O que ensinamos ao falar de cultura afro-brasileira?
Entre ancestralidade, liberdade religiosa e combate ao apagamento, a educação amplia repertórios ao reconhecer a presença negra na formação do Brasil
- Publicado: 19/08/2026 18:43
- Alterado: 19/08/2026 18:43
- Autor: Kiusam Oliveira
Ao longo de minha caminhada como pedagoga, escritora e pesquisadora, aprendi que as crianças não chegam ao mundo com medo daquilo que desconhecem. Elas perguntam, escutam, imaginam. Muitas vezes, é o adulto quem chega antes delas com o preconceito. Por isso, quando falamos do ensino da cultura afro-brasileira, talvez a pergunta mais urgente seja: o que ainda precisamos desaprender para que nossas crianças possam aprender?
No artigo anterior, refletimos sobre o desenho de uma criança que retratou Iansã durante uma atividade escolar. O debate revelou algo que conheço há décadas: a tentativa de transformar conhecimento sobre culturas negras em ameaça religiosa. Quando uma criança negra desenha uma divindade africana, muitas vezes o que se questiona não é o desenho, mas a possibilidade de uma referência negra ocupar o espaço escolar.
Conhecimento não é profissão de fé

Quando uma escola apresenta a mitologia grega, a arte renascentista, os povos indígenas ou as narrativas bíblicas em seus contextos históricos e literários, ninguém precisa concluir que está sendo convertido a uma religião. Com as referências africanas e afro-brasileiras deve acontecer o mesmo. Conhecer Iansã, Oxum, Oxóssi e outros orixás é conhecer histórias e modos de compreender a existência que ajudaram a constituir o Brasil.
É nesse lugar que encontro a força da Pedagogia Ecoancestral: uma pedagogia que reconhece ancestralidade como presença, memória, tecnologia de vida e possibilidade de futuro. Uma forma de acolher-ouvir-aprender-trocar-compartilhar, entendendo crianças e jovens como sujeitos de conhecimento.
Minha Literatura Negro-brasileira do Encantamento Infantil e Juvenil nasce desse mesmo chão. Quando escrevo, não quero apenas ensinar uma criança negra a sobreviver ao racismo. Quero que ela tenha direito ao encantamento, à beleza, à invenção, à ancestralidade e à alegria. Quero que encontre personagens negras no centro de uma narrativa e perceba que nossas existências também podem ser celebradas.
A lei contra o apagamento histórico

Por isso, a Lei nº 10.639/2003 não é uma autorização para falar de África e cultura afro-brasileira. É uma conquista histórica diante de um currículo que durante muito tempo ensinou o Brasil sem ensinar a presença negra como produtora de conhecimento, cultura e humanidade. Cumprir essa lei é enfrentar o apagamento e devolver às crianças uma parte do mundo que lhes foi negada.
Existe uma diferença profunda entre conhecer e professar. Conhecer amplia a consciência. Professar pertence à liberdade de cada pessoa. A escola deve garantir o direito ao conhecimento; a crença pertence às famílias e aos indivíduos. É justamente porque defendo a liberdade religiosa que defendo uma educação que não esconda as culturas negras.
Negar esse conhecimento em nome da liberdade produz o contrário da liberdade. É decidir que algumas crianças podem conhecer suas referências e outras devem aprender apenas aquilo que a tradição dominante considera legítimo. Isso não é neutralidade. É escolha. E toda escolha curricular revela quem consideramos digno de memória.
Pluralidade como compromisso da educação
A ancestralidade africana não está em um capítulo à parte da história brasileira. Ela pulsa na língua, na música, na dança, na culinária, na literatura, na estética e nas formas de produzir vida. Quando confundimos cultura com catequese, empobrecemos a escola e reforçamos uma lógica colonial que determina quais conhecimentos podem ser chamados de conhecimento.
Quando abrimos espaço para a pluralidade, nossas crianças reconhecem o mundo — e a si mesmas. Conhecer não fere ninguém. O apagamento ameaça a democracia. Conhecer a diversidade amplia repertórios para a liberdade. Esse é o compromisso da educação: formar pessoas capazes de escolher seus caminhos sem negar a existência, a memória e a humanidade do outro.
Kiusam Oliveira

Kiusam Oliveira é escritora, Doutora em Educação pela USP, pedagoga, pesquisadora e fundadora da Editora Osìbatá. Natural de Santo André (SP), dedicou 38 anos à educação pública, com atuação destacada na Educação Especial, na gestão educacional e na implementação de políticas de educação antirracista, incluindo a aplicação da Lei 10.639/03. Premiada por sua produção literária, é colunista do caderno Território do Saber, do ABCdoABC, onde aborda temas relacionados à educação, cultura, literatura e relações étnico-raciais.