A pandemia silenciosa dos acidentes e o desafio de reconquistar a segurança no trânsito

O uso crescente de tecnologias conectadas e o avanço do transporte individual agravam um cenário já crítico, exigindo respostas urgentes de gestão pública e engenharia urbana

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Os dados da plataforma Infosiga, atualizados mensalmente, revelam a real dimensão dos desafios que enfrentamos para reduzir acidentes e mortes no trânsito das cidades paulistas. Trata-se de uma crise silenciosa, mas que ceifa vidas todos os dias.

Conectividade e distração: um novo comportamento nas ruas

Vivemos uma transformação de comportamento social. Em 2007, quando Steve Jobs apresentou ao mundo o primeiro iPhone, muitos aplaudiram, mas poucos compreendiam o impacto real daquele aparelho na palma da mão. Hoje, ele redefine nossos hábitos, inclusive a forma como nos deslocamos.

Estamos conectados 24 horas por dia. Informação, trabalho, entretenimento e distrações diversas estão a um toque de distância. E as montadoras entenderam isso: a conectividade se tornou um dos maiores argumentos de venda dos veículos modernos. Entretanto, essa hiperconexão fragmentou nossa atenção, inclusive no trânsito.

A ascensão do transporte individual

A mais recente Pesquisa Origem-Destino do Metrô mostrou que, na cidade de São Paulo e região metropolitana, o transporte individual motorizado superou o coletivo. Embora este dado seja regional, ele reflete um comportamento que se estende a outros municípios.

O metrô manteve sua demanda, mas os ônibus perderam espaço para os aplicativos de transporte, tanto por automóveis quanto por motocicletas. Soma-se a isso o fato de que até motocicletas, antes sem suporte para celulares, hoje são adaptadas para uso constante do smartphone, elemento chave em serviços de entrega e mobilidade urbana.

Uma combinação perigosa

O cenário é explosivo: crescimento acelerado do transporte individual motorizado e uso intensivo de aparelhos conectados durante os deslocamentos. A atenção no trânsito foi substituída por notificações e telas.

Acidentes de Trânsito - Segurança
Rovena Rosa/Agência Brasil

É o fim? Como reduzir os acidentes?

Não. Mas os desafios são imensos. Estamos colhendo os efeitos de uma expansão desordenada do transporte individual, sem margem, no curto e médio prazo, para reversão desse quadro. Se o transporte coletivo predominasse, já veríamos impactos positivos na redução de acidentes. No entanto, a tendência atual vai na direção oposta.

Soluções existem e passam pelos 3 Es

A engenharia de tráfego atua com três pilares fundamentais, conhecidos internacionalmente como os 3 Es: Engineering (Engenharia), Education (Educação) e Enforcement (Fiscalização).

Ações como, implantação de ruas calmas, com velocidade máxima de 40 km/h, calçadas mais largas para travessias mais curtas e seguras, faixas exclusivas para motociclistas, são exemplos de intervenções de infraestrutura que atuam no pilar da Engenharia.

Mas não basta. Precisamos de campanhas educativas consistentes, com foco em diferentes modais de transporte e fiscalização estratégica, integrada aos esforços anteriores, não aleatória. Só assim será possível romper com a rotina de tragédias que assolam nossas vias.

Veículos cada vez mais conectados, mas ainda não seguros

A grande questão é: por que os veículos evoluíram tanto em conectividade, mas a segurança não acompanhou o mesmo ritmo?

A tecnologia de Frenagem Automática de Emergência (AEB) existe desde 2003 e vem sendo aperfeiçoada para reconhecer objetos e frear automaticamente em situações de risco. Ainda assim, essa tecnologia não acompanha todos os veículos vendidos, muito embora a conectividade esteja presente até nos modelos mais básicos.

No Brasil, temos o ABS obrigatório desde 2014 e o controle de tração e estabilidade passou a ser exigido apenas no último ano. Enquanto isso, a AEB será obrigatória apenas a partir de 2029 nos Estados Unidos. Por aqui, ainda não há perspectiva concreta de regulamentação.

AEB salva vidas e precisa se tornar prioridade

Mesmo com limitações, como dificuldade em atuar à noite ou em detectar motocicletas, o AEB já demonstra alto potencial. Se conseguir reduzir 50% das colisões, já será uma conquista significativa para a preservação de vidas.

O problema é que, mesmo com uma futura obrigatoriedade, a renovação da frota no Brasil levará mais de uma década para surtir efeito no trânsito, se mantido o ritmo atual. E os acidentes continuarão acontecendo, especialmente se não houver ações urgentes em paralelo.

Perspectivas positivas: dias melhores virão

Apesar do cenário preocupante, há caminhos possíveis e já trilhados com sucesso em outros lugares do mundo.

Quando os três pilares: engenharia, educação e fiscalização, atuam de forma coordenada, os resultados aparecem. O avanço das tecnologias de segurança veicular, o incentivo a modais coletivos e sustentáveis e o fortalecimento de políticas públicas integradas podem mudar o curso dessa história.

Com vontade política, engajamento social e comprometimento técnico, é possível transformar o trânsito em um espaço mais seguro e humano.

Dias melhores certamente virão, com vias mais cuidadosas, vidas mais preservadas e uma mobilidade mais consciente. Basta saber quanto tempo levará.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 17/04/2025
  • Fonte: Sorria!,