Negros escravizados foram enviados à guerra para poupar senhores de alistamento

Documento inédito revela estratégia de fazendeiros do século 19 para escapar do conflito na Cisplatina

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Um manuscrito histórico, recém-encontrado no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, revela um capítulo obscuro da história brasileira: a substituição de senhores e seus parentes por escravizados nas fileiras da Guerra da Cisplatina (1825-1828).

O documento mostra que proprietários de terras da Vila de Cachoeira enviaram cativos e libertos para lutar no lugar deles, solicitando isenção do alistamento militar obrigatório.

No abaixo-assinado, os fazendeiros alegavam já ter contribuído significativamente com o esforço de guerra ao equipar seus escravizados e libertos com armas, vestimentas e cavalos. Eles pediam, então, que fossem poupados do combate para continuar “no laborioso trabalho” e protegendo suas famílias.

O texto deixa evidente o uso estratégico da população negra como escudo humano em conflitos que nada tinham a ver com seus próprios interesses.

A prática comum da substituição nas guerras do século 19

A substituição de senhores por escravizados nas guerras não era uma exceção. Segundo historiadores, o ato de pagar para que outro — geralmente um cativo — assumisse o lugar de um cidadão branco no campo de batalha era uma prática institucionalizada desde o período colonial. No século 19, essa dinâmica se intensificou.

O historiador Jurandir Malerba aponta que esse expediente foi usado inclusive em outros conflitos posteriores, como a Guerra do Paraguai (1864-1870). No sul do Brasil, a disponibilidade de escravizados era ainda maior por conta da alta demanda de mão de obra para a produção de charque, o que tornava a substituição uma saída fácil para os senhores se esquivarem da guerra.

Cativos em busca de liberdade: da Cisplatina à Revolução Farroupilha

Nem todos os negros enviados à guerra o foram à força. Muitos escravizados aproveitavam o caos dos conflitos para fugir em busca da liberdade. Durante a Guerra da Cisplatina, soldados do lado inimigo, liderados por José Gervasio Artigas, recrutavam escravizados oferecendo alforria em troca do serviço militar.

A bravura dos negros fugidos também foi registrada por viajantes estrangeiros, como Augustin de Saint-Hilaire, que destacou sua coragem ao lutarem por uma causa que representava a própria liberdade.

Essa presença negra nos campos de batalha reapareceria na Revolução Farroupilha (1835-1845), onde os soldados negros formavam a maioria das tropas dos rebeldes e acabariam, tragicamente, massacrados no episódio de Porongos.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 21/04/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo