USP lança réplicas 3D de monumentos para acessibilidade
Iniciativa "Sentir para Conhecer" promove inclusão cultural com tecnologia tátil e audiodescrição.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 09/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA
A Universidade de São Paulo deu um passo significativo rumo à inclusão cultural na última quarta-feira (3). O projeto Sentir para Conhecer: Monumentos da USP impressos em 3D foi oficialmente lançado com o objetivo de transformar o vasto patrimônio artístico da instituição em peças acessíveis. A iniciativa é liderada pelo professor Paulo Capel, da Faculdade de Odontologia (FO), e propõe a criação de réplicas táteis de esculturas famosas para ampliar o acesso de pessoas com deficiência visual.
O evento de inauguração ocorreu no Espaço USP Integração & Memória, localizado no edifício da Reitoria. A previsão é que o público geral possa interagir com parte desse acervo adaptado a partir de 2026.
Tecnologia a serviço da cultura inclusiva
A proposta central do projeto é romper barreiras físicas e sensoriais. A metodologia consiste na digitalização de esculturas monumentais, convertendo-as em arquivos tridimensionais para a produção de réplicas em escala reduzida via impressão 3D. O projeto não se limita apenas à forma; ele engloba um contexto educacional completo.
As obras contarão com conteúdo histórico e cultural em braile, em placas fornecidas pela Fundação Dorina Nowill. Além disso, estuda-se a implementação de audiodescrição ativada pelo toque em pontos específicos das peças, garantindo uma experiência imersiva.
Paulo Capel, que convive com baixa visão há cinco anos, tem focado sua carreira em tecnologias assistivas utilitárias. Contudo, ele enfatiza que esta nova empreitada da USP busca preencher uma lacuna subjetiva vital:
“A minha meta sempre foi propor acessibilidade, visando coisas com uma certa utilidade prática. […] O Sentir abarca uma coisa que eu vejo como muito importante, além do utilitarismo, que é a questão do acesso à cultura”.
Pesquisa e mapeamento do patrimônio
A base acadêmica da iniciativa remete à pesquisa de mestrado de Reinaldo Luiz dos Santos, sob orientação da professora Fabiana Lopes de Oliveira, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU). O estudo mapeou o potencial da Cidade Universitária como um museu a céu aberto, identificando obras de ícones como Caetano Fraccaroli, Bruno Giorgi e Rino Levi no campus Butantã da USP.
O projeto pretende expandir esse levantamento inicial para cobrir obras existentes em todos os campi da universidade, consolidando um inventário acessível sem precedentes.
Rigor técnico e equipe multidisciplinar
Para garantir a fidelidade das reproduções, uma equipe de especialistas trabalha em diversas frentes. Doutorandos da FAU utilizam drones e captura a laser para escanear os monumentos originais. Os dados são convertidos para o formato digital STL, essencial para a impressão tridimensionais.
Andrei Lescano, graduando de odontologia, é responsável pela verificação minuciosa dos detalhes nos softwares de impressão, assegurando que as características artísticas sejam preservadas na miniatura. Segundo Lescano:
“O ponto do projeto é a gente sentir para conhecer. Se ele não tem uma boa definição, detalhes importantes serão perdidos”.
A equipe da USP conta ainda com o reforço do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) para a produção de material em braile e automação dos modelos, além de colaborações externas com a Fatec e a Unifesp.
Impacto social e exposição artística
O lançamento coincidiu com o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência e integrou a 15ª Virada Inclusiva. Durante a cerimônia, foram expostas obras da série Sinus, do artista plástico Rogério Ratão, demonstrando na prática o valor da arte tátil.
Ratão comentou sobre a importância de poder tocar nas réplicas para compreender a magnitude das obras:
“São réplicas de grandes esculturas que eu não conhecia, a não ser de ouvir a descrição. Agora, podendo tocar, eu conheço a obra como ela é de fato”.
A professora Fabiana Oliveira reforçou que o projeto beneficia toda a sociedade, não apenas pessoas com deficiência, ao chamar a atenção para monumentos da USP que muitas vezes passam despercebidos no cotidiano.
A exposição da série Sinus permanecerá na ante sala da diretoria da Faculdade de Odontologia da USP até 17 de fevereiro, sendo transferida para a entrada da unidade no início do ano letivo de 2026.