Quando o Natal exclui: a solidão das famílias que têm filhos com deficiência
Datas associadas à união ainda revelam isolamento, constrangimento e rejeição vividos por crianças e adultos com deficiência dentro do próprio círculo afetivo
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 25/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro Liberdade
O Natal costuma ser apresentado como um tempo de encontro, acolhimento e pertencimento. Na prática, porém, para muitas famílias que convivem com a deficiência, o período de festas revela uma realidade menos celebrada e raramente discutida. Em vez de ceias compartilhadas, os convites são evitados, os ambientes hostis e silêncios que dizem muito e, comunicam rejeição. Para mães atípicas, o fim de ano deixa de representar celebração e passa a ser mais um momento de exposição emocional.
Esse contraste entre o discurso da união e a vivência real aprofunda sentimentos de isolamento. A data que deveria simbolizar afeto acaba funcionando como um espelho das exclusões que atravessam o cotidiano dessas famílias, mas que ganham força justamente quando a expectativa social é de pertencimento absoluto.
A exclusão que começa dentro de casa
Esse processo de exclusão, embora frequentemente associado ao espaço público, muitas vezes começa dentro de casa. Para o defensor público federal André Naves, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, a convivência familiar ainda carrega práticas profundamente capacitistas, mesmo quando não intencionais. “A deficiência segue sendo tratada como incômodo ou exceção. Em muitas famílias, a criança é afastada do convívio para ‘não atrapalhar’, o que gera sofrimento emocional e reforça a ideia de que ela não pertence àquele espaço”, afirma.

Segundo Naves, a exclusão cotidiana de pessoas com deficiência e, de suas famílias, sustenta uma cultura que normaliza o afastamento e transforma o diferente em algo a ser tolerado apenas à distância. “O Natal deveria ser um momento de pertencimento. Quando uma criança com deficiência não é acolhida, perde-se o sentido da celebração e se reafirma, ainda que de forma silenciosa, que ela não faz parte daquele ambiente”, aponta.
“O olhar diferente a gente sente”

Moradora de Ribeirão Pires, Euza Pereira teve que aprender a lidar com o Natal como sendo “apenas mais um dia qualquer”. Mãe de Carolina, uma mulher de 26 anos com paralisia cerebral e autismo, ela relata que a decisão não nasce da indiferença, mas da necessidade de se proteger emocionalmente. Ao longo dos anos, a convivência com parte da própria família tornou-se fonte de desconforto, dor e constrangimento.
Para Euza, a exclusão não é abstrata nem pontual. Ela se manifesta em gestos, falas e, sobretudo, na maneira como sua filha é tratada, ou ignorada, em ambientes que deveriam ser de afeto. “Eu me sinto muito desconfortável perto de pessoas da minha própria família, a maioria evita minha filha. Já senti desprezo, olhar diferente. Isso infelizmente não é coisa da minha cabeça. Eu sinto”, relata.
O medo de reviver essas situações transformou encontros familiares em verdadeiros territórios de tensão e o afastamento tornou-se concreto e definitivo. “Há parentes que eu jamais pisaria na casa novamente, porque minha filha já foi maltratada, isso não é algo que eu consiga esquecer ou fingir que não aconteceu”, afirma.
Entre as marcas mais profundas, Euza aponta o olhar. “Algumas pessoas direcionam o olhar de nojo. Outras demonstram medo, como se minha filha fosse uma fera, um ‘bicho’ de outro mundo.” Segundo ela, são reações silenciosas, mas carregadas de significado e, que reforçam a sensação de rejeição e inferiorização.

Essas experiências traumáticas, não se limitam ao Natal, na verdade, são cotidianas em qualquer evento que inclua sociabilização para mães que tenham filhos com deficiência. “Essa semana mesmo eu lembrei do aniversário de uma parente. Eu calculei a distância, fui até lá, e quando cheguei ouvi que minha filha não podia chegar perto da criança que estava fazendo aniversário. Ela foi tratada como nada. Eu choro toda vez que me lembro disso.” desabafou.
Diante desse histórico, a escolha de Euza foi reduzir o seu círculo de contatos para preservar a própria saúde emocional e a dignidade da filha. “A minha única opção foi o isolamento. Eu não vou colocar minha filha em situações vexatórias, nem me forçar a estar em lugares onde eu sei que ela não é bem-vinda”, finaliza.
O peso que recai sobre quem cuida
Além do impacto direto sobre crianças e adultos com deficiência, a exclusão atinge de forma silenciosa pais e responsáveis. O fim de ano, caracteristicamente marcado por encontros prolongados e expectativas sociais idealizadas, amplia a sobrecarga física e emocional de quem já vive uma rotina contínua de cuidado. Quando falta acolhimento, o cansaço se acumula e a solidão deixa de ser exceção para se tornar regra, inclusive dentro do próprio núcleo familiar.
Para André Naves, romper esse ciclo não depende de grandes estruturas, mas de escolhas cotidianas. “Incluir pessoas com deficiência e suas famílias não exige grandes investimentos, mas informação, diálogo e disposição para conviver com a diversidade humana. O primeiro passo para uma sociedade inclusiva começa dentro de casa”, afirma. Segundo ele, enquanto o discurso público avança, é no ambiente privado que a exclusão ainda se reproduz sem questionamento e, é exatamente ali que ela precisa ser enfrentada.