‘Envelhecimento’ em Santos transforma demandas econômicas e sociais
População idosa cresce, enquanto jovens migram para cidades vizinhas e marcas ajustam estratégias à nova realidade.
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 26/01/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
No coração da Farmácia Professor, situada no bairro de Aparecida, em Santos, uma mesinha vermelha equipada com giz de cera e um bloco de colorir chama a atenção. Ao lado, uma gangorra em formato de cavalinho azul se destaca. Esses brinquedos visam entreter as crianças que frequentam o local, mas raramente são utilizados.
Walber Toma, farmacêutico e professor universitário de 50 anos, relata que apenas 5% de suas vendas provêm de produtos destinados ao público infantil. A maior parte de sua clientela é composta por idosos que buscam medicamentos para condições como hipertensão, colesterol elevado, diabetes e depressão. Após abrir a farmácia há quatro anos como uma loja de rede, ele percebeu que essa abordagem não era viável e, no ano passado, decidiu criar sua própria marca.
“Expliquei à franqueadora que a realidade de Santos é diferente. Não faz sentido ter prateleiras voltadas para o público infantil, como eles desejavam”, afirma Toma. Ele observa uma crescente demanda por produtos voltados aos idosos atendidos em home care, como esparadrapos e gaze. “Estou tendo dificuldades em atender essa demanda”, acrescenta.
A realidade enfrentada pela Farmácia Professor reflete um fenômeno mais amplo que afeta o comércio e os serviços na cidade de Santos, localizada a 85 km da capital paulista. Com 479 anos completados neste domingo (26), a cidade tem visto uma crescente proporção de sua população composta por idosos — atualmente representando 26%, enquanto crianças e jovens até 19 anos somam apenas 19%.
Dados da Fundação Seade indicam que Santos se destaca entre os grandes municípios do estado por ter registrado um saldo vegetativo negativo em 2023; ou seja, ocorreram mais óbitos do que nascimentos, uma tendência que começou em 2020.
A demógrafa Bernadette Waldvogel destaca que as mulheres têm optado por ter menos filhos e que a população está envelhecendo. Além disso, o saldo migratório também é negativo em Santos — mais pessoas estão deixando a cidade do que se mudando para lá. Em 2023, a população caiu para 417,8 mil habitantes, comparada ao pico de 422,9 mil em 2018.
Com uma economia local estagnada, isso pode explicar parte do saldo migratório negativo. O geógrafo Vagner Bessa observa que a participação de Santos no PIB do estado diminuiu de 1,2% em 2002 para 0,9% em 2021. Durante esse período, o município caiu da 12ª para a 14ª posição no ranking estadual.
“As expectativas de investimentos significativos na cidade foram frustradas em parte pela Operação Lava Jato”, comenta Bessa. Atualmente, a economia santista é impulsionada principalmente pelo comércio e pelo setor imobiliário. O porto de Santos — o maior da América Latina — contribui com cerca de 5% do PIB municipal.
A falta de espaço físico limita ainda mais o crescimento econômico da cidade; a maioria dos habitantes reside na ilha de São Vicente, cercada pelo mar e pelos morros. Essa limitação territorial faz com que Santos seja uma das cidades mais verticalizadas do Brasil, com 63,5% das moradias sendo apartamentos.
Thiago Reis, da plataforma imobiliária Quinto Andar, destaca que as restrições territoriais elevam os preços dos imóveis: em 2024, o preço médio do metro quadrado na cidade alcançou R$ 6.148 — um aumento significativo em relação aos anos anteriores.
Em busca de alternativas mais acessíveis, muitos santistas têm se mudado para cidades vizinhas como São Vicente e Praia Grande. Ângela dos Santos Silva, funcionária da Universidade Santa Cecília (Unisanta), exemplifica essa tendência ao mudar-se para São Vicente devido à inviabilidade financeira de viver em Santos.
Enquanto isso, o setor infantil enfrenta seus próprios desafios. Dados do IBGE mostram que a população em idade escolar em Santos caiu 13% entre 2010 e 2022. Márcio Minamiguchi, do IBGE, revela que o Brasil experimentou um declínio significativo nas taxas de natalidade desde os anos 1980.
Em resposta à diminuição da população jovem, as marcas adaptaram suas estratégias. Claudinei Martins, da Kyly, menciona que com menos crianças nas famílias, os presentes são frequentemente luxuosos e personalizados. A marca Milon também encontrou um nicho ao atender avós e tios na compra de roupas infantis.
Na educação infantil, instituições como a escola bilíngue Maple Bear estão se estabelecendo com mensalidades altas para atender uma clientela reduzida mas disposta a investir na educação dos poucos jovens existentes.
Por outro lado, o cuidado com os idosos se mostra uma área promissora na cidade. Janeth Ferreira mudou-se recentemente para ser cuidadora após atuar como diarista. A personal trainer Bianca Cavazzini também reconhece a importância dessas atividades voltadas aos mais velhos, enfatizando a carência emocional desse público.
A qualidade de vida em Santos atrai aposentados; Mila Moreira destaca as vantagens residenciais da cidade frente à capital paulista. Com isso, é evidente que Santos está moldando seu futuro conforme as necessidades emergentes dessa nova demografia.