Pressão estética e anabolizantes ameaçam a saúde do coração

Especialistas alertam para os riscos da cardiomiopatia hipertrófica e do extremismo fitness após laudo de fisiculturista apontar morte súbita

Crédito: TV Brasil

A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, ocorrida em maio deste ano, voltou a chamar atenção para os riscos da cardiomiopatia hipertrófica, doença genética que pode permanecer sem diagnóstico por anos. Segundo o laudo pericial, o quadro foi agravado pelo esforço físico intenso e pelo uso de esteroides anabolizantes.

O cardiologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Dr. Daniel Marotta, explica que a cardiomiopatia hipertrófica costuma evoluir de forma silenciosa e, muitas vezes, não apresenta sintomas.

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“A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética caracterizada pelo crescimento anormal do músculo cardíaco e é uma das principais causas de morte súbita em jovens e atletas porque frequentemente é silenciosa”, afirma o médico.

Segundo Marotta, pessoas com essa condição podem apresentar arritmias graves durante exercícios de alta intensidade, principalmente quando ainda não sabem que têm a doença.

“Durante exercícios intensos, o aumento da frequência cardíaca e da adrenalina pode desencadear arritmias fatais em um coração geneticamente predisposto que ainda não foi diagnosticado”, alerta.

Além da intensidade dos treinos, o cardiologista chama atenção para os efeitos dos esteroides anabolizantes sobre o sistema cardiovascular. Segundo ele, essas substâncias aumentam o risco de doenças cardíacas e podem agravar alterações já existentes.

“Os esteroides anabolizantes estão associados ao aumento da pressão arterial, piora do colesterol, maior risco de trombose, infarto, acidente vascular cerebral e arritmias. Além disso, podem provocar hipertrofia do músculo cardíaco, redução da função do coração e insuficiência cardíaca”, enumera Marotta.

Boa forma e saúde são sinônimos?

Parceria SPM e Conselho Regional de Educação Física. anabolizantes
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É comum associar um corpo musculoso ou um bom condicionamento físico à saúde. No entanto, segundo especialistas, aparência e desempenho nem sempre refletem as condições reais do organismo.

A nutricionista Fernanda Lopes, da Six Clínic, afirma que pessoas aparentemente saudáveis também podem apresentar fatores de risco para doenças cardiovasculares.

“Muitas pessoas associam boa forma física à saúde plena. É possível alguém aparentar excelente condicionamento físico e ainda apresentar riscos cardíacos. Existem doenças e fatores de risco cardiovasculares que podem estar presentes mesmo em pessoas magras, musculosas ou com bom desempenho esportivo. Pressão alta, colesterol elevado, alterações genéticas e algumas doenças do coração nem sempre provocam sintomas visíveis”, explica.

Para a nutricionista, a aparência não deve ser utilizada como parâmetro para avaliar a própria saúde. Ela ressalta que doenças importantes podem evoluir silenciosamente, mesmo em pessoas com boa condição física.

“Uma pessoa pode parecer extremamente saudável por fora e ainda precisar de acompanhamento médico ou de cuidados específicos para controlar fatores de risco que não são perceptíveis visualmente. O ideal é enxergar a saúde de forma mais ampla.”

Quando a busca pelo corpo ideal deixa de ser saudável?

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Além de doenças silenciosas, especialistas alertam para os riscos de hábitos extremos relacionados à busca por resultados rápidos. Treinos excessivos, dietas restritivas e a obsessão pela alta performance podem comprometer a saúde física e mental.

Segundo Fernanda Lopes, quando o foco passa a ser apenas a aparência, a saúde costuma ficar em segundo plano.

“Inicialmente, pode haver perda de peso rápida, mas ocorre perda de massa muscular, o que pode prejudicar a força, a disposição e a manutenção dos resultados. Com o tempo, surgem fadiga constante, alterações hormonais e maior risco de lesões”, afirma.

A nutricionista destaca alguns sinais de alerta de que a rotina de treinos e alimentação deixou de ser saudável:

  • Exaustão persistente, mesmo após períodos de descanso;
  • Irritabilidade, ansiedade e dificuldade de concentração;
  • Sentimento de culpa ao descansar ou comer fora da dieta;
  • Isolamento social em função da rotina de treinos e alimentação.

Segundo Fernanda, esse perfil tem aparecido com mais frequência nos consultórios, acompanhado pelo aumento de problemas metabólicos e cardiovasculares entre adultos jovens.

O cardiologista Daniel Marotta confirma essa percepção.

“Observamos um aumento de jovens com obesidade, diabetes, hipertensão e alterações importantes do colesterol. Além disso, cresce o número de pessoas buscando alta performance esportiva, utilizando suplementos e anabolizantes sem acompanhamento adequado.”

O médico também alerta que sintomas como dor no peito, palpitações, tontura, desmaios e falta de ar costumam ser confundidos com o desgaste natural dos treinos, atrasando a procura por atendimento.

“Algumas pessoas interpretam esses sintomas como consequência normal dos treinos intensos e retardam a procura médica. Esses sinais nunca devem ser ignorados”, ressalta.

Na avaliação dos especialistas, prevenir casos como o de Gabriel Ganley passa por acompanhamento médico, realização de exames antes de iniciar treinos de alta intensidade e pela compreensão de que desempenho físico e aparência não são sinônimos de saúde.

“Vivemos em uma cultura que valoriza superar limites o tempo todo. No entanto, o corpo humano funciona melhor quando existe equilíbrio entre esforço e recuperação. Dor persistente e exaustão não são demonstrações de disciplina. São avisos de que algo precisa ser ajustado”, conclui Fernanda Lopes.

  • Publicado: 26/06/2026 17:14
  • Alterado: 26/06/2026 17:14
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: ABC do ABC