Saiba como Doca, chefe do Comando Vermelho, conseguiu fugir
Recompensa de R$ 100 mil é oferecida por informações sobre Doca, líder do Comando Vermelho na Penha, que driblou o cerco policial
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 01/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
Uma megaoperação policial que mobilizou 2.500 agentes nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, resultou no maior revés já imposto ao Comando Vermelho (CV), mas teve um desfecho frustrante: a fuga de Edgard Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso. O principal chefe da facção na região da Penha conseguiu escapar do cerco policial, em uma operação que vitimou 121 pessoas, sendo 117 suspeitos e quatro policiais. A fuga de Doca não foi obra do acaso: ela contou com uma robusta e organizada rede de proteção de, pelo menos, 70 criminosos armados.
O “Muro do Bope” e a Estratégia de Escape de Doca

O planejamento da ação policial visava encurralar os criminosos e prender as principais lideranças. A polícia do Rio adotou uma tática específica, apelidada de “muro do Bope”, que tinha como objetivo empurrar os suspeitos para a área de mata densa, local onde ocorreu um confronto intenso e que, infelizmente, resultou na morte de dezenas de indivíduos.
Apesar da magnitude da força-tarefa, Doca foi um dos que conseguiram “atravessar” o muro e se evadir. O seu paradeiro permanece desconhecido. O secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Felipe Curi, manifestou a frustração da corporação: “Por um triz nós não prendemos o Doca. Demos um baque grande na facção. A hora dele vai chegar, assim como chegou de vários outros. Enquanto isso, vamos desestruturando a facção criminosa, com lavagem de dinheiro, apreensão de armas, prisões e investigações. Esse é o trabalho técnico”, afirmou o secretário.
Recompensa recorde para capturar Doca

A relevância de Doca para a cúpula do crime organizado se reflete, também, na recompensa oferecida pelo Disque Denúncia. O serviço elevou o valor para R$ 100 mil por informações que levem à sua captura. Trata-se do mesmo valor histórico oferecido pelo paradeiro de Fernandinho Beira-Mar na época em que ele fugiu para a Colômbia, ressaltando o status do foragido.
As investigações do Ministério Público do Rio revelam a crueldade do líder: Doca é apontado como o mandante de torturas dentro do Complexo da Penha. As denúncias indicam que ele utiliza grupos de WhatsApp para emitir os comandos, gerenciar o tráfico e determinar a execução de indivíduos que se oponham aos seus interesses. A busca pelo Doca é, portanto, prioridade máxima para as forças de segurança.
Até o último balanço, 99 corpos foram identificados, sendo que 42 possuíam mandados de prisão pendentes e, pelo menos, 78 apresentavam extenso histórico criminal. A megaoperação, apesar da fuga de Doca, expôs a estrutura de comando e o alcance nacional da facção.
O que o Secretário de Segurança Pública do RJ falou sobre as investigações de Doca?

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Vitor Santos, abordou a complexidade da operação que visava a captura de um dos líderes do Comando Vermelho, conhecido como Doca. Segundo ele, a estratégia utilizada pelo crime organizado dificultou a prisão, uma vez que os soldados do tráfico foram posicionados como barreiras defensivas.
Victor Santos destacou ainda que a ausência de veículos blindados comprometeu a eficácia da ação policial. “A falta desse tipo de equipamento fez com que o enfrentamento às barreiras físicas e ao intenso fogo inimigo fosse mais demorado”, afirmou, enfatizando os riscos enfrentados pelos policiais durante a operação, que se estendeu por aproximadamente 15 horas e teve início às 9h.
O secretário também mencionou que não foi possível explorar locais como túneis utilizados por criminosos devido à falta de segurança e tempo. A busca por esconderijos acabou sendo limitada, dificultando ainda mais a captura do fugitivo.
No contexto da hierarquia do Comando Vermelho, Doca ocupa uma posição relevante, ficando apenas atrás de figuras históricas como Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP, ambos cumprindo longas penas em regime fechado. Os crimes associados ao líder incluem tráfico de drogas, organização criminosa, tortura, extorsão, corrupção de menores e ocultação de cadáver.
Como parte dos esforços para localizá-lo, o Disque-denúncia anunciou uma recompensa de R$ 100 mil pela informação sobre seu paradeiro. Doca encontra-se foragido há sete anos e a divulgação do cartaz ocorreu no dia anterior.
O mapa da violência: quem eram os 9 chefes do CV mortos no Rio?

A megaoperação, que teve como alvo principal a captura de Doca, resultou na morte de 117 suspeitos, dos quais 9 foram identificados como chefes regionais do Comando Vermelho. Suas presenças no Complexo da Penha reforçam a visão da Polícia Civil de que o local serve como o quartel-general nacional da facção, articulando o crime em pelo menos cinco estados.
Dos 99 corpos identificados até o último balanço, os seguintes líderes do tráfico de outros estados estavam entre os mortos, confirmando a estratégia de reuniões da cúpula do CV para traçar as diretrizes de expansão e controle territorial:
Região Norte: Amazonas e Pará
A operação causou um duro golpe na articulação do CV na Região Norte, com a morte de três importantes lideranças.
- PP (Wesley Martins e Silva): Apontado como o chefe do tráfico no Pará. Sua morte indica o quão central é o Complexo da Penha para a logística do tráfico que chega ao Rio, partindo de rotas nortistas.
- Chico Rato (Douglas Conceição de Souza): Líder do tráfico em Manaus (AM) e foragido do sistema prisional do estado. Sua presença no Rio de Janeiro sugere a coordenação direta das operações da facção no Amazonas a partir do QG carioca.
- Gringo (Francisco Myller Moreira da Cunha): Também atuante em Manaus (AM). A eliminação de dois líderes do Amazonas em uma única ação é um forte indicativo da importância da reunião que estava em curso.
Região Nordeste: Bahia
O Comando Vermelho sofreu perdas significativas na Bahia, um estado-chave na disputa por territórios no Nordeste.
- Mazola: Chefe do tráfico em Feira de Santana (BA).
- DG: Apontado como chefe do tráfico na Bahia.
- FB (Fábio Francisco Santana Sales): Outra importante liderança ligada ao tráfico na Bahia.
Região Centro-Oeste e Sudeste: Goiás e Espírito Santo
O alcance do Comando Vermelho se estendia para além das fronteiras do Norte e Nordeste, como comprovam as mortes de líderes de Goiás e Espírito Santo.
- Fernando Henrique dos Santos: Líder do tráfico em Goiás.
- Rodinha (Marcos Vinicius da Silva Lima): Chefe do tráfico em Itaberaí (GO), na região metropolitana de Goiânia.
- Russo (Alisom Lemos Rocha): Apontado como o chefe do tráfico em Vitória (ES).
O secretário Felipe Curi reforçou que a morte desses 9 chefes regionais, somada à apreensão recorde de fuzis, representa o maior baque já imposto ao Comando Vermelho em sua história, mesmo com a fuga de Doca, que permanece como o alvo número um da Polícia do Rio de Janeiro e do Disque Denúncia. A operação escancarou o papel dos complexos cariocas como “QG nacional” do crime.
Quem é Edgard Alves de Andrade, conhecido como Doca, chefe do CV?

De acordo com documentos oficiais, Doca teria a responsabilidade de comandar, além dos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, comunidades como a Gardênia Azul e César Maia, na Zona Oeste, e o Juramento, também na Zona Norte. Essa capilaridade de poder revela a dimensão da influência do criminoso no controle territorial da facção.
Entre os crimes mais graves pelos quais Doca é investigado, destacam-se:
- Mais de cem homicídios, o que inclui a execução de menores de idade;
- O desaparecimento de moradores nas comunidades por ele chefiadas.
Seu status de alta periculosidade foi ratificado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que denunciou Doca e outras 66 pessoas por associação para o tráfico.
O caso dos médicos: Uma Execução por Engano na Barra da Tijuca
Um dos episódios mais chocantes ligados ao traficante ocorreu em outubro de 2023, quando Doca foi apontado pelas autoridades como o responsável por ordenar a execução de três pessoas, e a tentativa de homicídio de uma quarta vítima, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.
Os alvos eram médicos que estavam na cidade para participar de um congresso. A investigação policial levantou a hipótese de que a chacina teria sido motivada por um trágico engano: os profissionais de saúde teriam sido confundidos com milicianos de Rio das Pedras, área que é alvo de disputa territorial entre as facções.
Entre os assassinados, estava Diego Ralf Bomfim, de 35 anos, irmão da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL). Este crime demonstrou a violência cega da facção e colocou o nome de Doca em evidência nacional, aumentando a pressão sobre sua captura.
Ataque Violento à Delegacia na Baixada Fluminense
A audácia do líder do CV, Doca, se manifestou de forma inédita em fevereiro de 2025, com o ataque a uma delegacia em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Em maio deste ano, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou Doca e um grupo de criminosos por sua participação neste atentado.
De acordo com as investigações, o procurado teria ordenado a invasão da unidade policial, no dia 15 de fevereiro, por homens armados com fuzis e granadas. O objetivo era tentar resgatar Rodolfo Manhães Viana, conhecido como Rato, preso horas antes por tráfico e associação para o tráfico na Comunidade Vai Quem Quer.
O ataque resultou em dois agentes feridos, sendo que um deles foi vítima de tortura para confessar informações sobre o paradeiro de Rodolfo, que, felizmente, já havia sido transferido para a Polinter, na Cidade da Polícia. Doca e os demais envolvidos respondem, neste caso, por tentativa de homicídio qualificado, dano qualificado, tortura e associação para o tráfico, reforçando o seu perfil de criminoso que não hesita em desafiar diretamente o Estado. A captura de Doca segue como prioridade máxima das autoridades.