Exposição-Performance “Sobre Pedras” com Solano Aquino
Participe da ação de Solano Aquino: o público corta calças e cria uma obra coletiva sobre a fusão de corpo, cidade e memória
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 22/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O asfalto, os paralelepípedos e as pedras portuguesas não são apenas o chão por onde caminhamos; nas mãos do artista plástico Solano Aquino, eles se tornam o berço da criação. Em uma expansão audaciosa de sua poética, Aquino traz a Santo André a performance-exposição “Sobre Pedras”, uma ação que transcende o conceito tradicional de arte urbana e convida o público a ser coautor. A performance, marcada para 25 de outubro, não é um mero espetáculo para ser assistido, mas um convite direto à participação, um gesto simbólico que visa costurar, literalmente, a memória do corpo à dureza da cidade.
O cerne da obra reside em um ritual coletivo e profundo: o público é instigado a levar uma peça de roupa, mais especificamente uma calça, que será metódica e colaborativamente cortada em quadrados de dez por dez centímetros. Esses retalhos de tecido, imbuídos da história e do uso de seus portadores, receberão então a ação de pintura do artista, transformando-se em células de uma tela maior. O destino final desses fragmentos é a construção de uma “grande calça”, uma escultura têxtil de dimensões simbólicas, que se estabelece como o ponto de fusão entre a identidade individual, o espaço urbano e o registro da memória coletiva. Não é apenas o corte do tecido, mas a ruptura simbólica entre o privado e o público que Solano Aquino coloca em cena.
A Rua como Ateliê e a Pedra como Ferramenta Viva
A trajetória artística de Solano Aquino tem suas raízes fincadas, de forma literal, no chão. Sua metodologia de trabalho subverte a lógica do ateliê convencional, elegendo a rua – com suas imperfeições, texturas e marcas – como o espaço primordial de criação. Suas obras emergem de uma dança entre tinta e superfície bruta, onde a primeira camada pictórica é aplicada diretamente sobre as irregularidades do solo urbano, seja ele o cimento frio do asfalto, a aspereza do paralelepípedo ou a composição cromática da pedra portuguesa.
O diário artístico da dureza mineral
Nesse processo singular, a cidade deixa de ser um mero suporte inerte para se tornar um agente criador ativo. As pedras, ao receberem as pinceladas de Solano, atuam como “ferramentas vivas“, imprimindo na obra suas texturas e cicatrizes naturais, uma espécie de carimbo geológico que singulariza cada peça. A rua, com seu fluxo ininterrupto e suas histórias não contadas, insere-se na pintura como um elemento narrativo indispensável. O artista estabelece uma poética da cidade que transforma a matéria mais rígida em um diário, onde cada mancha de tinta torna-se um registro efêmero do diálogo entre a dureza mineral da metrópole e a fluidez ilimitada da imaginação humana.
O trabalho de Aquino se constrói, portanto, sobre a noção de que o concreto pode ser atravessado pela arte, abrindo fissuras poéticas no cotidiano. O artista usa essa dualidade como um prisma para explorar a relação intrínseca entre o corpo, o vestuário e o espaço. Se a pedra é a “pele da terra“, o tecido da roupa funciona como uma extensão da “pele do artista“, uma interface social e simbólica que separa e conecta o indivíduo ao mundo. Em performances anteriores, suas próprias calças já serviram como tela, estabelecendo uma ponte material e conceitual entre o corpo que habita a cidade e a superfície da tela que a representa.
Corpo, Roupa e Espaço: A Extensão da Tela
Em “Sobre Pedras”, essa relação ganha uma dimensão comunitária. O ato de cortar as calças doadas pelo público é carregado de um simbolismo forte de desapego e fusão. O indivíduo cede uma peça de sua intimidade para que ela se dissolva e se reconstrua em um símbolo coletivo. Essa transmutação não é apenas estética, mas conceitual: a obra final é a materialização de uma memória partilhada, um mosaico de existências urbanas que se unem sob a égide da arte. Solano Aquino amplia a noção de arte urbana não por meio de manifestações mais conhecidas como o grafite ou o muralismo, mas pela apropriação do próprio chão como território criativo, redefinindo o palco da expressão artística.
Da Origem no Paraná à Expressão do Sentimento
Nascido em Apucarana, no Paraná, onde mantém seu ateliê, Solano Aquino carrega a influência de seu pai, o pintor Higino Aquino, em seu DNA artístico desde a infância. Sua obra é uma exploração incessante da expressão dos sentimentos, onde a cor, as camadas e o movimento se articulam para transformar a pintura em um exercício de observação aguçada, afeto manifesto e decisão consciente. O artista valoriza a autenticidade da experiência em seu processo, entendendo cada gesto e cada sobreposição de tinta como a construção de uma memória visível, um rastro palpável de sua jornada emocional e física. A performance “Sobre Pedras” em Santo André é, portanto, mais um capítulo dessa busca contínua por conectar a interioridade do ser com a vastidão e a aspereza do mundo exterior.
O evento em Santo André é uma oportunidade única para o público experimentar uma forma de arte que desafia as fronteiras tradicionais e convida à introspecção sobre como o nosso vestuário e o ambiente urbano moldam nossa identidade. A obra de Solano Aquino é um lembrete vibrante de que, mesmo na matéria mais rígida e aparentemente intransponível, sempre haverá espaço para a fissura poética.
SERVIÇO
Exposição-performance “Sobre Pedras” – Solano Aquino
Data: 25 de outubro de 2025
Horário: 15h
Local: Calçadão da Rua Coronel Oliveira Lima – Centro, Santo André – SP – 09010-000
Entrada: gratuita
Classificação: livre