PT nega acordo com Paulo Serra, mas exalta peso do tucano

Em Santo André, Kiko Celeguim rechaça jantar secreto com Paulo Serra, mas admite que tucano tem força para fraturar a base de Tarcísio

Crédito: Billy Boss/Câmara dos Deputados

Em passagem por Santo André (SP), o deputado federal e presidente estadual do PT, Kiko Celeguim, negou que tenha se encontrado com o ex-prefeito Paulo Serra (PSDB) durante um suposto jantar secreto. A tese ventilada desenhava uma espécie de complô tático, onde a esquerda tentaria inflar os tucanos para fraturar os votos da direita, desidratar Tarcísio de Freitas e abrir caminho para Fernando Haddad. 

O cenário ganhou ainda mais eletricidade porque, recentemente, o próprio Paulo Serra veio a público desmentir qualquer recuo, reafirmando que segue firme na intenção de disputar o Palácio dos Bandeirantes para reconstruir o PSDB no estado.

Nesse clima de negações cruzadas, Celeguim desembarcou em Santo André para uma sessão solene na Câmara Municipal. O deputado federal aproveitou a oportunidade para movimentar as peças de um xadrez político muito mais amplo e incisivo ao reforçar o discurso de colar o selo “Vorcaro” em personagens da direita.

Celeguim reconhece peso político de Paulo Serra

Paulo Serra
Paulo Serra (Divulgação)

Mesmo negando um recente jantar com Paulo Serra, Kiko Celeguim não escondeu que cruza com o ex-prefeito andreense em agendas institucionais na Câmara dos Deputados. Paulo Serra comanda a federação PSDB-Cidadania em solo paulista e tem circulado no Congresso com mais assiduidade. “Falar em acordo tático é boato“, cravou o líder petista, pontuando que “contratualmente e historicamente, nós somos adversários políticos em São Paulo“.

No entanto, o desmentido protocolar abriu espaço para um reconhecimento que ecoou forte no reduto tucano: a esquerda sabe exatamente o tamanho do espólio político que o ex-prefeito Paulo Serra carrega. 

Celeguim ponderou que “ninguém pode ignorar o peso político que o Paulo Serra tem hoje“, lembrando que ele governou a sexta maior cidade do estado e encerrou seu ciclo com aprovação altíssima. Para a presidência do PT, a movimentação do tucano para reorganizar sua legenda e capturar o eleitor de centro-direita que rejeita os extremos é uma “cruzada legítima e um fato político relevante que não pode ser desprezado”.

A estratégia de colar Vorcaro nos nomes da direita

Em coletiva de imprensa, Celeguim deixou claro como funcionará a estratégia do PT para minar a popularidade do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos): ligar os escândalos financeiros do Banco Master e Daniel Vorcaro às privatizações promovidas pelo Palácio dos Bandeirantes.

Banco Master - Daniel Vorcaro
Ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master (Divulgação)

O que a população vai começar a cobrar de verdade são os interesses nebulosos por trás das grandes concessões“, disparou o líder petista, prevendo que a conta da venda da Sabesp e da EMAE chegará rápido ao bolso do cidadão na forma de tarifas mais altas.

A ligação foi direta. Segundo o petista, o empresário Nelson Tanure, cuja ligação com Daniel Vorcaro foi revelada pela Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero (que investiga suspeitas de fraudes e desvios financeiros), comprou a EMAE (Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A.) para depois revender à Sabesp, privatizada por Tarcísio.

Nós vamos discutir o patrimônio público. A privatização da Sabesp, a privatização da EMAE, o papel do Tanure, o Banco Master. Tudo isso vai estar no centro do debate porque a população vai perceber o impacto disso no dia a dia, nas tarifas, na qualidade do serviço. E o PT está preparado para fazer essa disputa exaustivamente.

Nelson Tanure é o acionista majoritário do Fundo Phoenix, que fez a melhor proposta e venceu o leilão de privatização da Emae.

E o Kassab?

Kassab | Paulo Serra
Gilberto Kassab (Divulgação)

Explorando essas sombras administrativas, o PT enxerga as maiores fissuras na base de Tarcísio, especialmente no visível descontentamento de Gilberto Kassab. 

Ao analisar o tabuleiro, Celeguim apontou que o PSD ficou mal acomodado no arranjo governista atual, perdendo o cargo de vice-governador para o MDB e as vagas ao Senado para o PL. “O Kassab pode se cansar desse escanteio político“, provocou o deputado, amarrando um raciocínio astuto: essa insatisfação crônica do PSD pode acabar alimentando justamente a alternativa de centro-direita que Paulo Serra tenta consolidar.

Apesar disso, Celeguim não acredita que o PSD possa ser opção de sustentação da campanha petista.

O horizonte de Haddad

Enquanto a direita lida com os desajustes de seus aliados e o avanço da terceira via tucana ameaça desidratar o eleitorado governista, o PT pavimenta o caminho para Fernando Haddad com indisfarçável otimismo. 

Longe de demonstrar preocupação com a pulverização de candidaturas, Kiko Celeguim encerrou sua passagem pelo ABC garantindo que o partido entra na disputa na melhor condição histórica de sua trajetória em São Paulo.

Amparado por dados internos, o presidente estadual da legenda destacou que Haddad inicia a corrida mantendo o patamar consolidado de votos do segundo turno de 2022. “Nós vamos ter um palanque forte, com grandes lideranças e ministros do governo Lula, e o PT está pronto para disputar o governo de São Paulo”, destaca Kiko Celeguim.

A grande aposta da esquerda para o Bandeirantes agora se sustenta em uma federação de sete partidos unida e em um palanque que reúne a força de quatro ex-ministros do governo federal. Para o PT, enquanto os adversários batem cabeça entre escândalos bancários e aliados preteridos, a rota para o governo estadual parece mais nítida do que nunca, mesmo que as pesquisas digam o contrário.

  • Publicado: 10/06/2026 22:11
  • Alterado: 10/06/2026 22:11
  • Autor: Thiago Quirino
  • Fonte: ABCdoABC