Venda ilegal de atestados médicos cresce no WhatsApp e Telegram 

Atestados médicos falsos são vendidos abertamente em redes sociais a partir de R$ 40, com ofertas de receitas e remédios controlados

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Perfis em redes sociais têm oferecido atestados médicos falsos, receitas controladas e laudos laboratoriais de forma aberta na internet, impulsionando um mercado clandestino que preocupa especialistas em saúde e direito. Os anúncios circulam principalmente no X (antigo Twitter) e direcionam usuários para grupos no WhatsApp e Telegram, onde os documentos são comercializados por valores a partir de R$ 40.

Levantamento do pesquisador Ergon Cugler, da FGV (Fundação Getulio Vargas) e integrante do DesinfoPop, identificou ao menos 31 perfis ativos anunciando o serviço na plataforma.

Além de atestados médicos, os grupos oferecem receitas para medicamentos controlados, laudos, exames laboratoriais e até remédios vendidos sem prescrição.

Atestados médicos falsos eram vendidos com tabela de preços

Entre os anúncios encontrados, vendedores prometem documentos “com CID, carimbo e CRM ativo”, além de atestados ajustados conforme o período desejado de afastamento do trabalho.

Uma tabela divulgada em um dos perfis previa os seguintes valores:

  • 1 dia de afastamento: R$ 40;
  • 2 dias: R$ 50;
  • 3 dias: R$ 60;
  • 11 a 14 dias: até R$ 130.

Nas conversas, os administradores solicitavam informações como nome completo, CPF, RG, endereço, CEP, cartão do SUS e até o nome da empresa empregadora, prometendo envio rápido dos documentos.

Além disso, muitos grupos exibiam supostos depoimentos de clientes, prints de conversas e comprovantes de pagamento para dar aparência de credibilidade ao esquema.

Medicamentos controlados eram vendidos sem receita

Além dos atestados médicos, os grupos também anunciavam a venda de medicamentos de uso controlado sem exigência de prescrição.

Entre os produtos oferecidos estavam:

  • Mounjaro;
  • Ritalina;
  • Venvanse;
  • Rivotril;
  • anabolizantes nacionais e importados;
  • peptídeos e substâncias para emagrecimento.

Segundo especialistas, o consumo sem acompanhamento médico pode provocar efeitos graves e mascarar doenças.

Especialistas alertam para riscos à saúde e crimes

A presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), Luciana Canetto, afirmou que o uso de medicamentos sem orientação profissional pode gerar complicações severas.

“Sem essa avaliação, o paciente fica exposto a riscos importantes como dependência, efeitos colaterais graves e até complicações potencialmente fatais”, afirmou.

A farmacêutica e professora Bárbara Gobira, do curso de Farmácia da Wyden, acrescenta que o uso inadequado pode causar alergias, complicações cardíacas, respiratórias, sedação intensa e confusão mental.

Compra e venda de atestados médicos pode gerar punições

De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), a emissão de documentos sem consulta ou avaliação clínica configura infração ética, já que atestados só podem ser emitidos após atendimento efetivo do paciente.

Na esfera criminal, especialistas afirmam que tanto quem vende quanto quem compra atestados médicos falsos pode responder judicialmente.

Segundo o advogado criminalista Caio Ferraris, os crimes variam conforme a participação dos envolvidos e a autenticidade dos documentos.

“Quando o médico participa conscientemente, a gente fala principalmente em falsidade ideológica. O documento é verdadeiro, mas o conteúdo inserido é falso”, explicou.

Dependendo do caso, os envolvidos ainda podem responder por falsidade documental, associação criminosa e crimes contra a saúde pública.

Plataformas dizem combater anúncios ilegais

Em nota, o Telegram afirmou que a venda ilegal de substâncias controladas e certificados médicos fraudulentos é proibida pelos termos da plataforma e que conteúdos são removidos quando identificados.

O WhatsApp informou que não permite uso do aplicativo para práticas ilícitas e orienta usuários a denunciarem conversas suspeitas.

Já o X não respondeu aos questionamentos até a publicação do material.

  • Publicado: 06/06/2026 09:33
  • Alterado: 06/06/2026 09:33
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: Ergon Cugler