Navio científico naufraga em Santos após anos de abandono

Navio Professor W. Besnard ficou mais de 15 anos inativo; furtos e falhas estruturais levaram ao adernamento no cais do Parque Valongo

Crédito: (Gabriel de Jesus/ABCdoABC)

Professor W. Besnard, embarcação histórica que ajudou a colocar o Brasil no mapa da pesquisa antártica, sofreu um naufrágio parcial no cais do Parque Valongo, em Santos, após um longo período de abandono, desgaste estrutural e vulnerabilidade.

Quatro dias depois do adernamento registrado na noite da última sexta-feira (13/08), o cenário já é tratado por autoridades como o desfecho de uma sequência de falhas acumuladas. Apesar do susto, o incidente não deixou vítimas nem provocou poluição no estuário, mas escancarou um problema maior: o abandono de um patrimônio científico.

Causas do incidente: quando o abandono vira risco

Isolamento do local onde o Navio Professor W. Besnard está afundado
Isolamento do local onde o navio Professor W. Besnard está afundado (Gabriel de Jesus/ABCdoABC)

Mais do que o tempo, foi a ação humana que acelerou o destino do navio Professor W. Besnard. O furto de cabos elétricos e equipamentos essenciais comprometeu diretamente a capacidade de sobrevivência da embarcação.

Sem energia, as bombas de escoamento — responsáveis por retirar a água que entra naturalmente no casco — deixaram de funcionar. A partir daí, o processo foi silencioso e inevitável: água da chuva e infiltrações começaram a se acumular.

Com o aumento do peso, o navio foi perdendo estabilidade até inclinar. Esse movimento abriu caminho para que a água invadisse ainda mais rapidamente pelas partes inferiores, especialmente pelas escotilhas abertas. O resultado foi um tombamento repentino, típico de estruturas já fragilizadas.

O que se viu, na prática, foi um efeito dominó: abandono, furto, falha estrutural e, por fim, o colapso.

Investigação e plano de resgate entram em cena

Isolamento do local onde o Navio Professor W. Besnard está afundado
Isolamento do local onde o navio Professor W. Besnard está afundado (Gabriel de Jesus/ABCdoABC)

Agora, o foco se divide entre entender responsabilidades e tentar salvar o que ainda resta. A Marinha do Brasil abriu um inquérito para investigar as causas e possíveis negligências no caso.

Enquanto isso, o navio segue estabilizado no leito do estuário, preso por amarrações reforçadas para evitar um agravamento da situação.

A prioridade, segundo a Autoridade Portuária de Santos, é o içamento da embarcação. Existe a intenção de recuperar o navio com apoio da iniciativa privada. Caso isso não seja possível, ao menos parte da estrutura deve ser preservada como memória histórica no próprio Parque Valongo.

Uma história que começou longe — e foi gigante

Antes de virar notícia pelo naufrágio, o Professor W. Besnard teve uma trajetória de peso:

  • Construído em 1966, na Noruega
  • Chegou ao Brasil em 1967
  • Realizou 6 expedições à Antártica
  • Operou por mais de 40 anos
  • Está inativo desde 2008, após um incêndio

Durante décadas, foi peça-chave no desenvolvimento da oceanografia brasileira e nas missões do Programa Antártico.

O legado científico agora está em jogo

O naufrágio parcial do Professor W. Besnard vai além de um acidente marítimo — ele simboliza uma perda que pode ser irreversível.

Batizado em homenagem a Wladimir Besnard, referência da oceanografia no país, o navio foi essencial para pesquisas que ajudaram a entender melhor os oceanos e o clima.

Hoje, especialistas tratam o caso com um tom quase unânime: não foi surpresa. Foi consequência.

Entre a possibilidade de restauração e o risco de virar sucata, o futuro da embarcação ainda está indefinido. Mas uma coisa já é certa:  o episódio acende um alerta sobre como o Brasil cuida (ou deixa de cuidar) da sua própria história científica.

  • Publicado: 17/03/2026 17:18
  • Alterado: 17/03/2026 18:25
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: ABCdoABC