Prêmio na mala em frango de padaria
Crônica de um azarado de confiança que saiu da vitrine com um troféu na mala e sorriso uivante
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 06/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Eu sempre desconfiei que, se um dia eu ganhasse um prêmio, ia ser como frango de padaria: girando, girando, girando, sem nunca entender direito como foi parar ali no meio do espetáculo. Um perdedor de confiança, desses que o tempo e o vento vão rodando devagarinho, tostando por fora, cansando por dentro, até que alguém resolve apontar e dizer “é esse aí”. E esse aí, no caso, sou eu.
Na manhã seguinte ao prêmio, meu amigo me levou numa padaria tradicional da região. Cena de filme que a gente finge que não emociona, mas emociona. Ele foi reconhecido por onde passava, chamado pelo nome, abraçado no balcão, colegas de aceno, carinho em cascata, até pão na chapa o rapaz já sabia do jeito que ele gostava. Nem precisava pedir. Bastava entrar pela porta que o café se adiantava, o sorriso vinha junto, e o mundo parecia minimamente organizado.
Fiquei olhando aquilo como quem observa um planeta onde a vida deu certo. Quem sabe um dia eu alcance algo assim. Não de ser reconhecido pela “obra”, pelo texto, por coluna com nome pretensamente engraçado. Mas pelo simples luxo de entrar num lugar e caber ali. Fazer parte da mobília afetiva de alguém, de um lugar sem me sentir apátrida. Ter um pão que o balconista já sabe, uma xícara que já é sua, uma cadeira meio torta que a cidade inteira respeita como se tivesse placa de “reservado”.
Por enquanto, dizia que na bagagem tinha uma outra espécie de currículo. Do tipo onde digo coisas como “eu sinceramente nem sei se mereço esse prêmio mas se o critério for, em matéria de apanhar da vida, o meu INSS emocional tá super em dia”. As contribuições estão todas pagas: boleto atrasado, madrugada em claro, texto recusado, texto ignorado, texto evaporado no feed em três segundos. Mesmo assim, eu sigo escrevendo mesmo quando ninguém pediu, quando ninguém clicou, e sobretudo quando ninguém elogiou.
Acho mesmo que escrevo porque não aprendi a desistir no tempo certo. E também porque meu texto não vem embalado com motivação barata, não entrega certificado de “você é especial” no final da trama, os fonemas são ilhas perdidas em linhas que de forma alguma prometem um país de novela das nove do Manoel Carlos. É muito mais crônica de papel amassado de boteco nos fundos da Sé, de barzinho antigo da Augusta perto da meia-noite, de Adoniran olhando a Barra Funda pela janela do trem rumo ao Bexiga e pensando “de novo isso aqui, meu Deus?”.
Então, pra mim, após essa noite mágica, até dá um certo alívio perceber que, num mundo que se leva sério demais, talvez para os mais desse forno de 400 jurados daqui — cozinharam a esperança desse franguinho, talvez valha a pena reconhecer quem prefira insistir em cutucar certas feridas com humor no formato que se convencionou chamar de “texto literário”. Não que eu acredite muito nessa etiqueta. Mas, se for pra escolher um sobrenome, fico com esse: o da crônica, assim nesse jeito torto e honesto de falar de assuntos incômodos, de violência, política, desigualdade, sem fingir que tá tudo bem, mas sem entregar o jogo pro desespero.
Não apenas pra este que vos fala, mas pros meus conterrâneos de vício de página, sobretudo o maior de todos: Luís Fernando Veríssimo. A crônica, eu creio, que seja isso: um modo delicadamente desajustado de olhar pro mundo, apontar o absurdo, rir onde só dava pra chorar, e ainda assim não virar cínico de carteirinha. No meu caso, o café vem com cinismo, sim, mas é daquele tipo que ajuda a acordar, não a desistir.
Então, se a gente conseguir construir um amanhã minimamente mais ensolarado, ótimo, missão cumprida. Se não, tá tudo bem também: o “Café com Cinismo”, a minha coluna, vai continuar servindo esse cafezinho amargo, mas necessário, enquanto for preciso. Mesmo que ninguém peça, mesmo que ninguém compartilhe, mesmo que o algoritmo faça cara de nojo. É meu jeito meio torto de dizer pro mundo: “eu ainda tô aqui, viu?”.

O problema é que, na vida real, você não ganha prêmio sentado em frente ao teclado. Você ganha prêmio sendo arrancado da frente dele. Aí te enfiam num terno, te atiram num auditório, apagam as luzes, ligam o microfone e esperam que você seja alguém que você não é: articulado, tranquilo, elegante em outro idioma. Foi aí que entrou o italiano. Ou melhor, a tentativa de.
Lá pelas tantas, chamam o meu nome, luz na cara no tal prêmio, palma batendo, e eu me levanto com a graça de um frango espetado que esqueceu como é que anda. Sobe no palco correndo, quebra protocolo, fala gaguejando agarrando o sotaque pra não escorrer pelas mãos suadas que seguram o troféu — olha pra plateia e o cérebro decide virar estátua de gelo. Todo aquele discurso no caminho do evento caso rolasse um “e se” que eu tinha preparado aqui dentro, bonitinho, cheio de referências, resolve desaparecer. Sumiu. Ciao, arrivederci, grazie per niente.
O que saiu foi um dialeto novo, que os linguistas ainda vão demorar uns anos pra catalogar: um misto de italiano, portunhol e desespero. Algo como “buona notte a tutti, io… come si dice… non so se merito questo premio, ma… grazie per non aver desistito di me”. E, claro, a parte bonita mesmo, a que eu queria era essa que não saiu. Esta aqui, que você está lendo agora.
Porque o que eu tinha vontade de dizer, com todas as letras, era: eu não sei se mereço este prêmio, mas sei que mereço continuar tentando. Que mereço, pelo menos, a chance de transformar essa pilha de boletos existenciais, esse caos de mundo Made In Brazil com “Z”, em algum lugar que preste minimamente pros meus. E, principalmente, que minha esposa e meu filho saibam que é por eles que eu insisto em escrever. Que eu insisto em apanhar de prazo, de pauta, de realidade, pra ver se sobra uma faísca de sentido no meio dessa fumaça.
Porque, no fundo, a vida parece valer alguma prece ou prestação de serviço terceirizado. Ela só é péssima de relações públicas. Precisa de gente que traduza os absurdos, que conte as pequenas histórias, que fale do frango de padaria girando lá na vitrine enquanto o trânsito trava, o país desanda e a esperança pega um ônibus lotado sem previsão de chegada.
E aqui volto pra padaria da manhã do prêmio. Meu amigo sendo cumprimentado por todos, o padeiro já sabendo o pão, a moça do caixa perguntando da família, a sensação de pertencimento pingando como manteiga derretendo no pão quente. Ele ali, inteiro, passando o polenguinho no pão — e eu ao lado, meio turista da própria vida, com um troféu que ainda não existia e uma pergunta que já me acompanhava fazia tempo: será que um dia eu vou caber assim em algum lugar?
Pois é. Amanhã eu volto pra casa sem um tostão no bolso, mas com um prêmio na mala e uma certeza discreta, dessas que não fazem barulho mas mudam o jeito de caminhar. Nada mal para um sujeito de sorte ao contrário, que passou anos girando no espeto do próprio infortúnio e, ainda assim, insistiu em vencer na teimosia, (e)ternamente vivendo de palavras que lhe f_ltam no bolso do peito.
Não estou certo se eu mereço o título de “melhor jornalista” daqui, mas sei que ponho a mão no fogo por outra coisa: eu não desisti e vovó lá de cima, sabe disso. Continuei escrevendo enquanto ninguém lia, continuei mandando texto enquanto ninguém respondia, continuei fazendo graça da própria tragédia pra não enlouquecer de vez. Então se isso vale prêmio, ótimo. Se não valer, eu sigo do mesmo jeito.
No fim das contas, nesse prêmio, eu não passo de um frango de padaria: girando devagar, tostando aos poucos, atravessando o tempo e o vento. E se um dia você passar na vitrine e achar que tem algum brilho ali, pode saber: não é glamour, é sobrevivência. E, entre uma volta e outra, eu sigo agradecendo em qualquer idioma que me emprestarem, mesmo que a gramática entre em pânico.
Obrigado. Ou, como meu italiano nervoso tentou dizer no palco e não conseguiu completar: “grazie per credere che”, pois mesmo assim, a vida presta e muito.