Rios poluídos expõem ‘ilha de limpeza’ em praia da baía de Guanabara

Jovem de 22 anos trabalha na Praia do Flamengo, que se tornou exceção no contexto crítico da baía de Guanabara

Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Yure Braga, um jovem de 22 anos, recentemente se integrou à equipe de professores de futevôlei na Praia do Flamengo, localizada na zona sul do Rio de Janeiro. Sua contratação ocorreu há três meses, em um contexto onde a demanda por aulas desse esporte tem crescido exponencialmente, impulsionada pela notável melhora na qualidade das águas dessa região, que faz parte da orla da baía de Guanabara.

Para assumir o novo cargo, Yure deixou sua residência no Pantanal, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, e mudou-se para o bairro do Rio Comprido, na área central da capital fluminense. A mudança marcou uma significativa transição em sua vida, considerando que a região onde cresceu é afetada pela poluição do rio Sarapuí, um afluente do Iguaçu que deságua nas proximidades da praia onde trabalha.

“É difícil acreditar que a água aqui é a mesma que no meu antigo lar”, comentou Yure, que visita seus pais todo fim de semana. Essa afirmação reflete a disparidade entre as condições das águas nos dois locais.

Apesar dos avanços observados na Praia do Flamengo, os dados obtidos pelo Comitê da Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara (CBHBG) revelam que o estado do rio Sarapuí permanece crítico. Desde agosto de 2021, quando se iniciou a concessão para saneamento básico no Rio de Janeiro, não houve melhorias significativas na qualidade das águas dos rios metropolitanos. Os dados mostram que a praia é uma exceção em meio à estagnação verificada em 46 pontos monitorados na bacia.

A poluição da baía de Guanabara é amplamente atribuída ao esgoto lançado diretamente nos rios que a cercam. Essa situação gera preocupação e questionamentos sobre as promessas de despoluição feitas ao longo das últimas quatro décadas, renovadas com a atual concessão.

A descontinuidade nas obras dos coletores de tempo seco — estruturas planejadas para redirecionar o esgoto para estações de tratamento — é um fator crítico para a persistência dessa problemática. O edital da concessão estipulava um prazo de um ano para a aprovação dos projetos pela Agência Reguladora do Setor (Agenersa) e a conclusão das obras até agosto de 2026. No entanto, três anos após o início do processo, a análise dos projetos ainda não foi finalizada pela agência reguladora.

A concessionária Águas do Rio, responsável pelas intervenções, alegou estar em estágios avançados de discussão sobre os detalhes técnicos dos projetos junto à Agenersa. Embora tenha iniciado algumas obras em locais como Ilha do Governador e Mesquita, a empresa revelou que apenas uma fração do montante previsto para a despoluição foi investida até agora — R$ 122 milhões de um total estimado em R$ 2,7 bilhões.

O governo estadual destacou que os coletores devem ser implementados dentro dos primeiros cinco anos da concessão e mencionou a possibilidade de penalidades caso os prazos não sejam cumpridos.

A análise dos índices de qualidade da água (IQA) nos rios da região oeste da baía mostra uma média insatisfatória entre 35 e 43 — valores considerados ruins — desde outubro de 2021 até setembro de 2024. Os piores resultados foram observados nos rios Acari e Botas. Em contraste, a região leste apresentou índices moderados devido à influência positiva da Área de Proteção Ambiental Guapimirim.

Rejany Ferreira, presidente do CBHBG, enfatizou que a despoluição da baía não pode ser alcançada sem antes limpar os rios que a alimentam. “O esgoto continua chegando e tornando nossos rios extremamente poluídos”, alertou ela.

Embora a qualidade das águas na Praia do Flamengo tenha melhorado significativamente — passando de apenas 13% adequadas para banho entre 2015 e 2019 para cerca de 80% neste ano — essa melhoria é vista com cautela. O tratamento envolve o desvio do rio Carioca para um emissário submarino, embora ele ainda permaneça poluído.

De acordo com José Paulo de Azevedo, engenheiro e professor na Coppe/UFRJ, as promessas atuais sobre despoluição são muitas vezes irreais e podem dar uma falsa impressão de progresso rápido. “As soluções mágicas propostas são problemáticas; o verdadeiro progresso requer tempo e compromisso contínuo com as metas estabelecidas”, observou ele.

Os dados mais recentes indicam uma leve melhora nas condições das águas interiores da baía: em 2023, um dos pontos monitorados foi classificado como apresentando boa qualidade pela primeira vez desde 2016. Essa mudança é influenciada não apenas pelos rios locais, mas também pela renovação trazida pelas águas oceânicas que entram na baía.

  • Publicado: 20/02/2026
  • Alterado: 20/02/2026
  • Autor: 26/01/2025
  • Fonte: Patati Patatá Circo Show