Zico: o brasileiro que revolucionou o futebol japonês

Antes de o Japão se tornar presença constante em Copas do Mundo, Zico foi um dos protagonistas da profissionalização e do desenvolvimento do futebol no país

Crédito: (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Quando Brasil e Japão se enfrentam, a diferença de tradição entre as duas seleções costuma ser um dos temas mais discutidos. De um lado, o país que revelou Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo e tantos outros craques. Do outro, uma nação que só disputou sua primeira Copa do Mundo em 1998, cuja ascensão no futebol internacional é recente.

Mas existe uma ligação especial entre essas duas histórias. Muito antes do Japão se tornar uma das principais forças do futebol asiático, um brasileiro desembarcou no país para ajudar a construir as bases do esporte que os japoneses conhecem hoje.

O Pré-Zico

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(Divulgação)

Na década de 1980, o futebol ocupava um espaço modesto na sociedade japonesa. O beisebol era o esporte mais popular do país, enquanto as competições de futebol eram formadas principalmente por equipes ligadas a grandes empresas. Não havia liga profissional, os estádios raramente enchiam, e a seleção nacional sequer havia conseguido se classificar para uma Copa do Mundo.

Foi nesse cenário que Zico chegou ao Japão em 1991 para defender o Sumitomo Metals, clube que mais tarde se transformaria no Kashima Antlers. Aos 38 anos, o brasileiro já havia construído uma carreira histórica no Flamengo e na Seleção Brasileira. Muitos imaginavam que sua passagem pelo futebol japonês seria apenas o último capítulo de uma trajetória brilhante. A realidade, porém, foi muito diferente.

A Era Zico

A chegada de Zico coincidiu com um dos momentos mais importantes da história do esporte no país. O Japão preparava o lançamento da J.League, sua primeira liga profissional, criada em 1993 com o objetivo de popularizar o futebol e elevar o nível das competições nacionais. Para que o projeto desse certo, era necessário atrair estrelas capazes de gerar interesse dentro e fora dos gramados. Zico foi uma dessas estrelas, mas sua contribuição foi muito além dos gols e das assistências.

Dentro de campo, o brasileiro rapidamente se tornou a principal referência técnica do futebol japonês. Fora dele, ajudou a disseminar conceitos de profissionalismo que ainda eram novidade para muitos clubes locais. A influência de Zico foi tão profunda que o Kashima Antlers se transformou no clube mais vencedor da história do futebol japonês. Décadas depois de sua aposentadoria, sua estátua continua em frente ao estádio e sua imagem permanece associada à identidade da equipe.

O Pós-Zico

Zico
(Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Os efeitos dessa transformação começaram a aparecer rapidamente. Em 1998, apenas sete anos após a chegada de Zico ao Japão, a seleção japonesa disputou sua primeira Copa do Mundo. Quatro anos depois, o país sediou o torneio ao lado da Coreia do Sul. Nas décadas seguintes, o Japão passou a se classificar regularmente para o Mundial, desenvolveu uma das ligas mais organizadas da Ásia e se tornou um exportador constante de talentos para os principais campeonatos da Europa.

A relação entre Zico e o futebol japonês também não terminou com sua aposentadoria como jogador. Em 2002, ele assumiu o comando da seleção nacional e conquistou a Copa da Ásia de 2004, reforçando ainda mais o vínculo construído ao longo dos anos.

A reverência dos japoneses ao brasileiro ajuda a dimensionar seu legado. Até hoje, Zico é chamado de “Kami-sama”, ou ‘deus’, por torcedores e admiradores. Poucos estrangeiros receberam tamanho reconhecimento em um país tão distante culturalmente do seu.

Por isso, quando Brasil e Japão se encontrarem em campo pela Copa do Mundo, o duelo representará mais do que um simples confronto entre duas seleções: será também o encontro entre o país que revelou um dos maiores jogadores de sua história e a nação que encontrou nesse mesmo jogador uma das figuras mais importantes de sua própria revolução futebolística.

  • Publicado: 29/06/2026 12:05
  • Alterado: 29/06/2026 12:05
  • Autor: Vitor Bianco
  • Fonte: ABCdoABC