Comunidade cigana em Portugal reage ao avanço da ultradireita
A comunidade cigana em Portugal mobiliza-se contra discursos de ódio da extrema-direita e busca obter maior representação política e social
- Publicado: 11/07/2026 08:17
- Alterado: 11/07/2026 08:17
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: FolhaPress
A celebração do Dia Nacional da Pessoa Cigana no bairro de Padre Cruz, em Lisboa, em Portugal, evidenciou tanto a riqueza cultural quanto a resistência política desse grupo. Com sua fusão de música luso-flamenca, rumba e pop, o DJ Jorge Syllvah foi a principal atração do evento. O artista é um ícone em seu nicho musical e soma 52 mil seguidores no YouTube, número expressivo e muito próximo da estimativa total dessa população no país lusitano.
“Em Portugal não é fácil ser cigano, há muito racismo e preconceito”, diz Syllvah. “A música, uma linguagem universal, é um jeito de nos integrar à sociedade.”
Antes do DJ, a bailarina e professora Claudia Pargana apresentou-se no mesmo palco. Ela leciona música e dança cigana em cinco escolas da rede pública de Lisboa, reforçando a identidade cultural desde a infância.
O impacto do discurso de ódio e a segregação
A comunidade cigana em Portugal enfrenta um cenário desafiador desde o surgimento do partido de ultradireita Chega, em 2019. O líder da legenda, André Ventura, elegeu o grupo como alvo de discursos xenófobos que geram engajamento nas redes sociais. Ventura utiliza frequentemente o termo “subsidiodependência” para acusar falsamente os povos ciganos de viverem à custa do Estado e de obterem privilégios em habitações populares.
De acordo com Bruno Oliveira, líder da Associação Intercultural Cigana, o preconceito saiu do armário e a discriminação é sentida tanto na internet quanto em espaços públicos, como restaurantes. A ativista e atriz Maria Gil corrobora a percepção de exclusão social e aponta a perda de espaço urbano nas últimas décadas.
“O que ocorreu, na verdade, é que fomos expulsos do centro para a periferia das cidades”, afirma Maria Gil. “Meus avós viviam na região central da cidade do Porto e eram integrados e respeitados no bairro. Hoje muitos de nós vivem confinados em guetos”.
Organização democrática e vitórias na Justiça
A pressão política exercida pela extrema-direita estimulou a união e o fortalecimento institucional das comunidades. A socióloga Maria Manuela Mendes, pesquisadora na Universidade de Lisboa, aponta a existência de duas a três dezenas de associações ciganas ativas atualmente em Portugal.
Essas organizações conquistaram uma vitória jurídica expressiva recentemente. A Justiça determinou que o Chega retirasse cartazes de campanha presidencial que exibiam a foto de André Ventura com a frase “os ciganos têm que cumprir a lei”. A juíza Ana Barão sustentou que a mensagem foi desenhada para estigmatizar um grupo social específico.
Em entrevista ao jornal Diário de Notícias, de Portugal,, o advogado Ricardo Sá Fernandes, representante das associações no processo, celebrou o caráter pedagógico da sentença:
“Espero que ninguém mais afixe cartazes discriminatórios e vexatórios para qualquer comunidade, como exige a defesa da dignidade de todos.”