Mortes por calor extremo vão mais que dobrar na América Latina, diz estudo
Estudo com participação da USP e UFMG projeta um aumento alarmante de óbitos ligados às altas temperaturas.
- Publicado: 17/02/2026
- Alterado: 15/10/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Serginho Lacerda
Um novo e abrangente estudo do projeto Salurbal-Clima, publicado na revista Environment International, revela um futuro preocupante para a saúde pública na América Latina. As projeções indicam que o número de mortes por calor extremo na região irá mais do que dobrar nas próximas décadas. A proporção de óbitos atribuídos às altas temperaturas saltará de 0,87% para 2,06% do total entre 2045 e 2054.
A pesquisa é fruto de uma colaboração robusta entre instituições de nove países, incluindo a Universidade de São Paulo (USP) и a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O trabalho analisou dados de 326 cidades para entender como a crise climática impactará diretamente a vida da população.
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O Panorama da Pesquisa em 326 Cidades
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores cruzaram dados de mortalidade e projeções climáticas de cidades na Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, México, Panamá e Peru. A escolha por centros urbanos com mais de 100 mil habitantes foi estratégica, como explica o professor Nelson Gouveia, da Faculdade de Medicina da USP.
“Cidades menores apresentam desafios estatísticos devido ao menor número de eventos de morte e calor“, afirmou Gouveia. Essa metodologia permitiu criar um modelo preditivo robusto sobre o avanço das mortes por calor extremo em cenários urbanos.
Projeções Futuras e o Impacto do Aquecimento Global
O estudo considerou dois cenários de emissões de gases de efeito estufa e concluiu que, mesmo na previsão mais otimista, a mortalidade associada ao calor dobrará. Isso demonstra a gravidade da situação e a urgência de ações mitigatórias para evitar um número ainda maior de mortes por calor extremo.
“Estimativas indicam que cada aumento de grau na temperatura tem um impacto direto na saúde da população. Usamos dados do IPCC para prever como as temperaturas poderão evoluir até 2050″, destacou Gouveia. O envelhecimento da população é outro fator que agrava o cenário, tornando os idosos ainda mais suscetíveis.

Vulnerabilidade e Injustiça Climática nas Metrópoles
No Brasil, 152 cidades foram analisadas, incluindo metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Os dados do DataSUS e do IBGE foram essenciais para a análise nacional. Embora sem detalhar por cidade, o estudo aponta que as áreas urbanas densamente povoadas e periféricas enfrentarão os maiores riscos.
As populações mais vulneráveis, com acesso limitado a recursos como ar-condicionado e áreas verdes, serão as mais atingidas pelas ondas de calor. Este cenário evidencia um grave problema social. “A injustiça climática se torna evidente neste contexto”, ressaltou o professor. A falta de infraestrutura adequada pode acelerar a taxa de mortes por calor extremo nessas comunidades.
Agravamento de Doenças e a Urgência de Agir
O aumento das temperaturas eleva o risco de doenças cardiovasculares e outras complicações, afetando principalmente idosos e crianças. A prevenção de futuras mortes por calor extremo depende diretamente da capacidade global de frear o aquecimento do planeta.
O professor enfatizou a necessidade de uma ação imediata. “Quanto mais ações imediatas tomarmos para diminuir essas emissões e a dependência de combustíveis fósseis, menores serão os impactos climáticos futuros”. A mensagem é clara: mitigar as mudanças climáticas é fundamental para proteger vidas e evitar que o aumento de mortes por calor extremo se torne uma realidade ainda mais trágica.