Saiba como Doca, chefe do Comando Vermelho, conseguiu fugir

Recompensa de R$ 100 mil é oferecida por informações sobre Doca, líder do Comando Vermelho na Penha, que driblou o cerco policial

Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Uma megaoperação policial que mobilizou 2.500 agentes nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, resultou no maior revés já imposto ao Comando Vermelho (CV), mas teve um desfecho frustrante: a fuga de Edgard Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso. O principal chefe da facção na região da Penha conseguiu escapar do cerco policial, em uma operação que vitimou 121 pessoas, sendo 117 suspeitos e quatro policiais. A fuga de Doca não foi obra do acaso: ela contou com uma robusta e organizada rede de proteção de, pelo menos, 70 criminosos armados.

O “Muro do Bope” e a Estratégia de Escape de Doca

Doca, chefe do Comando Vermelho, procurado pela Polícia do RJ - Reprodução
Doca, chefe do Comando Vermelho, procurado pela Polícia do RJ – Reprodução

O planejamento da ação policial visava encurralar os criminosos e prender as principais lideranças. A polícia do Rio adotou uma tática específica, apelidada de “muro do Bope”, que tinha como objetivo empurrar os suspeitos para a área de mata densa, local onde ocorreu um confronto intenso e que, infelizmente, resultou na morte de dezenas de indivíduos.

Apesar da magnitude da força-tarefa, Doca foi um dos que conseguiram “atravessar” o muro e se evadir. O seu paradeiro permanece desconhecido. O secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Felipe Curi, manifestou a frustração da corporação: “Por um triz nós não prendemos o Doca. Demos um baque grande na facção. A hora dele vai chegar, assim como chegou de vários outros. Enquanto isso, vamos desestruturando a facção criminosa, com lavagem de dinheiro, apreensão de armas, prisões e investigações. Esse é o trabalho técnico”, afirmou o secretário.

Recompensa recorde para capturar Doca

Recompensa de R$ 100 mil para quem conseguir encontrar o Doca, chefe do Comando Vermelho - Reprodução
Recompensa de R$ 100 mil para quem conseguir encontrar o Doca, chefe do Comando Vermelho – Reprodução

A relevância de Doca para a cúpula do crime organizado se reflete, também, na recompensa oferecida pelo Disque Denúncia. O serviço elevou o valor para R$ 100 mil por informações que levem à sua captura. Trata-se do mesmo valor histórico oferecido pelo paradeiro de Fernandinho Beira-Mar na época em que ele fugiu para a Colômbia, ressaltando o status do foragido.

As investigações do Ministério Público do Rio revelam a crueldade do líder: Doca é apontado como o mandante de torturas dentro do Complexo da Penha. As denúncias indicam que ele utiliza grupos de WhatsApp para emitir os comandos, gerenciar o tráfico e determinar a execução de indivíduos que se oponham aos seus interesses. A busca pelo Doca é, portanto, prioridade máxima para as forças de segurança.

Até o último balanço, 99 corpos foram identificados, sendo que 42 possuíam mandados de prisão pendentes e, pelo menos, 78 apresentavam extenso histórico criminal. A megaoperação, apesar da fuga de Doca, expôs a estrutura de comando e o alcance nacional da facção.

O que o Secretário de Segurança Pública do RJ falou sobre as investigações de Doca?

Victor Santos, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, fala sobre os desdobramentos na procura por Doca, um chefe do CV – Waldemir Barreto/Agência Senado

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Vitor Santos, abordou a complexidade da operação que visava a captura de um dos líderes do Comando Vermelho, conhecido como Doca. Segundo ele, a estratégia utilizada pelo crime organizado dificultou a prisão, uma vez que os soldados do tráfico foram posicionados como barreiras defensivas.

Victor Santos destacou ainda que a ausência de veículos blindados comprometeu a eficácia da ação policial. “A falta desse tipo de equipamento fez com que o enfrentamento às barreiras físicas e ao intenso fogo inimigo fosse mais demorado”, afirmou, enfatizando os riscos enfrentados pelos policiais durante a operação, que se estendeu por aproximadamente 15 horas e teve início às 9h.

O secretário também mencionou que não foi possível explorar locais como túneis utilizados por criminosos devido à falta de segurança e tempo. A busca por esconderijos acabou sendo limitada, dificultando ainda mais a captura do fugitivo.

No contexto da hierarquia do Comando Vermelho, Doca ocupa uma posição relevante, ficando apenas atrás de figuras históricas como Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP, ambos cumprindo longas penas em regime fechado. Os crimes associados ao líder incluem tráfico de drogas, organização criminosa, tortura, extorsão, corrupção de menores e ocultação de cadáver.

Como parte dos esforços para localizá-lo, o Disque-denúncia anunciou uma recompensa de R$ 100 mil pela informação sobre seu paradeiro. Doca encontra-se foragido há sete anos e a divulgação do cartaz ocorreu no dia anterior.

O mapa da violência: quem eram os 9 chefes do CV mortos no Rio?

Saiba quem eram os 9 chefes do CV mortos no RJ - Reprodução/X-Twitter
Saiba quem eram os 9 chefes do CV mortos no RJ – Reprodução/X-Twitter

A megaoperação, que teve como alvo principal a captura de Doca, resultou na morte de 117 suspeitos, dos quais 9 foram identificados como chefes regionais do Comando Vermelho. Suas presenças no Complexo da Penha reforçam a visão da Polícia Civil de que o local serve como o quartel-general nacional da facção, articulando o crime em pelo menos cinco estados.

Dos 99 corpos identificados até o último balanço, os seguintes líderes do tráfico de outros estados estavam entre os mortos, confirmando a estratégia de reuniões da cúpula do CV para traçar as diretrizes de expansão e controle territorial:

Região Norte: Amazonas e Pará

A operação causou um duro golpe na articulação do CV na Região Norte, com a morte de três importantes lideranças.

  • PP (Wesley Martins e Silva): Apontado como o chefe do tráfico no Pará. Sua morte indica o quão central é o Complexo da Penha para a logística do tráfico que chega ao Rio, partindo de rotas nortistas.
  • Chico Rato (Douglas Conceição de Souza): Líder do tráfico em Manaus (AM) e foragido do sistema prisional do estado. Sua presença no Rio de Janeiro sugere a coordenação direta das operações da facção no Amazonas a partir do QG carioca.
  • Gringo (Francisco Myller Moreira da Cunha): Também atuante em Manaus (AM). A eliminação de dois líderes do Amazonas em uma única ação é um forte indicativo da importância da reunião que estava em curso.

Região Nordeste: Bahia

O Comando Vermelho sofreu perdas significativas na Bahia, um estado-chave na disputa por territórios no Nordeste.

  • Mazola: Chefe do tráfico em Feira de Santana (BA).
  • DG: Apontado como chefe do tráfico na Bahia.
  • FB (Fábio Francisco Santana Sales): Outra importante liderança ligada ao tráfico na Bahia.

Região Centro-Oeste e Sudeste: Goiás e Espírito Santo

O alcance do Comando Vermelho se estendia para além das fronteiras do Norte e Nordeste, como comprovam as mortes de líderes de Goiás e Espírito Santo.

  • Fernando Henrique dos Santos: Líder do tráfico em Goiás.
  • Rodinha (Marcos Vinicius da Silva Lima): Chefe do tráfico em Itaberaí (GO), na região metropolitana de Goiânia.
  • Russo (Alisom Lemos Rocha): Apontado como o chefe do tráfico em Vitória (ES).

O secretário Felipe Curi reforçou que a morte desses 9 chefes regionais, somada à apreensão recorde de fuzis, representa o maior baque já imposto ao Comando Vermelho em sua história, mesmo com a fuga de Doca, que permanece como o alvo número um da Polícia do Rio de Janeiro e do Disque Denúncia. A operação escancarou o papel dos complexos cariocas como “QG nacional” do crime.

Quem é Edgard Alves de Andrade, conhecido como Doca, chefe do CV?

Doca, chefe do Comando Vermelho – Divulgação

De acordo com documentos oficiais, Doca teria a responsabilidade de comandar, além dos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, comunidades como a Gardênia Azul e César Maia, na Zona Oeste, e o Juramento, também na Zona Norte. Essa capilaridade de poder revela a dimensão da influência do criminoso no controle territorial da facção.

Entre os crimes mais graves pelos quais Doca é investigado, destacam-se:

  • Mais de cem homicídios, o que inclui a execução de menores de idade;
  • O desaparecimento de moradores nas comunidades por ele chefiadas.

Seu status de alta periculosidade foi ratificado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que denunciou Doca e outras 66 pessoas por associação para o tráfico.

O caso dos médicos: Uma Execução por Engano na Barra da Tijuca

Um dos episódios mais chocantes ligados ao traficante ocorreu em outubro de 2023, quando Doca foi apontado pelas autoridades como o responsável por ordenar a execução de três pessoas, e a tentativa de homicídio de uma quarta vítima, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.

Os alvos eram médicos que estavam na cidade para participar de um congresso. A investigação policial levantou a hipótese de que a chacina teria sido motivada por um trágico engano: os profissionais de saúde teriam sido confundidos com milicianos de Rio das Pedras, área que é alvo de disputa territorial entre as facções.

Entre os assassinados, estava Diego Ralf Bomfim, de 35 anos, irmão da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL). Este crime demonstrou a violência cega da facção e colocou o nome de Doca em evidência nacional, aumentando a pressão sobre sua captura.

Ataque Violento à Delegacia na Baixada Fluminense

A audácia do líder do CV, Doca, se manifestou de forma inédita em fevereiro de 2025, com o ataque a uma delegacia em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Em maio deste ano, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou Doca e um grupo de criminosos por sua participação neste atentado.

De acordo com as investigações, o procurado teria ordenado a invasão da unidade policial, no dia 15 de fevereiro, por homens armados com fuzis e granadas. O objetivo era tentar resgatar Rodolfo Manhães Viana, conhecido como Rato, preso horas antes por tráfico e associação para o tráfico na Comunidade Vai Quem Quer.

O ataque resultou em dois agentes feridos, sendo que um deles foi vítima de tortura para confessar informações sobre o paradeiro de Rodolfo, que, felizmente, já havia sido transferido para a Polinter, na Cidade da Polícia. Doca e os demais envolvidos respondem, neste caso, por tentativa de homicídio qualificado, dano qualificado, tortura e associação para o tráfico, reforçando o seu perfil de criminoso que não hesita em desafiar diretamente o Estado. A captura de Doca segue como prioridade máxima das autoridades.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 01/11/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo