Transposição da Billings: obra avança, impactos ficam e contrapartidas seguem indefinidas
Entre exigências legais e negociações estratégicas para transposição da Billings, município corre risco de repetir erros do passado sem garantir benefícios reais à população.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 31/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
O debate do momento em Rio Grande da Serra gira em torno da transposição das águas do braço da Represa Billings, o Rio Pequeno, para o Alto Tietê, na Represa Taiaçupeba.
Um grupo local, formado por lideranças comunitárias e especialistas, aponta que as obras previstas para a transposição da Billings — que incluem a instalação de tubos de grande porte para o transporte de água entre os reservatórios — devem causar transtornos significativos à população, especialmente em relação à mobilidade urbana. Além disso, alertam que a intensa movimentação de terra, estimada em cerca de 40 mil viagens de caminhões, tende a danificar a infraestrutura asfáltica das vias públicas.
Também são destacados os impactos ambientais, com possíveis prejuízos diretos à fauna e ao equilíbrio do ecossistema local.

Andamento do projeto de transposição da Billings
O que se sabe sobre o projeto de transposição da Billings, que envolve as cidades de São Bernardo do Campo, Rio Grande da Serra, Suzano e Mogi das Cruzes, é que a definição pela implantação definitiva da estrutura de transposição das águas foi indicada em 2024, durante o processo de privatização da Sabesp, quando foi apresentado o Plano de Segurança Hídrica, voltado ao enfrentamento das irregularidades no regime de chuvas e de eventuais períodos de seca nos reservatórios.
A partir desse marco temporal, pode-se afirmar que, até onde se tem conhecimento, a Prefeitura de Rio Grande da Serra, durante o governo de Penha Fumagalli (PSD), não se manifestou publicamente nem apresentou oposição formal ao projeto de transposição da Billings.
Posteriormente, em outubro de 2025, o projeto foi apresentado oficialmente à Prefeitura de Rio Grande da Serra e debatido com órgãos técnicos, como o Conselho Municipal de Meio Ambiente.
Dessa forma, é possível afirmar que o prefeito Akira Auriani (PSB), os conselheiros municipais de Meio Ambiente e os vereadores têm conhecimento do projeto e das obras previstas para o município desde, pelo menos, outubro do ano passado.

O que se observa em todo esse processo é um cenário que mistura oportunidades reais, necessidades históricas da cidade e, infelizmente, posturas oportunistas, que só prosperam quando o poder público está mais comprometido com interesses pessoais do que com o interesse coletivo.
A cortina de fumaça parece se repetir
Olhando para trás, durante a primeira obra de transposição da Billings para o sistema Taiaçupeba, em 2014, anunciada como temporária, o que Rio Grande da Serra presenciou foi a atuação de oportunistas que se beneficiaram da crise. Houve acordos particulares envolvendo transporte de terra, aterros irregulares e lucros expressivos obtidos por agentes políticos, com empresas de amigos inseridas no circuito da obra.
Naquele primeiro “banquete”, quem ficou com o prato vazio foi a população de Rio Grande da Serra, que não recebeu nenhuma contrapartida relevante em infraestrutura ou serviços públicos.
Agora, a atual estratégia da Prefeitura parece se resumir a uma cortina de fumaça: anunciar que não autorizará a obra de transposição da Billings no município enquanto não forem apresentados o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA).
Trata-se de uma postura que, na prática, não impede o avanço da obra, já iniciada em Suzano, e que, muito provavelmente, quando alcançar Rio Grande da Serra — daqui a vários meses —, já contará com toda a documentação ambiental exigida.

Enquanto isso, o gesto simbólico funciona apenas como um “bode na sala”, preparando o terreno para que obrigações legais básicas — como recuperação de áreas afetadas, realocação de infraestrutura municipal (rede elétrica, asfalto), monitoramento contínuo de ruídos, drenagem e solo — sejam vendidas como grandes conquistas oriundas de “reivindicações e protestos”.
Na realidade, conquistas reais para a cidade são aquelas que extrapolam o escopo das obrigações legais da empresa responsável pela obra.
Urbanização, implantação de equipamentos públicos, melhorias estruturais duradouras e investimentos que deixem legado são exemplos do que deveria estar no centro de uma negociação séria sobre a transposição da Billings. Afinal, negociar com uma empresa privada que gera lucro a seus acionistas exige visão estratégica: é preciso conquistar tudo o que for possível — e um pouco mais — para compensar os impactos impostos à infraestrutura e à qualidade de vida em Rio Grande da Serra.
Márcio Prado

Márcio Prado, mais conhecido como Peninha, carrega há anos o apelido inspirado no personagem dos gibis da Disney. Jornalista com mais de uma década de atuação, ele encontrou no jornalismo investigativo sua vocação, movido pela indignação diante de apurações superficiais e pela determinação em expor esquemas de corrupção, desvios de recursos e práticas ilícitas no poder público e na iniciativa privada. Seu trabalho vai além da publicação direta: muitas vezes contribui de forma anônima com órgãos de investigação, fortalecendo a cidadania e reafirmando o papel da imprensa como fiscal da sociedade.