Superstições ganham força durante grandes competições

Especialista explica como as superstições ajudam torcedores e atletas a enfrentar a ansiedade em jogos decisivos

Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

Vestir a mesma camisa em todos os jogos decisivos, sentar-se sempre no mesmo lugar da sala, evitar mudar de canal durante a partida ou repetir o cardápio que “deu sorte” em vitórias anteriores. Em períodos de grandes competições esportivas, como a Copa do Mundo, milhões de torcedores recorrem às superstições na tentativa de influenciar, ainda que simbolicamente, o resultado dentro de campo.

Embora muitos desses hábitos sejam encarados de forma bem-humorada, a psicologia explica que eles estão diretamente ligados a mecanismos emocionais que ajudam as pessoas a enfrentar a ansiedade, a expectativa e a imprevisibilidade típicas dos eventos esportivos.

Segundo o psicólogo e coordenador do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera, Marco Aurélio Fernandes, o futebol desperta sentimentos intensos de pertencimento, identidade e envolvimento emocional.

“Ao acompanhar uma partida decisiva, o torcedor investe energia afetiva em algo sobre o qual não possui qualquer controle real. É justamente nesse cenário que surgem os rituais. A superstição funciona como uma estratégia psicológica para reduzir a sensação de impotência diante de uma situação incerta. Mesmo sabendo racionalmente que uma camisa ou um lugar específico no sofá não interferem no desempenho dos jogadores, o cérebro encontra conforto na repetição desses comportamentos”, explica o especialista.

Marco Aurélio destaca que esse fenômeno não ocorre apenas no esporte. Muitas pessoas criam rituais antes de entrevistas de emprego, provas, apresentações ou qualquer situação considerada importante e potencialmente estressante.

A necessidade humana de encontrar padrões

Do ponto de vista científico, existe uma explicação para a popularidade das superstições. O cérebro humano é programado para identificar padrões e estabelecer relações de causa e efeito.

“Nosso cérebro tem dificuldade em aceitar o acaso. Por isso, muitas vezes criamos conexões entre fatos que não possuem relação causal. Isso traz uma sensação de previsibilidade e segurança”, afirma o psicólogo.

Quando o ritual vira tradição familiar

Outro aspecto interessante é que muitas crenças e costumes ultrapassam a esfera individual e se transformam em tradições familiares. Há famílias que assistem aos jogos sempre reunidas no mesmo local, reproduzem receitas especiais ou seguem pequenos costumes transmitidos entre gerações.

O psicólogo esclarece que, nesses casos, os rituais assumem um significado ainda mais profundo, funcionando como elementos de conexão afetiva e memória emocional.

“Mais do que acreditar em sorte, muitas pessoas utilizam esses comportamentos para reforçar vínculos familiares e criar experiências compartilhadas. O ritual passa a representar pertencimento e identidade coletiva“, explica.

Atletas também adotam rituais antes das partidas

As superstições não estão restritas às arquibancadas. Diversos atletas profissionais relatam comportamentos repetitivos antes dos jogos, como entrar em campo com o mesmo pé, ouvir determinada música ou seguir rotinas específicas durante o aquecimento.

“Esses hábitos podem contribuir para aumentar a confiança e reduzir a ansiedade pré-competitiva, desde que não se transformem em uma dependência emocional”, completa o especialista.

Na maioria dos casos, os rituais ligados ao esporte são inofensivos e fazem parte da experiência de torcer. No entanto, especialistas alertam que é importante observar quando esses comportamentos passam a gerar sofrimento.

Se a pessoa acredita que a derrota ocorreu porque deixou de cumprir determinado ritual ou desenvolve níveis elevados de ansiedade quando não consegue seguir uma rotina específica, pode haver sinais de uma relação pouco saudável com a superstição.

“O problema surge quando o indivíduo passa a acreditar que possui responsabilidade direta sobre acontecimentos que estão completamente fora de seu controle. Nesse caso, é importante desenvolver formas mais equilibradas de lidar com a ansiedade e a frustração”, orienta o psicólogo.

Assim, embora façam parte da cultura esportiva e fortaleçam o sentimento de pertencimento entre torcedores e familiares, as superstições cumprem um papel muito mais ligado ao equilíbrio emocional do que à influência real sobre os resultados das partidas.

  • Publicado: 29/06/2026 17:43
  • Alterado: 29/06/2026 17:43
  • Autor: Daniela Penatti
  • Fonte: Faculdade Anhanguera