A arte como espaço de existência e resistência
No ABC Cast Conexões, Anne Helmuth fala sobre arte, fé, identidade e política e mostra como construiu sua trajetória entre criação, coragem e resistência
- Publicado: 17/10/2026 08:15
- Alterado: 17/10/2026 08:15
- Autor: Edvaldo Barone
Entrar em um ônibus, atravessar uma rodoviária, procurar emprego, sentar-se na plateia de um teatro, caminhar por uma cidade sem perceber os olhares ao redor. Para grande parte das pessoas, são acontecimentos banais, incorporados à rotina sem que seja necessário pensar sobre o direito de estar ali. Para quem passa boa parte da vida tendo o corpo observado, questionado e transformado em assunto público, ocupar esses mesmos espaços pode carregar uma tensão que permanece invisível para quem nunca precisou explicá-los.
No Brasil, essa distância entre existir e poder simplesmente existir ganha uma dimensão brutal. Pelo 18º ano consecutivo, o país apareceu em 2025 na liderança mundial dos assassinatos registrados de pessoas trans e de gênero diverso. O levantamento internacional Trans Murder Monitoring (TMM) contabilizou 281 mortes no mundo entre outubro de 2024 e setembro de 2025, aproximadamente 30% delas ocorridas em território brasileiro. A própria Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) alerta que a violência convive ainda com subnotificação e dificuldades de registro.
Os números descrevem a consequência extrema de uma realidade que também se manifesta antes da violência física. Ela aparece quando alguém precisa calcular como será recebido em determinado ambiente, quando um corpo vira motivo de curiosidade, quando aparência, voz, nome ou documento despertam uma avaliação que outras pessoas atravessam sem perceber. É nesse espaço cotidiano, muitas vezes menos visível, que a história de Anne Helmuth encontra a experiência de tantas outras pessoas trans.
Diretamente de Porto Alegre, a atriz, modelo e ativista Anne Helmuth, de 23 anos, participa do ABC Cast Conexões para falar sobre arte, identidade, fé, trabalho, política e os caminhos que encontrou para construir a própria trajetória artística. Ao longo da conversa, ela relembra experiências que ajudaram a formar sua relação com a cultura, da literatura ao teatro, do cinema à moda, e também aborda as barreiras enfrentadas desde a adolescência. Anne prefere, porém, ser reconhecida pelo que cria, pelos espaços que ocupa e pela forma como transformou a arte em linguagem para existir no mundo.
Desde muito jovem, Anne Helmuth aprendeu o que significa sentir o corpo submetido ao olhar dos outros. A atriz transicionou ainda na passagem da infância para a adolescência e recorda uma sensação permanente de avaliação, como se houvesse sempre alguém tentando verificar sua aparência, medir seus gestos e decidir se ela correspondia ou não a determinada expectativa. “Como eu transicionei muito cedo, fui condicionada a um papel de objeto, de desumanização muito grande. Você está sempre sendo vista, as pessoas estão vendo se você está alinhada, estão te estudando, te medindo o tempo todo”, afirma.
Essa vigilância ajuda a compreender uma expressão que se repete ao longo da conversa. Para Anne, viver como uma pessoa trans também significou entrar cedo em contato com vulnerabilidades que ultrapassavam sua identidade de gênero. “A transição é como um encontro direto com a nossa fragilidade. Toda hora a gente está exposto como uma ferida aberta, para um público que pode colocar sal, pode colocar um dedo ali. A gente está totalmente exposto à descoberta da nossa vulnerabilidade social, psíquica, emocional, afetiva e econômica”, diz.
Para quem nunca teve a identidade transformada em discussão pública, talvez seja difícil imaginar o desgaste de entrar em um ambiente e perceber que alguém está tentando decifrar seu corpo. Anne conta que ainda escuta comentários como “você nem parece trans”. Para ela, a frase carrega uma ideia anterior sobre como uma pessoa trans deveria parecer e quais lugares socialmente lhe seriam reservados. “O que é parecer trans? As pessoas não conseguem se conformar com a própria imagem que veem, porque a imagem de uma pessoa trans na cabeça delas é aquele corpo aparentemente vazio. Quando entra uma pessoa que aparentemente é trans em um ambiente, parece que fica tudo diferente, aparecem outros olhares. Acho horrível as pessoas ficarem medindo, estudando a pessoa”, afirma.
A personalidade de Anne Helmuth rompe com uma narrativa construída exclusivamente pela violência. Ela não nega as marcas deixadas por esse percurso, tampouco transforma precariedade em virtude. Sua resposta aparece sempre na forma como decidiu continuar ocupando a cidade, o teatro, a noite, a religião, a moda e qualquer outro espaço capaz de despertar seu interesse.
Quando lembra dos períodos mais difíceis da infância, da adolescência e da vida adulta, chega a uma formulação que talvez explique melhor sua trajetória do que qualquer resumo biográfico. “Eu sempre aproveito todas as situações com a maior energia possível. Eu adoro estar viva, gente. O maior privilégio de ser uma pessoa trans é adorar estar viva. Isso é uma coisa difícil e eu quero que as outras pessoas também se sintam dignas desse sentimento”, afirma.
Em um país onde tantas vidas trans ainda terminam antes que possam envelhecer, dizer que se adora estar viva ganha um peso que ultrapassa a frase de efeito. Para Anne Helmuth, essa vontade encontrou na cultura uma de suas formas de permanência. Literatura, teatro e estudo passaram a oferecer palavras, imagens e personagens capazes de devolver humanidade justamente nos momentos em que o mundo insistia em enxergá-la primeiro como um corpo a ser interpretado.
Arte, existência e resistência

Antes de subir a um palco, posar diante de uma câmera ou transformar a atuação em possibilidade profissional, Anne Helmuth já recorria à arte para resolver uma questão muito mais íntima. Literatura, cinema e outras expressões culturais ofereciam algo que nem sempre encontrava nas relações ao redor, referências capazes de mostrar que uma vida podia ser narrada por quem a vivia, e não somente pelo olhar de quem a observava.
Ela costuma resumir essa relação em uma ideia que acompanha sua trajetória, ver-se na arte é ver a si mesma e existir. Para uma pessoa que conta ter crescido sentindo o próprio corpo constantemente analisado, essa possibilidade de reconhecimento ganhou um significado particular. “Aprendi desde cedo a criar uma imagem, uma polidez. E eu sempre usei a cultura e a arte para isso”, afirma.
Existe uma diferença importante entre ser vista e conseguir se enxergar. O primeiro movimento acompanhou Anne desde cedo e nem sempre esteve sob seu controle. O segundo ela precisou construir. Quando fala de literatura e cultura, não as apresenta como distração para uma realidade difícil. Elas aparecem como instrumentos para compreender essa realidade, encontrar linguagem para nomeá-la e impedir que a percepção externa se transforme na única versão possível de si.
Essa relação também ajuda a entender por que Anne insiste tanto no conhecimento. Em sua experiência, estudar significou adquirir repertório para reconhecer estruturas que antes poderiam parecer apenas problemas individuais. “O estudo sempre vai te dignificar. O entendimento do mundo te salva. Porque, às vezes, é só isso que pessoas trans podem ter. Não podem contar com laços familiares, com amigos de verdade ou até com a própria vida profissional”, conta.
O vínculo de Anne Helmuth com a cultura começou muito antes de qualquer perspectiva de carreira artística. Durante uma adolescência marcada por relações frágeis de proteção e pertencimento, a arte abriu espaço para imaginar vidas que não precisavam obedecer às expectativas construídas socialmente para pessoas trans.
A relação com a própria aparência também se formou sob esse olhar externo. Anne conta que aprendeu cedo a elaborar cuidadosamente a imagem que apresentava ao mundo porque sabia que seria observada, medida e interpretada. O corpo trans, em sua experiência, frequentemente desperta curiosidade, desejo, reprovação ou fantasia antes que a pessoa seja reconhecida em toda a sua complexidade.
A presença de uma mulher trans diante das câmeras ou sobre um palco também amplia as referências disponíveis para quem assiste. Anne reivindica o direito de ser reconhecida como atriz e modelo, de interpretar personagens, construir uma carreira e ocupar espaços culturais sem ter sua identidade reduzida à condição de tema.
Antes dos primeiros trabalhos, figurações e convites, Anne conheceu esse universo como espectadora e leitora. A cultura sempreofereceu palavras, imagens e histórias capazes de acolher experiências que nem sempre encontravam espaço na vida cotidiana. A profissão surgiria depois, quando aquilo que durante anos havia sido referência e desejo começou a se transformar também em possibilidade concreta de trabalho.
Essa mudança ganhou forma em Porto Alegre. Anne Helmuth deixou o interior com pouco dinheiro, encontrou uma cidade desconhecida, trabalhou longe dos palcos e dependeu de uma rede de acolhimento enquanto organizava a própria vida. Ao mesmo tempo, passou a circular perto dos teatros, do cinema, da moda e de uma agenda cultural que antes acompanhava à distância. Foi exatamente aí, que arte deixou o campo da imaginação para ocupar, de fato, sua rotina.
Sem âncoras, ela aprendeu a voar

Antes de Porto Alegre, havia uma vida que Anne já não conseguia reconhecer como sua. A adolescência havia sido atravessada por instabilidade afetiva e familiar, por uma mãe que enfrentava problemas psíquicos e por uma relação distante com o pai. Ainda muito jovem, ela também construiu uma vida a dois no interior. Durante algum tempo, aquela estrutura ofereceu alguma previsibilidade. Depois começou a parecer pequena demais para aquilo que desejava viver.
Anne Helmuth havia transicionado aos 12 anos e crescido com a sensação de precisar construir muitas das próprias referências sozinha. Quando recorda aquele período, evita transformar a precocidade da transição em uma regra para outras pessoas. “Eu fui a dita criança trans, a tão temida criança trans nas pautas da direita hoje em dia. Mas cada processo é muito individual, do entendimento do que é para você a sua própria identidade. A gente tem que respeitar sempre a individualidade e a integridade do outro. Não é porque eu transicionei mais cedo que sou diferente da pessoa que transicionou depois dos 40 anos”, afirma.
Durante anos, Anne encontrou parte desse amparo dentro de si mesma. A fé também esteve presente, embora nunca tenha obedecido a uma única tradição. Os avós eram luteranos, a mãe espírita e, ainda pré-adolescente, ela se interessou por Wicca, leu autores ligados à religião e chegou a jogar tarô. Hoje se reconhece em uma fé católica, sem tratar esse percurso como uma sucessão de rupturas. Em sua maneira de compreender espiritualidade, diferentes experiências responderam à mesma necessidade de se religar consigo e com algo que a ultrapassasse. “Eu sempre tive muita fé em mim mesma. Podem tirar tudo de você, mas, se não tirarem a sua fé no que você pensa sobre si, ninguém pode te derrubar. Você consegue se reconstruir em qualquer situação”, diz.
Foi também uma reconstrução que começou quando a vida no interior se tornou insustentável para ela. Anne estava em um relacionamento que descreve como desgastado e levava uma rotina doméstica que já não correspondia ao que desejava. Não havia um plano detalhado de mudança, uma proposta de trabalho à espera ou uma rede montada previamente em Porto Alegre. Havia um impulso crescente de sair. “Eu nunca tinha visitado a capital, nem sabia o que era isso aqui. Não sabia pegar um ônibus quando cheguei. Mas tinha um impulso dentro de mim, eu não tolerava mais aquela vida no interior. Falei para o meu ex-parceiro que aquele era o último dia que ele ia me ver. Tirei minhas malas do roupeiro, deixei um monte de coisa lá, peguei um ônibus e vim, com pouquíssimo dinheiro”, recorda.
A chegada desmontou qualquer imagem romântica de recomeço. Anne Helmuth desembarcou em uma Porto Alegre ainda marcada pelo período posterior às enchentes de 2024, carregando três malas pesadas e tentando compreender uma cidade que nunca havia visitado. A rodoviária lhe pareceu gigantesca, cinzenta e confusa. Hoje, ao passar pelo mesmo lugar, diz estranhar como aquilo que um dia pareceu imenso se tornou cotidiano.
A mudança de cidade não apagou as vulnerabilidades acumuladas ao longo da vida, mas alterou a maneira como Anne passou a lidar com elas. Quando fala daquele período, ela reconhece a precariedade sem transformar a própria história em uma narrativa idealizada de recomeço. “Minha vida foi uma bagunça. Só que nisso eu aprendi a voar. No meio de tanta falta de estrutura, eu pensei em usar isso para alguma coisa. Não ter âncoras acabou virando uma vantagem com o tempo”, revela.
Entre a capela, a boate e os palcos

A vida que Anne Helmuth começou a construir em Porto Alegre não seguiu uma linha reta. Nos primeiros tempos, encontrou acolhimento com as Irmãs do Perpétuo Socorro, que lhe deram um lugar onde permanecer enquanto buscava alguma estabilidade. Depois veio o trabalho em uma cafeteria, dividido com orações, noites pela cidade, novos círculos sociais e encontros com artistas. Aos poucos, a capital que havia parecido enorme e desconhecida na chegada também passou a aproximá-la da vida cultural que durante anos ela havia acompanhado à distância.
Anne fala desse período sem separar espiritualidade, vida noturna e descoberta artística. Para ela, essas experiências coexistiam. A mesma jovem que rezava no abrigo podia, horas depois, estar em uma boate ou circular por ambientes culturais. “É totalmente dicotômico. É sair de uma capela e ir para uma boate. Transicionando e transitando em todos os ambientes. Às vezes eu estou em evento de sociedade e, em outro momento, estou no fim do mundo rezando”, comenta.
Foi nesse trânsito que a arte deixou de existir apenas como referência e começou a se transformar em experiência concreta. Surgiram os primeiros contatos com apresentações, figurações no cinema e trabalhos ligados à imagem. Anne, que já tinha na cultura uma forma de elaborar a própria existência, começou a encontrar também possibilidades profissionais naquele universo.
Um desses momentos ficou guardado com nitidez. Na primeira vez em que entrou no Theatro São Pedro, um dos espaços culturais mais tradicionais de Porto Alegre, Anne ainda observava tudo de longe. “Eu me lembro da primeira vez que entrei no Theatro São Pedro. Eu me senti um ratinho lá dentro, vendo tudo lá de cima, da galeria. E, do nada, agora sou convidada a assistir às montagens em diversos palcos”, recorda.
Para Anne Helmuth, ocupar esses espaços também possui uma dimensão que ultrapassa sua trajetória individual. “Tudo isso é presença. É poder se permitir, primeiro, se dizer sim. Pessoas trans precisam se dizer sim e parar de se dizer não. Tem que se permitir. Entre ser ou não ser, seja. Seja de maneira completa, seja tudo o que você puder ser. Não pare no pensamento do outro”, afirma.
A ideia de presença ajuda a compreender por que Anne rejeita uma fronteira rígida entre a artista e a pessoa que existe fora dos trabalhos. “Quando as luzes se apagam, quando a maquiagem sai, sou eu. Ainda sou eu. O meu palco é a vida. Não tem diferença nenhuma entre estar no palco e estar aqui”, diz.
Essa maneira de encarar a profissão também carrega responsabilidade. Anne conta que o nervosismo antes de uma apresentação não vem propriamente de ser observada pelo público. O que a preocupa é saber que uma cena reúne o trabalho de dramaturgia, iluminação, som, direção e tantas outras pessoas que dependem umas das outras para que aquilo aconteça. A imagem de espontaneidade que ela projeta, convive com uma consciência bastante concreta de que arte também é trabalho coletivo.
Porto Alegre permanece central nessa formação. Anne Helmuth diz amar a cidade e reconhece que foi ali que teve acesso a uma vida cultural que antes desconhecia de perto. Ao mesmo tempo, é crítica às limitações que percebe para quem tenta construir uma carreira artística na capital gaúcha. Na visão dela, muitos artistas precisam partir para conseguir crescer profissionalmente e depois retornam à cidade já reconhecidos.
Essa inquietação acompanha a ambição de continuar circulando. O mundo que parecia enorme quando ela desembarcou na rodoviária já ganhou outras proporções. Os espaços que antes pareciam reservados a outras pessoas começaram a ser ocupados, e Anne passou a enxergar a própria visibilidade como uma possibilidade de ampliar o imaginário de quem ainda acredita que certos caminhos não foram feitos para pessoas como ela.
Quando existir vira disputa eleitoral

O Brasil chegou ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026 novamente dividido entre dois projetos políticos muito diferentes. Flávio Bolsonaro, do PL, e Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, disputam a Presidência em 25 de outubro, depois de terminarem o primeiro turno com 47,03% e 45,16% dos votos válidos, respectivamente. Para milhões de brasileiros, a escolha passa por economia, segurança, emprego, serviços públicos e expectativas sobre os próximos quatro anos. Para Anne Helmuth, há também uma dimensão muito pessoal nessa disputa. Algumas das questões transformadas em bandeiras políticas dizem respeito diretamente ao direito de pessoas como ela existirem socialmente, terem seus nomes reconhecidos, ocuparem espaços públicos e não serem tratadas como ameaça.
Anne cresceu vendo a própria identidade atravessar um debate que se tornou cada vez mais frequente na política nacional. A proximidade do segundo turno faz com que a atriz trate essas discussões sem a distância de quem observa apenas uma disputa partidária. Aos 23 anos, ela ainda não fez a retificação de seus documentos e conta que até uma decisão burocrática aparentemente individual passou a ser atravessada pela insegurança que sente diante do ambiente político. O documento, para ela, não cria sua identidade, embora reconheça a importância prática e jurídica da retificação.“Eu não sou retificada, não tenho nem carteira social até hoje. Não vai ser um papel que vai me oficializar dentro da sociedade. É muito importante, sim. Mas, com os próximos períodos que estão acontecendo politicamente, tenho até medo. O Brasil está questionando tanto o direito das mulheres ultimamente que eu tenho até medo de virar mulher no documento e perder tudo”, conta.
O medo mencionado por Anne ajuda a dimensionar como uma eleição pode chegar a lugares muito particulares da vida cotidiana. Discussões sobre banheiros, documentos, infância, tratamentos de gênero e participação de pessoas trans em diferentes espaços deixaram de permanecer restritas a debates jurídicos, médicos ou acadêmicos e passaram a integrar discursos de parlamentares, candidatos e grupos políticos. Para quem é diretamente atingido por essas pautas, a retórica eleitoral não termina quando a propaganda acaba.
Durante a conversa, surge o caso de uma figura política que teria se referido a outra mulher eleita como “homem biológico”. Anne reage criticando o mecanismo pelo qual, em sua leitura, pessoas trans são transformadas em problema político antes mesmo que se discuta concretamente quais direitos estão em questão. “Cria-se um problema em cima das pessoas trans. Faz-se todo um carnaval sobre se pode usar banheiro, se pode fazer isso ou aquilo. O ódio trans é uma manobra”, afirma Anne. Para ela, transfobia e misoginia possuem pontos de contato e a retirada de direitos de pessoas trans não deve ser encarada pelas demais mulheres como uma discussão que não lhes diz respeito.

Anne Helmuth se identifica politicamente com a esquerda, critica setores da direita e defende organização coletiva. Sua leitura do segundo turno também é explícita. Ela manifesta esperança na vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, mas deixa claro que, mesmo no resultado eleitoral que deseja, não acredita que a eleição resolva automaticamente a hostilidade que enxerga no país. “Mesmo se o Lula ganhar, que eu tenho esperança, eu tenho fé, a gente está completamente doente. O mundo está doente, as pessoas estão doentes. O que pode acontecer com esse país nos próximos anos é algo perturbador. Se existe uma certa esquerda, vamos nos organizar, vamos lutar pelos nossos, vamos criar uma comunidade”, afirma.
Anne cobra organização social, fala em sindicatos, reforma agrária e critica o que considera uma concentração excessiva do debate público em guerras culturais. Na leitura que apresenta, determinados temas relacionados à população trans acabam mobilizados repetidamente enquanto problemas econômicos e sociais de alcance mais amplo perdem espaço na discussão pública.
O segundo turno ocorre justamente quando Anne começa a ocupar com maior frequência espaços ligados ao teatro, cinema, moda e publicidade. A arte, por isso, retorna ao centro de sua trajetória como instrumento político. Não no sentido de funcionar como propaganda partidária, mas porque uma obra pode colocar alguém diante de uma experiência humana que seus próprios preconceitos teriam mantido distante. “A arte é literalmente isso. É a oportunidade, é o momento de poder se enxergar entendendo o outro, de poder analisar a sociedade e os contextos que a gente vive. A arte serve para isso. Se não servir, não é arte”, afirma.
Antes do voto, da urna ou de qualquer identificação partidária, existe uma pessoa tentando construir uma vida, trabalhar, amar, circular pela cidade, frequentar um teatro e imaginar o próprio futuro. O segundo turno decidirá quem comandará o país a partir de 2027. Para Anne, porém, a disputa democrática também será medida pelo espaço que esse país deixará para pessoas que, durante tanto tempo, precisaram defender algo muito anterior à política eleitoral, o direito de serem reconhecidas primeiro como gente.
Equipe e convidados do ABC Cast Conexões

A entrevista com a atriz Anne Helmuth, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação do jornalista João Pedro Mello. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio leva a assinatura de Lucas Lima.
Confira a entrevista completa com Anne Helmuth:
Além do canal no YouTube, o episódio com Anne Helmuth pode ser acessado pelo Amazon Music, Spotify, Deezer e também no Apple Podcasts.