Trabalho infantil no Carnaval dispara e mobiliza proteção no ABC
Violações aumentam 38% durante a folia. Saiba como o Instituto Ficar de Bem e prefeituras do ABC atuam para proteger crianças e adolescentes
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 18/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Trabalho infantil no Carnaval é uma realidade dura que contrasta com a alegria das avenidas, exigindo atenção redobrada do poder público e da sociedade. Enquanto os blocos tomam as ruas, uma estatística alarmante ganha força: a exploração de crianças e adolescentes cresce, em média, 38% durante os dias de folia, segundo estimativas do Ministério Público do Trabalho (MPT).
Esse aumento não é acidental. Ele reflete a informalidade econômica gerada pela festa, na qual menores são empurrados para vender bebidas, carregar mercadorias ou coletar recicláveis. Para enfrentar esse cenário no Grande ABC, as prefeituras de Santo André e São Bernardo do Campo intensificaram a parceria com o Instituto Ficar de Bem. O objetivo é claro: identificar situações de risco em tempo real e garantir que a rede de proteção funcione antes que danos irreversíveis ocorram.
O cenário alarmante da exploração sazonal

O Brasil vive um momento delicado no combate a essas violações. Dados de 2024 do IBGE apontam que mais de 1,6 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos vivem em situação de trabalho infantil no país. Quando o calendário marca o início das festividades, a vulnerabilidade dessas famílias se agrava.
O ministro Alberto Bastos Balazeiro, coordenador-geral do Programa de Combate ao Trabalho Infantil da Justiça do Trabalho, alerta para os riscos invisíveis. Além do esforço físico, a exposição inclui:
- Violência física e psicológica.
- Risco acentuado de exploração sexual.
- Contato direto com álcool e outras drogas.
- Jornadas exaustivas sob calor intenso.
Até mesmo o auxílio aos pais, muitas vezes visto como inofensivo, representa um perigo real. A presença de menores em ambientes de aglomeração e comércio ambulante viola direitos fundamentais e compromete o desenvolvimento pleno dessa população.
Estratégia de inteligência e prevenção no ABC

Para combater o trabalho infantil no Carnaval, a atuação não pode ser improvisada. No Grande ABC, a operação liderada pelo Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS), executado pelo Instituto Ficar de Bem, começa muito antes do primeiro trio elétrico sair.
Amanda Rastelli, gerente de projetos do Instituto, revela que a inteligência da operação se baseia no mapeamento prévio. A equipe utiliza históricos de ocorrências para identificar “pontos de calor” — locais com grande fluxo de pessoas e alta probabilidade de violações.
“A inteligência da operação começa antes do Carnaval. Trabalhamos com mapeamento prévio de pontos críticos, articulando com a rede do município. Contamos com profissionais qualificados e rotas bem definidas para encaminhar rapidamente para o CRAS, CREAS e Conselho Tutelar”, explica Rastelli.
Essa preparação antecipada inclui ações de conscientização. Panfletagens e orientações em espaços públicos buscam alertar a sociedade e antecipar riscos, criando uma barreira de proteção preventiva.
Entre a cultura e a necessidade no trabalho infantil no Carnaval

Um dos maiores desafios enfrentados pelas equipes de abordagem é a barreira cultural. Existe uma crença enraizada em parte da população brasileira de que “o trabalho forma caráter” ou que é “melhor trabalhar do que estar na rua”. Essa mentalidade, somada à crise econômica, cria um ciclo difícil de romper.
Amanda Rastelli esclarece que esses fatores, necessidade econômica e cultura, se retroalimentam. A vulnerabilidade financeira, marcada pela insegurança alimentar e desemprego, empurra as famílias para a rua. Contudo, a naturalização do trabalho precoce pelo folião que compra o produto, achando que está ajudando, perpetua o problema.
A gerente de projetos é enfática ao desmontar o mito de que o trabalho infantil é uma alternativa segura:
“A legislação brasileira é clara: trabalho infantil é violação de direitos. Ele compromete o desenvolvimento físico, emocional e educacional. Quando um folião compra um produto de uma criança, muitas vezes o faz com boa intenção, mas acaba reforçando uma prática que a expõe a riscos.”
Como combater o trabalho infantil no Carnaval com abordagem técnica

Abordar uma criança em meio ao caos sensorial de um bloco de rua exige técnica apurada para não gerar revitimização. O SEAS utiliza a escuta qualificada e uma linguagem protetiva. O foco nunca é a punição da família ou o constrangimento da criança, mas a interrupção da violação.
A equipe aplica atividades lúdicas para estabelecer vínculos rápidos, permitindo que a intervenção ocorra de forma segura. Em 2025, essa metodologia resultou na abordagem de 2.389 crianças e adolescentes somente na região do ABC. Esse número expressivo demonstra a capilaridade da ação e a urgência do problema.
É fundamental entender que a abordagem durante o trabalho infantil no Carnaval é apenas a “porta de entrada”. A prevenção real acontece no dia seguinte, quando a rede de proteção atua para evitar que aquela família retorne à mesma situação na Páscoa ou no Natal.
O fluxo de atendimento segue uma lógica rigorosa de garantia de direitos:
- Identificação: Localização da situação de risco.
- Vínculo: Abordagem técnica e lúdica.
- Encaminhamento: Direcionamento para CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) ou CREAS.
- Inclusão: Acesso a programas de transferência de renda e orientação familiar.
O papel da sociedade e a expansão da rede

A luta contra a exploração precoce não se restringe a Santo André e São Bernardo do Campo. O Instituto Ficar de Bem mantém diálogos constantes para expandir esse modelo estruturado para outros municípios do Grande ABC, adaptando as ações conforme a demanda local.
Para a sociedade, a orientação é não ser conivente. A ajuda financeira direta à criança na rua, embora pareça caridosa, financia a permanência dela em situação de risco. A atitude correta é acionar os canais oficiais sempre que houver suspeita de violação.
O combate ao trabalho infantil no Carnaval depende de uma vigilância coletiva. Se você presenciar situações de exploração, denuncie. O Disque 100 é o canal nacional de denúncias de violações de direitos humanos, funcionando 24 horas por dia. Proteger a infância é garantir que a única obrigação de uma criança durante a folia seja brincar.