Trabalho infantil cai 9,2% e atinge menor nível desde 2016

Apesar da queda histórica impulsionada por programas sociais, o mercado informal ainda explora quase um milhão e meio de jovens.

Trabalho infantil cai 9,2% e atinge menor nível desde 2016

Crédito: Ministério do Trabalho

O trabalho infantil atingiu o menor patamar dos últimos dez anos no Brasil. Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a prática sofreu uma retração de 9,2% em 2025. O cenário evidencia avanços nas políticas de proteção, mas escancara uma realidade ainda hostil para quase 1,5 milhão de crianças e adolescentes sujeitos a uma condição incompatível com a infância.

As estatísticas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) detalham o peso dessa exploração precoce. Esse contingente representa 4,0% da população brasileira na faixa etária entre 5 e 17 anos. O levantamento demonstra que a necessidade de sobrevivência empurra milhares de jovens para longe das salas de aula.

Os pesquisadores identificaram que 1,141 milhão de jovens realizavam atividades econômicas de forma direta, buscando alguma forma de remuneração. Uma parcela menor, composta por 358 mil meninos e meninas, efetuava apenas produção para o próprio consumo. A soma dessas frentes consolida o menor índice da série histórica iniciada em 2016.

“O percentual de pessoas ocupadas nessas condições atingiu o menor nível da série, consolidando uma tendência de queda observada nos últimos anos”, informou o órgão responsável pela pesquisa. A redução acumulada chegou a 0,9 ponto percentual da proporção de crianças exploradas entre 2022 e 2025.

A Vulnerabilidade Crescente na Adolescência

Trabalho infantil
Reprodução

A idade atua como um fator determinante na inserção precoce no mercado. O diagnóstico do IBGE comprova que a prevalência do trabalho infantil aumenta drasticamente à medida que os jovens envelhecem. O ingresso no mercado informal surge como uma via para ajudar no orçamento doméstico ou buscar a própria independência financeira.

A distribuição etária revela a gravidade do problema na reta final da adolescência. Mais da metade dos explorados encontra-se na faixa de 16 a 17 anos. O detalhamento das faixas etárias ajuda a compreender a evolução dessa dinâmica no território nacional:

  • O grupo de 5 a 13 anos registra uma estimativa de 1,1% de ocupação, representando a base da pirâmide de exploração.
  • A faixa de 14 e 15 anos eleva o índice para 5,9%, refletindo o início das pressões econômicas familiares.
  • O segmento de 16 e 17 anos concentra a maior fatia, com 14,5% dos jovens trabalhando, momento em que a evasão escolar se torna mais severa.

O tempo dedicado a essas atividades também cresce com o avanço da idade. Quase metade das pessoas do grupo de 16 e 17 anos trabalhou um mínimo de 25 horas semanais. Uma parcela alarmante de 29,6% dos adolescentes mais velhos cumpriu jornadas exaustivas de 40 ou mais horas na semana.

A exaustão provocada pelo trabalho infantil afeta frontalmente o rendimento e a permanência nos estudos.. Apenas 79,6% dos trabalhadores de 16 e 17 anos frequentavam a escola em 2025. O número contrasta fortemente com o índice geral dessa mesma faixa etária, onde 89,6% da população total continuava matriculada nas instituições de ensino.

Disparidades Regionais e Demográficas

A geografia do trabalho infantil expõe os contrastes socioeconômicos do país. A Região Sudeste, dona da maior densidade populacional, abriga o maior número absoluto de vítimas. O mapeamento do trabalho infantil evidencia como a desigualdade se distribui pelos estados:

  • A Região Sudeste lidera em números absolutos com 481 mil crianças e adolescentes afetados, embora registre o menor percentual do país (3,3%).
  • O Nordeste ocupa a segunda posição, acumulando 408 mil jovens em atividades laborais precoces.
  • A Região Norte apresenta a maior proporção relativa, abrangendo 6,3% de sua população infantil, totalizando 249 mil pessoas.
  • O Sul e o Centro-Oeste somam, respectivamente, 233 mil e 128 mil indivíduos inseridos nessa mesma dinâmica de vulnerabilidade.

O recorte demográfico revela que a cor da pele e o gênero determinam o grau de exposição ao risco. Os meninos formam a imensa maioria da força de trabalho prematura. Os homens correspondiam a 65,4% do total de explorados em 2025. A redução entre a população masculina foi de 10,0% no último ano, caindo de 1,089 milhão para 980 mil pessoas.

As meninas também registraram queda em sua participação. A população feminina explorada reduziu 7,5%, passando de 561 mil para 519 mil jovens. A disparidade racial permanece como uma marca profunda nas estatísticas. Apenas 3,2% das crianças declaradas brancas exerciam atividades laborais, contra 4,4% daquelas de cor ou raça preta ou parda.

Ministério do Trabalho

Setores de Atividade e as Piores Formas de Exploração

A esmagadora maioria das vítimas de trabalho infantil atua fora das lavouras e campos agrícolas.. Aproximadamente 83,3% da mão de obra juvenil concentra-se em atividades não agrícolas. O comércio desponta como o principal destino dessa população.

O detalhamento dos grupamentos econômicos mostra a diversificação dessa mão de obra barata. O setor de comércio e reparação de veículos absorve 29,0% das vítimas. A agricultura retém 16,7% dos explorados, seguida pela indústria geral com 12,5% e serviços de alojamento e alimentação com 12,2%. O trabalho doméstico remunerado engloba 6,5% do contingente total.

A face mais cruel dessa estatística concentra-se nas ocupações perigosas. A pesquisa mapeou as atividades classificadas na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP). O levantamento identificou 525 mil pessoas submetidas a essas condições extremas de insalubridade e risco físico.

Esse grupo representa 36,2% do total de jovens que realizavam atividades econômicas. O perfil dessas vítimas extremas é majoritariamente masculino e negro. Os homens representam 72,6% do contingente na Lista TIP, enquanto as pessoas pretas ou pardas somam 68,3%. Apesar da gravidade, o número absoluto é o menor da série histórica, acumulando uma redução de 31,2% desde 2022.

O Impacto dos Programas de Transferência de Renda

A dependência financeira dita as regras do ingresso precoce no mercado informal. O rendimento médio mensal obtido por esses jovens foi estimado em R$ 936. A discrepância de ganhos entre os que estudam e os que abandonaram as salas de aula é gritante. Os trabalhadores que frequentavam a escola ganhavam em média R$ 844, enquanto os evadidos alcançavam R$ 1.326.

O Programa Bolsa Família demonstrou ser a principal barreira contra essa evasão e exploração. O país possuía 13,1 milhões de pessoas de 5 a 17 anos residentes em domicílios beneficiados pelo programa, representando um terço dessa população. O abismo social fica evidente na renda dessas famílias. O rendimento médio per capita nos lares beneficiados era de apenas R$ 660, contra R$ 1.990 nos domicílios não contemplados.

A injeção de recursos do governo federal mudou drasticamente a realidade dessas famílias. A queda do trabalho infantil ocorreu quase exclusivamente entre os beneficiários do Bolsa Família. A retração nesse grupo específico respondeu por mais de 95% da redução total registrada em todo o país.

Em 2016, a diferença na taxa de trabalho infantil entre beneficiários e não beneficiários era de 2,1 pontos percentuais. Essa margem despencou para apenas 0,4 ponto percentual em 2025. O auxílio estatal atenuou a urgência alimentar e manteve milhares de adolescentes nas escolas.

A Sobrecarga Invisível do Cuidado Doméstico

As estatísticas oficiais muitas vezes mascaram uma segunda jornada exaustiva vivida dentro das próprias casas. Milhões de jovens realizam tarefas essenciais de manutenção do lar ou cuidam de parentes sem receber qualquer tipo de remuneração. O levantamento apontou que 15,9 milhões de pessoas realizavam trabalho doméstico não remunerado e cuidados de pessoas em 2025.

Essa carga invisível afeta 42,1% de toda a população de 5 a 17 anos no Brasil. A divisão dessas tarefas possui um forte recorte de gênero. As mulheres representam 47,9% do contingente sobrecarregado com os afazeres do lar, contra 36,6% dos homens.

A idade também intensifica as responsabilidades caseiras. O grupo de 16 e 17 anos lidera o engajamento nessas atividades. Exatos 64,6% dos adolescentes mais velhos assumem responsabilidades domésticas constantes. O cruzamento da rotina doméstica com o trabalho infantil revela uma dupla jornada punitiva para milhares de jovens.

Os números mostram que 944 mil crianças e adolescentes exerciam atividades econômicas e ainda cuidavam da própria casa. A necessidade de trabalhar fora não isenta o jovem das obrigações do lar. Entre aqueles que realizam atividades econômicas, 65,1% também estão sobrecarregados com afazeres domésticos.

O Brasil avança lentamente no amparo aos seus cidadãos mais jovens. A expansão contínua da rede de proteção social provou ser a única ferramenta estrutural capaz de reverter o abandono escolar e a miséria. O desafio atual do Estado consiste em manter a erradicação do trabalho infantil como política prioritária, impedindo que flutuações econômicas futuras devolvam milhares de adolescentes para os semáforos e fábricas informais.

Thiago Antunes

  • Publicado: 17/10/2026 11:48
  • Alterado: 17/10/2026 11:48
  • Autor: Thiago Antunes