PL guarda R$ 134 milhões do fundo partidário para candidatos
O PL e legendas do centrão poupam recursos milionários no caixa para ampliar gastos eleitorais, enquanto o PT fecha o ano anterior em déficit
- Publicado: 11/07/2026 08:26
- Alterado: 11/07/2026 08:27
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: FolhaPress
De acordo com as prestações de contas entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o PL (Partido Liberal) e legendas que integram o chamado centrão realizaram um forte contingenciamento de verbas públicas e privadas. O objetivo central da manobra é inflar os recursos disponíveis para as campanhas deste ano.
Em contrapartida, o Partido dos Trabalhadores (PT) encerrou o balanço do ano anterior com um déficit financeiro de R$ 725 mil. Como consequência, a legenda governista entra no período eleitoral sem reservas acumuladas para a engrenagem de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dependendo estritamente dos repasses correntes.
A engenharia contábil e as sobras milionárias do PL
O PL consolidou-se como a agremiação com a maior capacidade financeira de investimento para o pleito. A poupança acumulada pela sigla é robusta o suficiente para custear de forma integral a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Com essa flexibilidade, o partido não precisará queimar imediatamente os R$ 815 milhões que receberá do Fundo Eleitoral, montante que representa a maior fatia distribuída entre todas as legendas registradas no país.
A estrutura máxima permitida por lei para uma campanha à Presidência da República tem um teto de R$ 88,9 milhões para o primeiro turno e R$ 44,4 milhões para o segundo turno, totalizando um teto de R$ 133,3 milhões. O valor guardado pelo PL supera esse limite. Em termos práticos, o diretório nacional do PL arrecadou R$ 257 milhões e conseguiu reter em caixa R$ 102,8 milhões.
O uso das fundações partidárias
A estratégia de acumulação de capital do PL envolveu uma reversão contábil legalizada. Pela legislação vigente, as siglas são obrigadas a direcionar 20% do Fundo Partidário para seus respectivos institutos de pesquisa e educação política. Contudo, uma brecha autorizada permite que os saldos não utilizados por essas fundações retornem ao caixa geral da legenda no ano subsequente para outras finalidades.
- Retorno ao caixa: O PL destinou R$ 41,7 milhões ao Instituto Álvaro Valle, mas reverteu 75% deste valor (R$ 31,4 milhões) para a conta eleitoral em janeiro.
- Histórico de repasses: Outras siglas usaram o mesmo mecanismo, mas em menor escala: o PSDB retornou R$ 3,1 milhões e o PCdoB restituiu R$ 307 mil.
Centrão adota poupança eleitoral como efeito multiplicador
A tática de reter verbas para o período de votação foi compartilhada por outras grandes siglas. O Republicanos — partido ligado ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta — obteve uma receita de R$ 110 milhões e guardou R$ 52 milhões. O acréscimo eleva o orçamento de campanha da sigla em 15% além dos R$ 348 milhões estipulados via Fundo Eleitoral.
O deputado federal Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, justifica a condução financeira como um movimento cirúrgico:
“É uma estratégia para potencializar as candidaturas com mais recursos.”
O Progressistas (PP) seguiu idêntica cartilha ao economizar 46% de suas receitas ordinárias, garantindo uma injeção extra de R$ 40 milhões na estrutura de votação. O tesoureiro nacional do PP, deputado Ricardo Barros, explicou o modelo de negócios partidário:
“Nosso partido tem uma estrutura muito enxuta, justamente para a gente ter mais recursos para investir na campanha.”
Essa mecânica financeira funciona como um sistema que se retroalimenta. Quanto maior a verba investida, maior a probabilidade de eleger uma bancada expressiva de deputados federais e senadores. Como a repartição das fatias oficiais do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral é calculada de forma proporcional ao tamanho das bancadas eleitas, as economias presentes garantem o domínio financeiro futuro.
Contraponto: PT foca em captação e capilaridade regional
Do lado oposto à blindagem financeira do PL, o PT registrou despesas de R$ 182 milhões frente a uma receita total de R$ 181,3 milhões. Para a corrida presidencial, a cúpula petista prevê aplicar R$ 126 milhões na campanha de reeleição de Lula, buscando atingir o teto legal permitido por meio de doações privadas e financiamento coletivo.
Em posicionamento oficial via nota jurídica, a Executiva Nacional do PT esclareceu que o perfil de gastos priorizou a descentralização:
“O PT chegou ao processo eleitoral com a segunda maior fatia do fundo eleitoral e com uma estrutura partidária organizada em todo o território nacional, construída justamente pela aplicação continuada de seus recursos em formação, mobilização e atividade política.”
A sigla complementou informando que metade de suas receitas anuais foi descentralizada para os diretórios estaduais, municipais e para a Fundação Perseu Abramo, sustentando que o financiamento global das candidaturas do partido está plenamente assegurado.