Padre Júlio Lancelotti critica políticas excludentes para moradores de rua em Santos

Líder religioso não concordou com código de conduta na cidade, na qual não permite moradores de rua utilizarem transporte público.

Crédito: Gabriel de Jesus/ABCdoABC

Na noite da última segunda-feira (16/06) o padre Júlio Lancelotti esteve presente na Universidade Santa Cecília, em Santos-SP, onde participou do seminário regional Políticas Públicas para a População em Situação de Rua, promovido pelo Instituto Telma de Souza (PT). O evento teve como objetivo cobrar mais apoio do poder público em relação e apresentar projetos para população, que atualmente vie em condições de precariedade social.

O líder religoso, reconhecido por atuar, defende que haja trato humanizado e respeitoso com pessoas em situação de rua. Em seus discursos, padre Julio Lancelotti provoca os participantes a ter um olhar digno e sem preconceitos para uma população que de acordo com ele, além de viver em situação de abandono, isolamento e desamparo da sociedade, também sofre pela falta de perspectiva.

Padre Júlio Lancelotti emociona público com histórias inspiradoras

Padre Júlio Lancelotti participa de seminário em Santos-SP - Gabriel de Jesus/ABCdoABC
Padre Júlio Lancelotti participa de seminário em Santos-SP – Gabriel de Jesus/ABCdoABC

“Não é só doar o casaco, é agasalhar o olhar”, foi com esta fala que o padre Julio Lancelotti utilizou ao enfatizar que é possível perceber o sentimento de sofrimento de um morador de rua, somente no olhar. Ele relembra durante a pandemia, ele foi realizar doação de agasalhos, mas devido as estampas terem desenhos, ele acreditara que os mesmos não gostariam e devolveriam. Lancelotti concluiu relatando, que não apenas aceitaram, como percebia a emoção da população em situação de rua.

Padre Júlio Lancelotti critica Código de Condutas de Santos

Padre Júlio Lancelotti critica código de conduta em Santos  - Gabriel de Jesus/ABCdoABC
Padre Júlio Lancelotti critica código de conduta em Santos – Gabriel de Jesus/ABCdoABC

Ainda no evento, o eclesiástico criticou um dos itens que integram o Código de Condutas, implementado em Santos em 1968, na qual recebeu durante esta semana, 60 sugestões de mudanças pedidas pela população santista. Uma das sugestões da população foi proibir a entrada de pessoas em situação de rua no transporte público municipal. “Proibir moradores de rua de utilizar transporte público não é uma questão moral e higienista, é uma questão economica”, acentua Lancelotti.

PROGRAMA DE BRAÇOS ABERTOS

Em 2013, a prefeitura de Sâo Paulo lançou o programa “De Braços Abertos”, que consistia num plano sensorial de Políticas sobre Crack, Álcool e Outras Drogas. A iniciativa tinha como objetivo construir a rede de serviços para atendimento aos usuários; sob a
ótica da REDUÇÃO DE DANOS, pela oferta de moradia e emprego.

Além disso, Implantar ações intersetoriais e integradas nas áreas de assistência social, direitos humanos, saúde e trabalho e principalmente, fortalecer a rede social visando a inserção dessa população nas políticas públicas.

PROGRAMA REDUÇÃO DE DANOS

O que é o Programa de Redução de Danos? O Programa de Redução de Danos é uma diretriz internacional pautada pelos direitos humanos que une iniciativas ambulatoriais e clínicas da rede pública ou privada, com o objetivo de acolher e orientar o indivíduo que quer reduzir o uso de drogas, ou progredir para a abstinência.

Por ‘drogas’ consideram-se tanto as substâncias lícitas (álcool, tabaco e remédios prescritos), como as ilícitas (maconha, cocaína, crack, substâncias injetáveis, ou psicodélicas). A redução de danos também inclui conscientização e orientação para o sexo seguro, visando a redução da transmissão de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e AIDS.

Os primeiros relatos remontam a terapias de substituição de substâncias na Inglaterra (mais nocivas por menos nocivas à saúde), na década de 1920.Já Brasil, a primeira ação ficou marcada pela intervenção pública, em 1989, em Santos, um dos principais pontos de entrada e uso de drogas injetáveis naquela época

Programa Instituto Adesaf

Além da presença do padre Julio Lancelotti, representantes de projetos sociais que ajudam pessoas em situação de rua. Dentre eles, o Instituto Adesaf, na qual tem Fernanda Gouveia, como presidente. A Adesaf é uma organização da sociedade civil, com 24 anos de atuação. Durante a gestão de Fernando Haddad como prefeito de São Paulo, a instituição asssumiu a gestão do programa De Braços Abertos.

O Instituto Adesaf iniciou suas atividades na área da Saúde e ampliou sua atuação para Educação, Cultura, Cidadania, Assistência Social, Mundo do Trabalho e outras, tendo sempre como horizonte norteador a defesa de direitos e de liberdades individuais. Neste prisma, já atendeu a mais de 65 mil famílias desde a fundação.

O programa aplicou o bem-sucedido programa de redução de danos para pessoas em situação de rua na região da Estação da Luz, em São Paulo-SP.

Fernanda explica que um dos diferenciais do programa “De Braços Abertos”, era o fato de disponibilizar trabalho remunerado para população que estava em processo de recuperação. “Gerou uma polêmica em relação ao programa, pois diziam que davámos dinheiro para dinheiro”, iniciou . “O programa pagava bolsa mediante a prestação de um serviço, como jardinagem, cultura, entre outros”, complementa a explicação.

Líder do instituto, Fernanda Gouveia explica a complexidade que os modelos de assistência social são etapistas: “a pessoa tem que primeiro parar de usar droga, e aos poucos ir saindo e depois conquistar uma casa. Já o programa de redução de danos é baseado no conceito baixa exigência, onde a casa é o elemento principal”, esclarece.

Tratamento à base de maconha medicinal

Fernanda Gouveia, presidente do Instituto Adesaf e seu marido Marcio de Lima
Fernanda Gouveia, presidente do Instituto Adesaf e seu marido Marcio de Lima – Gabriel de Jesus/ABCdoABC

Fernanda Gouveia explica que o Adesaf trabalha com terapia à base de maconha medicinal. “Também é um elemento estabilizador na redução de danos”. Ela explica que a mudança pessoal e profissional parte de um acontecimento pessoal. Ela conta a história de seu marido, Márcio de Lima, assistente social no instituto, que foi morador de rua e usuário de drogas na cracolândia, mas que através do programa conseguiu modificar a vida de ambos.


Padre Júlio Lancelotti repudia falta de políticas públicas para pessoas trans e travestis

O padre voltou a criticar mais um dos itens apresentados na sugestão do Código de Condutas de Santos, sugeridos por moradores de Santos. Neste item foi sugerido “enquadrar como vadiagem, mulheres e ‘travestis’ que trabalharem com prostituição nas ruas e esquinas do município, com agravante de atentado ao pudor no caso de pessoas trans”.

O padre Julio Lancelotti defendeu o acolhimento específico para a população LGBTQIAP+, lamentando que atualmente as condições disponibilizadas às comunidades sejam niveladas por baixo.

A fala do líder católigo em coro à declaração de Priscylla Coutinho. Ela atua na Associação Donnas da Rua, primeiro coletivo na Baixada Santista dedicado a garantir os direitos do segmento LGBTQIAPN+, com foco nas pessoas trans e travestis. Coutinho critica a ausência de políticas públicas para a sua comunidade, em especialmente àquelas que se encontram em situação de desproteção social.

Movimento Nacional em Defesa da População em Situação de Rua (MNPR)

Ativista na luta pela inclusão social, além da garantia de políticas públicas, defesa da dignidade e direitos humanos, Laureci Dias relatou um triste histórico de abusos quando crianças, e que a partir deste e outros acontecimentos conheceu o álcool e as drogas. “Vivi 20 anos de uso abusivo de crack e cocaína, mas apesar disso tudo tenho sorte, porque minha família nã me abandonou”, pontua.

Laura em sua fala revela detalhes do ponto de vista de saúde mental acometido por pessoas usuárias de drogas

Empresária Eliane Dias traz reflexão sobre a percepção dos presentes no auditório

No seminário que padre Júlio Lancelotti participou, a advogada e empresaria Eliane Dias trouxe reflexão para o público - Gabriel de Jesus/ABCdoABC
No seminário que padre Júlio Lancelotti participou, a advogada e empresaria Eliane Dias trouxe reflexão para o público – Gabriel de Jesus/ABCdoABC

Com uma provocação que trouxe reflexão ao público que acompanhava o seminário, Eliane Dias, advogada e empresaria musical questionou o seguinte: “Por que vocês estão aqui? Preocupados com a situação da população de rua ou como se livrar deles?”, pergunta.

Eliane Dias é paulistana, mulher negra e feminista, casada com o rapper Mano Brown e mãe de dois filhos, sendo ela cofundadora e diretora executiva da produtora Boggie Naipe, que nasceu para empresariar o grupo de rap Racionais MC’s.

A empresária refletiu sobre o ponto de vista de saúde mental, relembrando do episódio em que ela foi acometida por uma depressão profunda, afastando-a de suas atividades durante um ano, devido a diversos problemas familiares. “Eu até hoje não gosto de andar descalço, tenho dificuldades para ir à praia. É um trauma”, revela Eliane.

Padre Julio Lancelotti critica política neoliberal e invoca que Brasil rompa relações com Israel

Lancelotti crítico contudente de política neoliberal, ele considera que o “sistema capitalista neoliberal é iniquo, perverso e assassino”, define o religoso. Em seguida, ele disse que no sistema capitalista, a população em situação de rua é descartada, indisponibilizando recursos para que aqueles que vivem às mazelas da sociedade não tenham saída.

O padre também pediu o rompimento da relação do Brasil com Israel e invocou gritos de “Palestina Livre”

ENTREVISTA HELENA FERREIRA – REDUÇÃO DE DANOS

Helena Ferreira, que faz parte do projeto redução de danos, concedeu uma entrevista exclusiva ao portal ABCdoABC, e nos contou qual é o principal desafio para a população em situação de rua:

Helena Ferreira, participando do seminário que teve participação do padre Júlio Lancelotti - Gabriel de Jesus/ABCdoABC
Helena Ferreira, participando do seminário que teve participação do padre Júlio Lancelotti – Gabriel de Jesus/ABCdoABC

ENTREVISTA TONINHO SALGADO – VICE-PRFEITO DE GUARUJÁ

Em entrevista exclusiva ao portal ABCdoABC, o vice-prefeito de Guarujá, Toninho Salgado explicou como está o monitoramento da cidade guarujaense em relação à pessoas em situação de rua e quais programas o município oferece:

ENTREVISTA TELMA DE SOUZA – EX-PREFEITA DE SANTOS e líder do INSTITUTO TELMA DE SOUZA

Telma de Souza ao lado do padre Júlio Lancelotti no seminário - Gabriel de Jesus/ABCdoABC
Telma de Souza ao lado do padre Júlio Lancelotti no seminário – Gabriel de Jesus/ABCdoABC

Telma de Souza, ex-prefeita de Santos (1989-1992), é a líder do Instituto Telma de Souza, responsável pela realização do seminário. Questionei à ela sobre o aumento de moradores de rua na cidade de Santos e quais políticas públicas poderiam ser adotadas na entrevista:

Padre Júlio Lancelotti tirou foto com o público presente

Durante a tarde da última segunda (17/06), o padre Julio Lancelotti esteve na livraria Realejo, no Gonzaga, em Santos-SP, para autografar o livro “Tinha uma pedra no meio do caminho”, obra escrita em parceria com o professor Álvaro de Azevedo Gonzaga e registra os 36 anos de atuação do padre Júlio Lancellotti junto à população em situação de rua em São Paulo.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 17/06/2025
  • Fonte: Sorria!,