Expansão do Hidrogênio Verde esbarra em gargalos na transmissão de energia
Setor acumula investimentos bilionários, mas encontra entraves na rede elétrica brasileira
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 21/04/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Promissor como alternativa sustentável na transição energética e vetor estratégico para atração de investimentos, o hidrogênio verde tem ganhado destaque no Brasil. No entanto, apesar do potencial e do interesse de investidores, o avanço dos projetos enfrenta um grande obstáculo: a limitada capacidade da atual infraestrutura de transmissão de energia do país.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão responsável pela gestão da malha de transmissão, rejeitou recentemente os oito primeiros pedidos de conexão à rede feitos por usinas de hidrogênio.
A justificativa foi clara: não há, no momento, margem segura para integrar projetos de tamanho porte. Cada empreendimento demanda em média 1,5 gigawatt (GW) de potência — volume comparável à produção da usina nuclear Angra 2.
Investimentos paralisados e pressão regional
Segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), cerca de R$ 188 bilhões em investimentos estão condicionados à viabilização desses projetos.
A morosidade no reforço da rede elétrica preocupa líderes políticos e empresários, principalmente no Nordeste, região que concentra a maioria dos empreendimentos planejados, por estar próxima a polos de geração eólica e solar.
Governadores nordestinos, como Elmano de Freitas (Ceará), têm cobrado mais celeridade do governo federal. “É inaceitável que tenhamos investidores prontos para aplicar recursos e não consigamos garantir a infraestrutura básica para recebê-los”, afirmou o governador em evento recente.
O apelo também vem de representantes do setor produtivo. Fernanda Delgado, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde (ABIHV), alerta para o risco de fuga de investimentos internacionais: “Sem uma resposta rápida, outros países podem sair na frente e atrair esses recursos”.
Perspectivas e ações governamentais
Diante da pressão crescente, o governo encomendou à Empresa de Pesquisa Energética (EPE) um estudo detalhado para definir a expansão necessária da rede elétrica. A expectativa é que o levantamento oriente futuros leilões de novas linhas e medidas de proteção ao sistema. No entanto, os prazos estimados para conclusão das obras são considerados longos — soluções mais robustas só estariam disponíveis a partir de 2032.
A lentidão preocupa ainda mais diante da janela limitada para a concessão de benefícios fiscais. A legislação atual prevê cerca de R$ 18 bilhões em incentivos tributários, mas os créditos só estarão disponíveis entre 2028 e 2032. Se os projetos não estiverem conectados à rede a tempo, correm o risco de perder esse apoio.
Por enquanto, dos nove pedidos feitos ao ONS, apenas um segue em análise. Os demais foram reencaminhados à fila após mudanças nas regras de outorga. Enquanto isso, o país assiste à possibilidade de liderar o mercado global de hidrogênio verde esbarrar em desafios estruturais internos.