Polarização política e estratégia eleitoral: ataques que custam votos

Em disputas acirradas, a polarização política transforma narrativa em risco eleitoral e mostra que humilhar adversários pode afastar eleitores moderados

Crédito: (Juca Varella/Agência Brasil)

A polarização política, em qualquer esfera da vida pública, faz com que as relações humanas — e até institucionais — tendam a descer os degraus da urbanidade. No início, ocorrem trocas de acusações contidas. Com o passar do tempo, à medida que as disputas de ideias se tornam corriqueiras, o dicionário de adjetivos passa a ser amplamente empregado.

Quando a disputa permanece no campo das ideias e dos projetos, é natural que, ao longo do tempo, as propostas já apresentadas ao público tendem a arrefecer por absorção natural daqueles que já tomaram conhecimento — seja concordando, discordando ou fazendo ressalvas.

Cria-se, então, um hiato na discussão, no qual a ideia passa a ser analisada no campo pessoal de cada cidadão. Cada indivíduo, com seus próprios critérios e julgamentos, constrói sua opinião — muitas vezes sem externá-la.

A disputa pela narrativa nas eleições

Na política, esse momento de avaliação silenciosa é perturbador para os grupos que disputam o poder. Há uma necessidade imperiosa de constante monitoramento do que o eleitor pode estar pensando. O receio de perder o controle da narrativa política faz com que grupos lancem provocações sucessivas — hoje, principalmente nas redes sociais — com o objetivo de testar reações e ajustar rotas estratégicas.

No entanto, há uma lição que aprendi como jornalista, após observar inúmeras campanhas eleitorais: ridicularizar ou humilhar um adversário pode ser um erro capaz de levar à derrota.

Esse tipo de equívoco ocorre com frequência e, recentemente, ganhou novo episódio no Carnaval. No desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, o enredo teria abandonado o tom de homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para direcionar críticas e ataques ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Bolsonaro - Lula - Polarização Política - Acadêmicos de Niterói
(Reprodução/Redes Sociais)

É um engano imaginar que manifestações dessa natureza ocorram sem qualquer envolvimento estratégico. Também é precipitado supor que não exista interlocução política ou influência comunicacional na construção de narrativas apresentadas em grandes eventos públicos.

Ataques, emoção e risco eleitoral

Ao humilhar Bolsonaro, atinge-se diretamente os 49,12% do eleitorado que votaram nele na última eleição. Ainda que esse número seja meramente ilustrativo em um cenário hipotético, é preciso considerar que, em disputas tão polarizadas, parte significativa dos eleitores de Lula pertence ao centro político.

Esses eleitores optaram por um candidato apresentado como moderado — o chamado “Lula paz e amor”. Esse perfil de eleitor tende a rejeitar tanto posturas belicosas quanto atitudes de humilhação pública contra adversários. É da natureza humana sentir empatia pela dor do outro.

Colocar-se no lugar de quem está sendo atacado é, muitas vezes, mais fácil do que assumir a posição de quem agride.

O próprio presidente já declarou que, para a próxima disputa eleitoral, o “Lula paz e amor” teria ficado no passado, sinalizando uma postura mais combativa.

Nas últimas eleições presidenciais, a diferença foi de apenas 1,76%. Eleições se ganham nos detalhes — e também se perdem por eles.

Nos municípios brasileiros, inúmeras derrotas em disputas para prefeituras ocorreram por margens mínimas, frequentemente associadas a estratégias baseadas em ataques pessoais e exposição pública humilhante do adversário.

Comunicação política e cálculo estratégico

Presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro
(Ricardo Stuckert/PR e Lula Marques/Agência Brasil)

Assim como “gurus” da internet vendem cursos com estratégias questionáveis a candidatos inexperientes, o Secretário de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira, pode ter cometido um erro estratégico ao permitir que a narrativa extrapolasse o campo da crítica política para o terreno da humilhação pública.

Em um cenário de polarização intensa, cada gesto simbólico carrega peso eleitoral.

Se Flávio Bolsonaro souber navegar neste ambiente, poderá recuperar parte do capital político que, eventualmente, tenha sido desgastado nesse episódio.

Márcio Prado

Márcio Prado - Peninha - Ribeirão Pires
Peninha (Divulgação)

Márcio Prado, mais conhecido como Peninha, carrega há anos o apelido inspirado no personagem dos gibis da Disney. Jornalista com mais de uma década de atuação, ele encontrou no jornalismo investigativo sua vocação, movido pela indignação diante de apurações superficiais e pela determinação em expor esquemas de corrupção, desvios de recursos e práticas ilícitas no poder público e na iniciativa privada. Seu trabalho vai além da publicação direta: muitas vezes contribui de forma anônima com órgãos de investigação, fortalecendo a cidadania e reafirmando o papel da imprensa como fiscal da sociedade.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 17/02/2026
  • Fonte: FERVER