No ABC Cast Conexões, Aldemo Garcia propõe um Brasil além da polarização

Ex-cônsul do Brasil no Japão e embaixador com atuação em mais de dez países, o diplomata discute gestão pública, diálogo e os desafios do Brasil contemporâneo

Crédito: (Divulgação)

Poucas profissões permitem observar tantas versões diferentes de um mesmo mundo quanto a diplomacia. Enquanto o Brasil atravessava mudanças políticas, econômicas e sociais profundas nas últimas décadas, representantes brasileiros acompanharam de perto experiências internacionais sobre educação, planejamento urbano, gestão pública, segurança institucional e desenvolvimento econômico. A comparação inevitavelmente expõe diferenças importantes entre países que conseguiram estruturar projetos contínuos de longo prazo e uma realidade brasileira frequentemente marcada por polarização política, instabilidade e respostas emergenciais para problemas históricos.

É a partir dessa experiência acumulada em mais de 40 anos de atuação internacional que o ex-cônsul do Brasil no Japão e embaixador no Timor-Leste, Aldemo Garcia Junior, participa do sexto episódio da segunda temporada do ABC Cast Conexões. Depois de atuar em mais de dez países e acompanhar de perto diferentes modelos políticos, culturais e administrativos, ele agora inicia uma nova transição na própria trajetória ao decidir levar essa experiência para o debate público e para a política estadual paulista. “Ao longo da minha carreira diplomática, eu pude morar em mais de dez países com culturas diferentes. Morei em países desenvolvidos, como Canadá e Estados Unidos, mas também em países em situações muito difíceis politicamente, como Argélia e Timor-Leste. Então a gente vai acumulando experiências e percebendo que muitas vezes é possível encontrar soluções para problemas que afligem o Brasil observando países que nem sempre são ricos, mas que já resolveram questões que a gente ainda tenta enfrentar hoje”, afirma.

Entender a diplomacia, segundo Aldemo Garcia, vai muito além das relações formais entre governos, o ex-cônsul reforçou que a atividade diplomática envolve compreender culturas, interpretar diferentes visões de mundo, negociar interesses muitas vezes opostos e construir soluções possíveis em cenários marcados por conflitos, tensões políticas e divergências permanentes. “Nós somos funcionários do Estado. Independente de governo, seja de direita ou de esquerda, continuamos fazendo o nosso trabalho representando a nação brasileira, o povo brasileiro e a cultura brasileira. Isso não muda conforme o presidente. O papel da diplomacia é representar o Estado e manter esse diálogo permanente com o mundo”, diz.

O Brasil que o mundo aprendeu a enxergar

Aldemo Garcia
Aldemo Garcia como embaixador do Brasil no Timor-Leste
(Divulgação)

Ao comentar como o Brasil é percebido fora do país, Aldemo Garcia afirma que a imagem brasileira ainda carrega um capital simbólico extremamente positivo, principalmente por conta da capacidade histórica do país de estabelecer relações diplomáticas equilibradas e construir influência cultural sem recorrer a conflitos militares ou disputas geopolíticas agressivas. Para ele, essa combinação entre diplomacia, diversidade cultural e capacidade de diálogo transformou o Brasil em uma presença respeitada dentro de fóruns internacionais, mesmo em momentos de instabilidade política interna. “O Brasil tem dez países limítrofes e não tem guerra com nenhum deles. Isso é um caso praticamente único no mundo. A gente tem uma percepção muito positiva no exterior e o Brasil é sempre ouvido nos fóruns internacionais justamente porque a nossa diplomacia historicamente construiu uma posição equilibrada, sem posições extremadas. Nós privilegiamos muito o diálogo, os organismos multilaterais e a construção de consensos”, ressalta o ex-cônsul.

Durante a entrevista, Aldemo Garcia também chama atenção para aquilo que considera os principais instrumentos de influência cultural brasileira no exterior. Segundo ele, mesmo diante das transformações geopolíticas dos últimos anos, o país ainda preserva um forte poder de identificação cultural junto a diferentes povos, especialmente por meio da música, do futebol e da própria diversidade social brasileira. “Além da alegria e da expansividade do povo brasileiro, eu considero que nós temos dois grandes soft powers. O primeiro é o futebol, que apesar das dificuldades recentes ainda carrega uma força enorme na imagem do Brasil. E o segundo, talvez até maior, é a música brasileira. Nós temos mais de 400 ritmos musicais, uma diversidade cultural muito forte e uma capacidade muito grande de gerar identificação cultural com outros países”, explica ao relembrar ações desenvolvidas durante sua atuação no Japão.

Brasileiros que reconstruíram a própria vida do outro lado do mundo

Aldemo Garcia
Aldemo Garcia na inauguração do Bosque dos Ipês, no Parque Yuto, em Hamamatsu
(Divulgação)

A passagem de Aldemo Garcia pelo consulado brasileiro em Hamamatsu, no Japão, colocou o diplomata diante de uma realidade bastante diferente daquela vivida em postos mais ligados à articulação política internacional. Sua rotina passou a ser marcada pelo contato direto com milhares de brasileiros que enfrentavam desafios ligados a trabalho, documentação, educação, envelhecimento da comunidade e adaptação cultural em um país com costumes muito diferentes dos brasileiros.

Segundo ele, foi nesse período que a diplomacia passou a se aproximar mais diretamente da vida cotidiana das pessoas. “Se no Timor-Leste nós tínhamos cerca de 100 brasileiros, no Japão eram mais de 211 mil. Só na minha jurisdição eram 30 mil brasileiros e, na cidade de Hamamatsu, aproximadamente 10 mil. Era a cidade mais brasileira do Japão. Então a atividade consular era completamente diferente. A gente ouvia as demandas da comunidade, a questão escolar, o envelhecimento da população, os problemas ligados à documentação e procurava atuar de forma a melhorar a vida dessas pessoas”, conta.

No ABC Cast Conexões, Aldemo Garcia também relembrou projetos criados durante sua atuação no Japão para estimular empreendedorismo, integração social e fortalecimento da identidade brasileira entre jovens descendentes de imigrantes. Entre eles, destaca a criação de uma cartilha voltada ao empreendedor brasileiro no Japão e dos Jogos Escolares Brasileiros no Japão, competição esportiva que reuniu milhares de estudantes brasileiros vivendo no país asiático. “A maioria dos brasileiros trabalhava em fábricas, mas muitos tinham o sonho de empreender. Então criamos o Guia do Empreendedor Brasileiro no Japão, começamos a fazer palestras, parcerias com o Sebrae e ajudar essas pessoas a abrir pequenos negócios. Muitos criaram pizzarias, confeitarias, pet shops, lojas e começaram uma nova trajetória. Também criamos os Jogos Escolares Brasileiros no Japão, que hoje se transformaram no maior evento esportivo brasileiro fora do Brasil”, relembra.

Diplomacia, polarização e a dificuldade brasileira de construir consenso

Aldemo Garcia - Jantar na residência do cônsul-geral da China em São Paulo, Embaixador Yu Peng
Aldemo Garcia e a esposa, Rosangela Lesnock, ao lado do cônsul-geral da China em São Paulo, embaixador Yu Peng
(Reprodução/Instagram)

Em diferentes momentos da entrevista, Aldemo Garcia retorna à ideia de que a diplomacia ensina algo que o Brasil parece ter perdido nos últimos anos, a capacidade de dialogar mesmo diante de posições completamente diferentes. Ao comentar o avanço da polarização política em diversos países, o ex-embaixador ressalta que o fenômeno não é exclusivo da realidade brasileira, mas avalia que o ambiente público passou a privilegiar confronto permanente, radicalização e respostas imediatas, reduzindo espaços de negociação e construção coletiva. “Infelizmente, esse fenômeno da polarização não acontece só no Brasil. A gente vê isso na América Latina, nos Estados Unidos, na Europa e até em países asiáticos. Mas a diplomacia ensina justamente o contrário. Você senta numa mesa com pessoas que pensam completamente diferente de você e precisa construir caminhos possíveis. Afinal de contas, eu negociei a vida inteira. Eu aprendi que é possível entender posições muito diferentes das nossas e procurar soluções através do diálogo e do consenso”, afirma ao relacionar a experiência diplomática ao ambiente político brasileiro atual.

Aldemo Garcia também argumenta que a própria atuação diplomática brasileira foi construída historicamente sobre essa lógica de equilíbrio institucional e continuidade de Estado, independentemente das mudanças de governo. Segundo ele, o papel do diplomata nunca esteve ligado a disputas partidárias, mas à preservação das relações internacionais brasileiras e da capacidade de diálogo com diferentes nações e culturas. “Nós somos funcionários do Estado. Independente de governo, seja de direita ou de esquerda, continuamos fazendo o nosso trabalho representando a nação brasileira, o povo brasileiro e a cultura brasileira. Isso não muda conforme o presidente. O papel da diplomacia é manter esse diálogo permanente com o mundo”, diz.

A discussão também passou para a dificuldade brasileira de pensar planejamento público a longo prazo. Para Aldemo Garcia, parte dos impasses enfrentados pelo país passa pela incapacidade de construir projetos contínuos que ultrapassem disputas eleitorais imediatas. “É uma pena que essa discussão ideológica tome conta de tudo. A gente precisa pensar estrategicamente, pensar o que espera do país daqui a 30 ou 50 anos. O Estado de São Paulo é o mais rico da federação, tem recursos, tem estrutura, mas precisa melhorar gestão, planejamento e encontrar soluções viáveis para o curto, médio e longo prazo”, defende.

Aldemo Garcia: entre a diplomacia e a política

Aldemo Garcia Júnior
Aldemo Garcia em sessão da Comissão de Relações Exteriores do Senado
(Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Depois de mais de quatro décadas atuando em embaixadas, consulados e organismos ligados ao Estado brasileiro, Aldemo Garcia diz que a decisão de ingressar na política partidária não surgiu de forma repentina, mas como consequência de uma inquietação acumulada ao longo dos anos observando o funcionamento de diferentes países e modelos de gestão pública. Segundo ele, a experiência internacional passou a provocar uma pergunta recorrente sobre por que o Brasil ainda enfrenta problemas estruturais que outras nações, inclusive países em desenvolvimento, já conseguiram enfrentar de forma mais eficiente. “Depois desse longo período no exterior, eu comecei a olhar para os problemas do Brasil e pensar por que a gente ainda se debate com questões que poderiam ser resolvidas de outra forma. Muitas vezes não falta dinheiro ou recurso. O Estado de São Paulo é rico, é o estado mais rico da federação. O que falta, muitas vezes, é gestão, planejamento e melhor uso do dinheiro público. Por isso eu encaro essa entrada na política um pouco como uma missão”, explica.

Ao comentar propostas voltadas à segurança pública e educação, Aldemo Garcia defende que parte das soluções aplicadas em países asiáticos pode ser adaptada à realidade paulista, principalmente no uso de tecnologia e inteligência aplicada à gestão pública. O ex-cônsul citou experiências observadas em países como Japão, Singapura e China para defender modelos de monitoramento mais integrados e investimentos em tecnologia e educação. “Educação hoje em dia é fundamental. Não existe jeitinho, não existe atalho. É pela educação que os nossos jovens vão conseguir melhores profissões, gerar renda, ter oportunidades e melhorar a qualidade de vida. Quando você investe em educação, você está criando perspectiva de futuro para toda uma geração”, pontuou.

A discussão também passou pela possibilidade de aproximar municípios paulistas de investimentos internacionais e novas oportunidades econômicas. Para Aldemo Garcia, a experiência construída em décadas de atuação diplomática pode ajudar a criar pontes entre cidades brasileiras e empresas estrangeiras interessadas em investir em diferentes setores da economia paulista. “É possível sim trazer investimentos para os municípios. O Estado de São Paulo tem uma força econômica gigantesca, tem agro, indústria, tecnologia, serviços. Muitas vezes o que falta é justamente criar conexões, apresentar oportunidades e estabelecer diálogo com investidores que já olham para o Brasil com interesse”, ressalta.

O Brasil que ainda pode aprender com o próprio potencial

Brasileiro - Brasil - População Brasileira - Cidadãos
(Arquivo/Agência Brasil)

A participação de Aldemo Garcia no ABC Cast Conexões evoca uma reflexão que ultrapassa a diplomacia e alcança diretamente a forma como o Brasil enxerga a si mesmo. O ex-embaixador rejeita a ideia de um país condenado ao atraso ou incapaz de ocupar posições estratégicas no cenário internacional, o problema, segundo ele, está menos na ausência de recursos e mais na dificuldade histórica de transformar capacidade em planejamento contínuo, gestão eficiente e desenvolvimento social duradouro. “Hoje as questões internacionais estão em toda parte. Antigamente elas ficavam restritas à universidade ou aos círculos diplomáticos. Hoje as pessoas discutem guerra, economia, política internacional no bar, no café, no trabalho. O Brasil está inserido nesse cenário global e precisa se preparar melhor para isso”, explica.

Aldemo Garcia também reforçou que boa parte das soluções necessárias para o Brasil já existem em diferentes partes do mundo e poderiam servir como referência para políticas públicas mais eficientes. Segundo o ex-cônsul, passar a discutir projetos de longo prazo voltados à qualificação profissional, inovação, segurança e planejamento urbano é o que de mais urgente precisa ser feito em nosso país. “O Estado de São Paulo tem recursos, estrutura e capacidade econômica gigantesca. O que a gente precisa é encontrar soluções viáveis e pensar o que queremos para o nosso estado daqui a 30 anos, não apenas amanhã. Quando você planeja educação, tecnologia e gestão pública de forma séria, você muda a perspectiva de toda uma geração”, afirma.

A conversa com Adelmo Garcia termina deixando uma reflexão que ultrapassa a diplomacia e a própria política partidária. Após décadas representando o Brasil em diferentes continentes, acompanhando conflitos internacionais, comunidades brasileiras no exterior e modelos distintos de desenvolvimento, o diplomata chega ao debate público brasileiro propondo uma ruptura na dificuldade interna de se construir consensos mínimos para pensar o próprio futuro e defendendo a ideia de que diálogo, planejamento e capacidade de negociação ainda podem funcionar como instrumentos reais de transformação.

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

Aldemo Garcia - ABC Cast Conexões
Aldemo Garcia, Thiago Quirino e Ygor Andrade durante entrevista ao ABC Cast Conexões
(Reprodução/ABCdoABC)

A entrevista com o Embaixador Aldemo Garcia, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação do jornalista Ygor Andrade, editor do Contexto Regional. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Assista ao episódio completo:

Além do canal no YouTube, a entrevista com Aldemo Garcia pode ser acessada pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 23/05/2026 09:15
  • Alterado: 23/05/2026 09:15
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC