PF diz que Vorcaro sabia de operação e planejou deixar o país
Relatório aponta que ex-dono do Banco Master tinha informações sobre a operação e organizou viagem ao exterior na véspera da prisão
- Publicado: 11/09/2026 08:06
- Alterado: 11/09/2026 08:06
- Autor: Thiago Antunes
O documento da Polícia Federal, que teve o sigilo retirado pelo Supremo Tribunal Federal, aponta que Vorcaro planejou deixar o país nas vésperas da Operação Compliance Zero. O empresário obteve detalhes antecipados da ação policial e organizou uma rota rumo aos Emirados Árabes na noite anterior à expedição dos mandados.
A decisão de expor os inquéritos partiu do ministro André Mendonça, atendendo a uma solicitação emergencial do presidente da Corte, Edson Fachin. O material desclassificado forma a espinha dorsal das investigações vinculadas ao suposto esquema instaurado no Banco Master.
Passos que antecederam a prisão do ex-banqueiro

A corporação estruturou um panorama temporal mapeando as condutas do empresário em novembro de 2025. A análise técnica evidencia um esforço logístico ostensivo para blindar o comando da instituição financeira e antecipar bloqueios ordenados pela Justiça.
Segundo os investigadores, Vorcaro cooptou agentes públicos e demonstrou extremo interesse nas medidas cautelares da 10ª Vara Federal de Brasília. O inquérito cita o repasse de vantagens financeiras para garantir a subordinação e lealdade de servidores do Banco Central.
Cronologia dos fatos apontados pela investigação
O relatório expõe a vigilância clandestina sobre magistrados e a manipulação de notícias financeiras envolvendo a venda de ativos para o Grupo Fictor. Os policiais federais documentaram os seguintes eventos:
- 21 de outubro de 2025: O alvo registra em seu celular nomes de policiais federais presentes em uma reunião sigilosa do órgão regulador.
- 16 de novembro de 2025: Anotações digitais revelam questionamentos sobre o nível de proximidade de terceiros com o juiz Ricardo Soares Leite.
- 17 de novembro de 2025 (Manhã): O investigado recebe alertas urgentes do advogado Walfrido Warde e, na sequência, reserva um voo saindo do aeroporto de Congonhas.
- 17 de novembro de 2025 (Tarde): Ocorre a troca de links de reportagens com o jornalista Diego Escosteguy. Simultaneamente, a defesa protocola uma petição exigindo acesso aos autos.
- 17 de novembro de 2025 (Noite): Equipes táticas interceptam o alvo no aeroporto de Guarulhos, momentos antes do embarque em um jato executivo particular.
“Conclui-se pela existência de fortes elementos indicativos de condutas direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa”, destacou o documento da Polícia Federal.
Diálogos com autoridades e desdobramentos judiciais
O conjunto de provas traz registros sobre o contato direto do empresário com integrantes da cúpula do Judiciário. A quebra de sigilo telemático mostrou que Vorcaro enviou mensagens ao ministro Alexandre de Moraes indagando abertamente sobre o cronograma da operação policial.
Uma mensagem enviada em 15 de novembro de 2025 indagava o magistrado sobre a necessidade de estar fora do Brasil na segunda-feira. Quarenta e oito horas após essa comunicação telefônica, as equipes policiais executaram a ordem de prisão.
A liberdade provisória ocorreu cerca de 10 dias após a primeira detenção, concedida pela presidência do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. A soltura utilizou como base argumentativa o resultado das reuniões virtuais forçadas pelo próprio empresário com os diretores da autarquia federal.
Os investigadores utilizaram essa documentação processual para fundamentar um novo pedido de prisão preventiva assinado em 27 de fevereiro de 2026. O cruzamento das mensagens atestou a infiltração da organização criminosa em estruturas públicas e privadas, resultando no retorno de Vorcaro ao sistema prisional em março daquele mesmo ano.