Restrição do Tarifa Zero pode impactar economia em São Caetano
Especialistas entendem que restrição do Tarifa Zero para somente moradores de São Caetano pode gerar impacto no comércio local e na mobilidade urbana
- Publicado: 25/06/2026 15:24
- Alterado: 25/06/2026 16:07
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: ABCdoABC
A decisão da prefeitura de São Caetano do Sul em restringir o Tarifa Zero para apenas moradores da cidade pode impactar a economia local e a mobilidade urbana no Grande ABC de forma geral. Isto porque quem não mora no município deverá desembolsar R$ 5,00 na passagem, depois com as devidas correções anuais. Antes, o dinheiro que sobrava e ajudava a alimentar o comércio, agora se destinará basicamente ao custeio da passagem.
A administração do prefeito Tite Campanella (Republicanos) afirma que a gestão anterior, de José Auricchio Júnior (PSD), estimou aumento de até 50% no número de passageiros, mas o total de usuários transportados diariamente passou de 20 mil para 80 mil, um crescimento de 300%.
Para Luiz Vicente Mello, especialista em Mobilidade Urbana e colunista do ABCdoABC, o planejamento do Tarifa Zero em São Caetano deveria ter ampliado a discussão no Grande ABC para criar uma tarifa média compátivel com todas as cidades. “No momento que se faz essa iniciativa de forma isolada onde as cidades estão interligadas causa esse transtorno”, explica. Além disso, Mello enfatiza que a mudança na rotina no deslocamento de moradores das demais da região impacta em mais poluição e mais congestionamento.
A gestão Tite entende que a redução no trânsito, poluição e estímulo ao comércio local foram “infimos” perto da elevação de custeio e a utilização do transporte municipal como “ponte” para fugir de tarifas de ônibus intermunicipais e trens.
Como o mercado de trabalho em São Caetano pode ser impactado?

Segundo Bruno Castro, professor da ETEC Jorge Street, em São Caetano, o mercado de trabalho formal no município é amplamente marcado pela terceirização e precarização. Ainda segundo ele, a maioria deles atuam em posições operacionais, como vigilantes, seguranças, controladores de acesso de prédios comerciais e residenciais, caixas, profissionais de limpeza e de atividades de suporte —, com uma remuneração média de R$ 1.800.
Com o retorno da tarifa de transporte, 6% desse salário passará a ser retido para a mobilidade, cabendo às empresas custear o valor excedente. Na prática, isso representa uma perda imediata no poder de compra do trabalhador: o dinheiro que antes alimentava o comércio local — como a padaria, o mercadinho ou a farmácia do bairro — agora será destinado ao deslocamento. Ao mesmo tempo, as empresas precisarão se replanejar financeiramente para garantir esse direito.
Impacto no bolso do trabalhador, mas impacto também nos cofres públicos. De acordo com o Executivo, antes do Tarifa Zero “para todos” por assim dizer, a média de passageiros era de 514 mil por mês, e agora, está em torno de 1,74 milhão. Agora, com a restrição da isenção de tarifa apenas à moradores de São Caetano, a economia seria de R$ 14,7 milhões.
Ainda que desafogue as contas públicas, Castro considera que trata-se de um efeito cascata que pressiona a folha de pagamento de pequeno e médio empreendedor. “Reduz o poder aquisitivo da população e, consequentemente, impacta as vendas de comerciantes e lojistas. Como resultado final, o próprio município sofrerá uma queda na arrecadação de tributos”, analisa o educador.
Marcelo Strama, assessor de fomento de empreendedorismo do Governo Federal, comentou por meio de vídeo nas redes sociais que o impacta diretamente o comércio local. “Muitos empreendedores já enfrentam dificuldades para contratarem e manterem equipes. Qualquer aumento no custo da mobilidade acaba gerando mais pressão sobre os trabalhadores e sobre os empregadores”.
Referente aos indicadores a serem observados a seguir, segundo Luiz Vicente Mello, devem ser dois. Do ponto de vista positivo, é a diminuição da superlotação dos ônibus, além de deixar mais uniforme o balanço financeiro, tendo um repasse de subsídio para número compatível à pessoas que moram em São Caetano.
Já do ponto de vista negativo, o especialista reforça o aumento de congestionamentos, em função da restrição, e a busca por alternativas de transportes, como transporte por aplicativos e outros meios de transporte. “Essa decisão deveria ter sido em conjunto com o Governo do Estado, focado no Grande ABC, exatamente para que não houvesse um efeito negativo no Grande ABC”, considera Mello.
Estudo técnico já previa readequação da rede de transporte
A discussão sobre mudanças no sistema de transporte coletivo de São Caetano não começou com a restrição do Tarifa Zero. Um estudo de readequação da rede de transporte público, elaborado pela TTC Engenharia de Tráfego e Transportes para a Viação Padre Eustáquio (VIPE) em outubro de 2024, já apontava a necessidade de revisar a operação dos ônibus municipais diante da evolução da demanda e da integração regional.
O levantamento destaca que São Caetano está inserida em uma região altamente conurbada, na qual os deslocamentos ultrapassam diariamente os limites municipais. Segundo o documento, a população do Grande ABC realiza viagens de caráter regional, o que exige que as políticas de mobilidade sejam pensadas de forma integrada entre os municípios, e não apenas sob uma ótica local.
Dados mais recentes do Novo Caged, referentes a abril de 2026, mostram que esse cenário evoluiu. O município passou a registrar um estoque de 122.835 empregos formais, além de 5.819 admissões, 6.438 desligamentos e saldo de -619 vagas no mês. A atualização reforça a importância do transporte coletivo para atender a um mercado de trabalho expressivo, marcado por intenso fluxo diário de trabalhadores entre São Caetano e as demais cidades do Grande ABC
Entre as conclusões do estudo está a necessidade de reorganizar a rede municipal para reduzir sobreposições de linhas, redistribuir a oferta de ônibus conforme a demanda, melhorar a integração com o transporte metropolitano — como CPTM, linhas intermunicipais e o futuro BRT-ABC — e tornar a operação financeiramente mais eficiente. O documento apresenta cenários de curto e médio prazo para adequação do sistema, com foco em equilibrar custos operacionais e qualidade do serviço prestado aos usuários.
Outro ponto ressaltado pelos técnicos é que importantes corredores viários, como as avenidas Goiás, Guido Aliberti e dos Estados, exercem papel estratégico na ligação entre São Caetano, Santo André, São Bernardo do Campo e a capital paulista, reforçando que alterações no transporte municipal podem produzir reflexos em toda a dinâmica de deslocamentos da região.
Especialista alerta para risco de venda irregular de cartões de transporte
O especialista Luiz Vicente Mello destaca que a restrição do Tarifa Zero pode afetar o deslocamento diário de estudantes, trabalhadores e comerciantes, uma vez que terão de utilizar outros meio de transportes ou ônibus intermunicipais. Porém, ele alerta para o risco da comercialização indevida de cartão de gratuidade para pessoas que não morem em São Caetano do Sul possam usufruir do benefício com um preço menor.
“Também existe o risco de corrupção dependendo da forma que a gratuidade é aplicada à moradores de São Caetano, assim como já teve anteriormente cartão de idoso utilizando por jovens para obter gratuidade”, adverte o especialista.
Vereadora Bruna Biondi critica Tite pelo sucateamento do Tarifa Zero
A vereadora Bruna Biondi (PSOL) tem criticado à gestão de Tite Campanella na aplicação da política do Tarifa Zero. A parlamentar contraria o chefe do Executivo sobre o fato de que a má qualidade do transporte se dá pela gratuidade da passagem. Biondi responsabiliza que o colapso no transporte público ocorre pelo corte de linhas, a redução da frota e o sucateamento do serviço.
Outro ponto que vereadora critica é o modelo de cadastro pelo SancaGOV por meio de reconhecimento facial. “Se a liberação das gratuidades vai ser por um cartão e não pela facil por que o Tite está exigindo o cadastramento das biometrias?”, questiona. Ela complementa questiona a divulgação de dados e de biometria, uma vez que o serviço de utilização dos ônibus será por cartão.
“O fim do Tarifa Zero era uma grande chantagem porque agora que suas vontades foram atendidas ele aceita voltar com as linhas como eram antes, prometendo que isso irá gerar mais qualidade, sendo que se ele não tivesse sucateado o Tarifa Zero nada disso estaria acontecendo e não precisaria ser extinto”, critica Bruna.
Quem ainda poderá utilizar o Tarifa Zero em São Caetano?
Mesmo com a restrição, alguns grupos ainda serão mantidos com o benefício do Tarifa Zero no município. São eles:
- Moradores de São Caetano do Sul cadastrados por meio da bilhetagem eletrônica;
idosos a partir de 60 anos; - Pacientes da rede pública de saúde de São Caetano do Sul em tratamento de câncer;
servidores públicos municipais/ - Estudantes matriculados na USCS e na Fundação das Artes e nas unidades de São Caetano do Sesi, Senai, Etec, Fatec, Instituto Mauá de Tecnologia e Faculdade Paulista de Serviço Social;
- Profissionais das forças de segurança pública nacional, estadual ou municipal, incluídos os integrantes do Tiro de Guerra, desde que uniformizados em serviço
Onde a Tarifa Zero já funciona no Brasil?
A política de Tarifa Zero não é exclusividade de São Caetano do Sul. Segundo levantamento nacional, mais de 170 municípios brasileiros já adotam algum modelo de gratuidade no transporte coletivo — seja integral, parcial ou apenas em determinados dias da semana. A maior parte das experiências foi implantada após a pandemia da Covid-19.
São Paulo (SP) – A capital paulista não possui Tarifa Zero permanente. Desde dezembro de 2023, a Prefeitura oferece gratuidade aos domingos em todas as linhas municipais de ônibus administradas pela SPTrans. A medida busca estimular o lazer, o comércio e o uso do transporte coletivo nos fins de semana. No primeiro domingo da implantação, o número de passageiros cresceu cerca de 35%.
Maricá (RJ) – É considerada uma das principais referências nacionais em Tarifa Zero. O sistema dos ônibus “Vermelhinhos” começou em 2014 e atende todo o município, com operação gratuita 24 horas por dia. O programa é financiado, em grande parte, pelos royalties do petróleo recebidos pelo município.
Caucaia (CE) – A segunda maior cidade da Região Metropolitana de Fortaleza implantou o programa Bora de Graça em 2021. Toda a população pode utilizar gratuitamente os ônibus municipais, financiados pelo orçamento da prefeitura. Após a implantação, a cidade ampliou a frota e registrou crescimento da demanda pelo transporte coletivo.
Luziânia (GO) – O município goiano adotou a Tarifa Zero em 2023 e frequentemente é citado como exemplo pelos defensores da política. Levantamentos apontam aumento da utilização do transporte coletivo e reflexos positivos no comércio local após a implantação.
São Joaquim de Bicas (MG) – Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o município oferece transporte coletivo gratuito desde 2021. O programa é custeado pela administração municipal e integra a lista de cidades brasileiras que adotaram a gratuidade universal.
Leopoldina (MG) – A cidade da Zona da Mata mineira também implantou a Tarifa Zero em 2023, ampliando o grupo de municípios mineiros que adotaram o transporte coletivo gratuito como política pública.