Sesc Santo André recebe POVO POLVO

A criatura marinha gigante, sensível e colorida do Núcleo Vraaa transforma a rua em oceano e convida o público à participação coletiva em uma experiência única de POVO POLVO

Crédito: Rodrigo Munhoz

Um polvo gigante que se manifesta no asfalto, mas que não representa ameaça alguma. Pelo contrário, trata-se de um ser com uma sensibilidade curiosa, que expressa seu temor com barulhos, olhares e até mesmo pelo contato com o chão de concreto, reagindo com o lançamento de uma tinta colorida quando se assusta. Assim ganha vida o POVO POLVO, a nova e envolvente criação do Núcleo Vraaa, que marca duas apresentações gratuitas nos dias 9 e 16 de novembro, sempre aos domingos, no Sesc Santo André, com início às 16h.

Longe de ser apenas um boneco, a obra se apresenta como uma fusão de festa, teatro e brincadeira, que convida ativamente crianças e adultos a mergulharem em uma experiência totalmente participativa. A criatura marinha, com cerca de três metros de altura e tentáculos que podem chegar a impressionantes nove metros, ganha movimento e forma através da manipulação coletiva do público. Os participantes não apenas assistem, mas também ajudam a erguer e dar sustentação à sua grandiosa estrutura.

A concepção criativa do polvo gigante e a materialidade expandida

Rodrigo Munhoz

A visualidade de POVO POLVO é um espetáculo à parte, composta por tecidos que totalizam 30 metros e por uma base engenhosa, confeccionada com boias de recreação. A obra orquestra uma mistura vibrante de elementos circenses e uma atmosfera de celebração, com forte inspiração no carnavalesco e em referências visuais das festas populares brasileiras. A participação coletiva é, portanto, o motor vital para que essa estética monumental se concretize.

A gênese do espetáculo está intimamente ligada ao período pandêmico e aos sentimentos gerados por ele. Thais Póvoa, que assina a direção e dramaturgia da peça em parceria com Rodrigo Munhoz (aka Amor Experimental) na concepção, detalha o processo: “A ideia para dar vida ao POVO POLVO surgiu da confluência de sentimentos que vivemos no período pandêmico.” A percepção inicial de que “só o mar poderia abrigá-lo” foi rapidamente substituída pela certeza de que a rua poderia servir como um vasto “oceano coletivo”.

O nome da criação encapsula o conceito central: “Povo e polvo se misturam como palavras e como imagens”. A metáfora do ato de brincar surge como o elo poderoso entre a audiência, especialmente as crianças, e a criatura gigante, reforçando que o POVO POLVO só existe porque é erguido pela coletividade.

Micronarrativas e o Êxtase do Encontro

Rodrigo Munhoz

Apesar de ser uma narrativa silenciosa, desprovida de falas, a dramaturgia da obra é dotada de uma clareza que conduz o público integralmente através das ações. A audiência acompanha o ciclo da criatura, desde seu nascimento e crescimento até a forma como lida com seus medos, culminando em sua transformação em uma festa coletiva.

Thais Póvoa explica que as dramaturgias do coletivo se constroem por meio de imagens e jogos. Não há uma história linear tradicional, mas sim micronarrativas que são disparadas por ações físicas. Em POVO POLVO, o público é convidado a ir além do papel de espectador, participando ativamente na construção dessa criatura de grandes dimensões. O desdobramento da obra é sempre uma “surpresa coletiva”, nunca inteiramente previsível.

Rodrigo Munhoz complementa a ideia, mencionando a profunda influência da cultura popular. “Pensamos a obra como uma instalação cênica que já de início provoca fruição estética e desejo de participação.” Ele ressalta que as festas carnavalescas, o universo do circo e outras manifestações populares são fontes de inspiração, justamente por sua capacidade de gerar efusão, jogo coletivo e o êxtase do encontro. É nesse contágio que a figura brincante do polvo gigante consegue se construir.

A rua como espaço de utopia e invenção

Um dos pilares conceituais do espetáculo é a ressignificação da ocupação do espaço público. Thais Póvoa vê nisso um convite à imaginação: “Imaginar que podemos encontrar um polvo gigante no meio da rua ou que a rua pode se transformar num grande oceano faz parte da brincadeira de construção de novos imaginários coletivos.” A obra convida o público a uma utopia, a se lembrar de que é possível “inventar mundos e experiências coletivamente”.

O Núcleo Vraaa, responsável pelo espetáculo, é um coletivo transdisciplinar que investiga as fronteiras entre artes cênicas, visuais e performativas. O grupo mantém um foco claro no universo da infância e na participação ativa do público, distinguindo-se pelo uso de materialidades expandidas e pela criação de espaços propícios ao encontro e à invenção coletiva. O repertório do grupo inclui obras notáveis como Vraaa!, Máquina de Fazer Bagunça e Garatuja Boom. O reconhecimento da qualidade de sua pesquisa se reflete em sua presença em eventos de grande prestígio, como a FLIP – Feira Literária de Paraty, a Semana Mundial do Brincar, o Circuito Sesc de Artes, o Festival de Inverno de Campos do Jordão e a Jornada do Patrimônio, entre outros.

Para Rodrigo Munhoz, a pesquisa do coletivo com materialidades expandidas é uma busca constante “por outros sentidos, pelo extraordinário.” O objetivo final, ele conclui, é restaurar acasos, criar brechas de espontaneidade e preencher o cotidiano com alegrias ainda desconhecidas.” A chegada de POVO POLVO ao Sesc Santo André representa mais um passo significativo nesse caminho artístico e inventivo.

POVO POLVO

Núcleo Vraaa

9 e 16 de novembro, domingos, 16h.

Sesc Santo André – Rua Tamarutaca, 302 – Vila Guiomar, Santo André.

60 minutos | Livre | Gratuito.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 04/11/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo