Esgotadas: sobrecarga e desigualdade levam mulheres ao limite mental
Quase metade das mulheres brasileiras sofre com transtornos mentais causados pela sobrecarga emocional, dupla jornada e falta de apoio
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 04/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
O peso da rotina tem levado a saúde mental das mulheres brasileiras ao limite. Um sinal de alerta é revelado pelo relatório “Esgotadas”, da ONG Think Olga): quase metade das mulheres no país apresenta algum tipo de transtorno mental, como ansiedade, estresse ou depressão, segundo estudos nacionais.

O esgotamento é resultado da interminável lista de afazeres: entre a carreira, os filhos e a casa, as mulheres seguem tentando equilibrar inúmeros “pratinhos” todos os dias. A divisão desigual das tarefas agrava o quadro, como mostra a PNAD 2022: elas dedicam 21,4 horas semanais a tarefas domésticas, em contraste com as 11 horas gastas pelos homens, sem contar o trabalho externo e o cuidado à família.
Sobrecarga Feminina: O peso da dupla jornada na saúde mental das mulheres
A sobrecarga doméstica e emocional, somada às exigências do mercado, é o principal gatilho para o esgotamento, onde muitas ainda sentem dificuldade em pedir ajuda, seja por falta de tempo, de apoio, de recursos ou, muitas vezes, por medo de serem julgadas. A psicóloga Camila Simionatto explica a origem dessa dificuldade:

“A mulher é ensinada desde cedo a dar conta de tudo. Só que essa ideia de que precisamos ser fortes o tempo todo é uma das principais armadilhas emocionais da atualidade. É preciso reconhecer que o equilíbrio não está em fazer tudo, mas em saber o que realmente faz sentido para você e respeitar os próprios limites.”
A psicóloga reforça que a saúde emocional é parte fundamental da saúde integral feminina.
Inspirada no livro Agilidade Emocional, de Susan David, Camila Simionatto lembra que acolher as emoções e agir com flexibilidade diante da vida pode ajudar a retomar o protagonismo: “Ser emocionalmente ágil é entender que a tristeza, o medo e o cansaço não são fraquezas, mas sinais de que algo precisa de atenção. Quando conseguimos olhar para isso com gentileza, o peso do dia a dia se torna mais leve”, explica.

A psicóloga Maria Eduarda detalha os sinais de esgotamento e as estratégias práticas para o autocuidado emocional:
Qual é o primeiro sinal físico que indica que a sobrecarga diária está afetando a saúde mental?
O corpo costuma dar sinais antes da mente. Muitas mulheres começam a sentir dores de cabeça frequentes, dores musculares (como nos ombros e costas), cansaço constante mesmo após descansar e falta de energia. Emocionalmente, pode surgir irritabilidade, vontade de chorar facilmente e a sensação de estar sempre no limite.
Como a mulher pode começar a delegar ou pedir ajuda quando sente que precisa dar conta de tudo?
O primeiro passo é lidar com o pensamento de que “preciso dar conta de tudo”. É importante perceber que nem tudo depende de nós. As estratégias incluem:
- Estabelecer prioridades: Identificar o que é urgente e o que pode esperar.
- Delegar tarefas: Confiar em outras pessoas e aceitar que o resultado final não será prejudicado.
- Tolerar a frustração: O desconforto inicial ao não fazer tudo sozinha diminui com o tempo.
- Focar no essencial: Priorizar e delegar libera energia para o que realmente importa.
“Delegar não é fraqueza; é uma forma de se respeitar e cuidar da própria saúde emocional.”, explica a psicóloga.
Qual a diferença entre estresse normal e os principais sinais de um transtorno mental, como ansiedade e depressão?
O estresse é uma resposta natural e temporária a situações desafiadoras, que melhora quando a situação muda. Já os transtornos mentais são persistentes, intensos e prejudicam a vida diária.
- Ansiedade: Preocupações constantes, crises, medo exagerado, dificuldade para dormir e evitação de situações sociais.
- Depressão: Falta de interesse em atividades, cansaço extremo, alterações no sono e apetite, sentimentos de culpa ou inutilidade.
Como o medo de ser julgada por fraqueza impede as mulheres de buscar ajuda profissional?
Muitas mulheres crescem com a crença internalizada de que precisam ser fortes e dar conta de tudo. Esse medo de ser julgada faz com que evitem buscar apoio.
Essas crenças internalizadas sobre precisar ser forte influenciam:
Pensamentos: “Preciso ser forte e dar conta de tudo.”
Comportamentos: “Não peço ajuda, tento resolver sozinha, mesmo estando
sobrecarregada.”
Emoções: medo, ansiedade, frustração.
Reconhecer que pedir ajuda não é fraqueza, mas um passo importante para cuidar da própria saúde emocional, é fundamental.
Existe algum exercício ou técnica simples para fazer quando a irritabilidade e a falta de energia aparecem?
É essencial, inicialmente, investigar a origem dos sentimentos (ansiedade ou frustração) e checar causas físicas (alimentação, sono, deficiência de vitaminas, como D ou Complexo B).
Uma técnica prática é a respiração 4-4-4: inspirar lentamente por 4 segundos, segurar o ar por 4 segundos e expirar lentamente pela boca por 4 segundos. O passo seguinte é trabalhar a aceitação e focar nas prioridades, direcionando a energia para o que está ao alcance.
Por que é tão difícil para muitas mulheres respeitar os próprios limites?
Muitas mulheres nunca foram ensinadas a respeitar seus limites. A cobrança social e familiar para dar conta de tudo, ser perfeita e não demonstrar vulnerabilidade impede muitas de reconhecer a hora de parar. O medo de julgamento reforça a crença de que pedir ajuda é fraqueza.
Em que momento a mulher deve entender que precisa de apoio profissional e não apenas de descanso?
É hora de buscar apoio profissional quando o descanso não é suficiente para recuperar energia e reduzir a sobrecarga. Sinais como irritabilidade constante, ansiedade intensa, falta de ânimo, dores no corpo e prejuízo no trabalho ou na vida social indicam que a orientação profissional é necessária.