem aquilo que somos. Olhar para o início de nossa própria história nos ajuda a entender qual é o nosso lugar no mundo e para onde devemos caminhar. Vejo esse processo acontecer com meus analisantes, na clínica psicanalítica”, afirma.

O retorno à infância ganha ainda mais força quando a protagonista encontra um suposto monstro escondido em um berço. A criatura, na verdade, é a própria escritora quando criança.

Em vez de combater aquilo que parece assustador, a personagem oferece acolhimento.

“Em Era uma vez uma história, eu quis lembrar que a literatura das infâncias não deve tentar ensinar à criança o que ela deve sentir ou fazer, e sim oferecer um lugar onde ela possa experimentar o que sente. E por mais que essa expressão possa parecer muitas vezes monstruosa, deve ser sempre acolhida”, afirma a autora.

Bienal do Livro e o encontro com o leitor

Se a personagem de Era uma vez uma história quer sair da cabeça da escritora e morar na imaginação de outras pessoas, a Bienal do Livro representa, na prática, esse momento de passagem.

É quando a obra deixa o espaço privado de quem a criou e encontra diferentes leitores, repertórios e interpretações.

“A literatura se faz no encontro entre o leitor e o escritor. É nesse encontro de inconscientes que está toda a mágica de uma história, porque cada leitor imagina de um jeito, relaciona com o seu repertório e inventa um pouquinho também. As melhores histórias deixam espaço para que o leitor possa contribuir”, diz Carla.

Em 2026, a Bienal do Livro reúne autores nacionais e internacionais, editoras, livrarias, atividades infantis e diferentes experiências ligadas à leitura. O evento ocorre no Distrito Anhembi e tem expectativa de receber cerca de 700 mil visitantes durante os dez dias de programação.

Para uma autora que escreveu justamente sobre uma história que deseja encontrar novas cabeças, o cenário parece especialmente adequado.

“A Bienal é um espaço privilegiado de encontro entre histórias e novas cabeças e corações”, reforça.

Mais do que apresentar livros, eventos desse tipo também podem funcionar como portas de entrada para quem ainda não construiu uma relação com a literatura.

“Eventos como a Bienal são muito importantes na formação de novos leitores, porque mostram a literatura como um campo rico, potente e diverso”, afirma.

Criatividade em tempos de telas

A discussão sobre leitura e imaginação ganha força em um momento em que crianças e adolescentes convivem diariamente com uma quantidade crescente de estímulos digitais. Uma pesquisa do Instituto Alana, citada na pauta, mostrou que 49% dos adolescentes entrevistados acreditam que sua criatividade diminuiu por causa do uso da internet.

Para Carla, entretanto, a questão não está apenas na quantidade de tempo diante das telas.

“A questão não é apenas o tempo de tela, mas também o uso que se faz das telas e a qualidade das atividades desenvolvidas. Se a tela tem a função de tentar só distrair a criança, a angústia é apenas silenciada. Enquanto uma atividade criativa pode dar um destino aos afetos e pode ajudar a criança a elaborar suas experiências. É preciso reservar tempo e espaço para a criatividade”, explica.

O ócio, o brincar e até o tédio podem ter uma função importante nesse processo.

“É preciso preservar tempo e espaço para atividades criativas, para que a criança ou o adolescente possa transformar seu mundo interno em representação, criar algo que não existia antes”, afirma.

E essa dimensão não desaparece com a infância. “O brincar é uma dimensão fundamental da existência humana, pode ser expressado de formas diversas ao longo da vida e deve ser preservado sempre”, defende.

Entre o jornalismo, a psicanálise e a literatura

A relação de Carla com as histórias também passa por sua própria trajetória. Com 20 anos de experiência no jornalismo, a autora passou por redações como Folha de S.Paulo e G1/TV Globo, além de ter trabalhado como roteirista e especialista em Comunicação Institucional.

Mais tarde, fez a transição para a Psicologia e a Psicanálise, área em que hoje atua clinicamente. As diferentes experiências, segundo ela, têm um ponto em comum.

“Uma história contada pode mudar mundos, e penso que esse sempre foi meu propósito de vida e minha paixão. Tive a sorte de, numa mesma vida, poder experimentar esse propósito de diversas formas e posições”, conta.

Em Era uma vez uma história, essas experiências se encontram em uma narrativa que fala de criação, mas também de acolhimento, memória e descoberta.

E a chegada à Bienal do Livro amplia justamente a pergunta central da obra: o que acontece quando uma história deixa de pertencer somente a quem a criou? Para Carla, a resposta está no próprio leitor. É ele quem acrescenta repertório, memória, imaginação e novas possibilidades àquilo que encontrou nas páginas.

Talvez seja esse o destino mais coerente para a protagonista de Era uma vez uma história: deixar a cabeça de sua criadora e finalmente ganhar novas vidas na imaginação de quem a lê.

Gabriel de Jesus

  • Publicado: 02/09/2026 21:49
  • Alterado: 02/09/2026 21:50
  • Autor: Gabriel de Jesus