Medo da violência muda hábitos de 72% das pessoas no Brasil
Datafolha aponta que insegurança afeta uso de celular e trajetos da maioria da população nacional
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 14/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
Uma nova pesquisa realizada pelo Datafolha evidencia um cenário preocupante: o medo da violência já transformou a rotina de 72% dos brasileiros. O levantamento, conduzido entre os dias 2 e 4 de dezembro, ouviu 2.002 pessoas acima de 16 anos em 113 municípios. Com margem de erro de dois pontos percentuais, o estudo confirma que a sensação de insegurança pública está ditando novas regras de comportamento na sociedade.
A mudança mais expressiva recai sobre a utilização de tecnologia em público. Segundo os dados, 56% dos entrevistados diminuíram o uso do celular em locais abertos nos últimos doze meses. Além disso, o medo da violência forçou adaptações logísticas: 36% dos cidadãos alteraram seus trajetos habituais para o trabalho ou escola como medida de proteção.
Impactos no comportamento e restrições pessoais
O estudo detalha que as restrições vão além do trajeto. Cerca de 31% dos brasileiros deixaram de usar joias ou acessórios ao sair de casa, e 27% abandonaram atividades que consideravam prazerosas.
A advogada Cecília Mello, especialista em direito penal e desembargadora aposentada do TRF-3, analisa que esses números provam que a insegurança deixou de ser uma percepção distante. Mello pontua:
“Antes havia uma percepção equivocada de que a violência era controlável e que certas pessoas estavam mais expostas a ela por falta de atenção. No entanto, a realidade atual demonstra que ninguém está imune à violência”.
O levantamento mostra que 26% da população evita sair de casa devido ao medo da violência. O recorte de gênero expõe uma desigualdade severa: 76% das mulheres relatam mudanças na rotina, contra 68% entre os homens. Elas também são a maioria (62%) entre os que pararam de usar celular nas ruas.
Diferenças regionais e percepção política
As alterações comportamentais causadas pelo medo da violência são mais intensas nas regiões metropolitanas, onde 80% dos moradores adotaram medidas preventivas, em comparação a 66% no interior. Nas áreas urbanas, 68% deixaram de usar o celular na rua, taxa que cai para 47% nas zonas rurais.
O problema é transversal e atinge todas as esferas políticas e etárias. A preocupação com a segurança afeta 70% dos eleitores de Lula e 76% dos eleitores de Bolsonaro. Entre os idosos acima de 60 anos, a taxa de preocupação sobe para 77%.
Atualmente, 16% dos brasileiros consideram a segurança o problema mais grave do país, ficando atrás apenas da saúde (20%). Dados reais corroboram essa percepção em locais específicos: na cidade de São Paulo, houve um aumento de 2,8% nos homicídios e 4,6% nos furtos nos primeiros dez meses de 2025.
Reflexos na qualidade de vida e socialização
Cláudio Beato, sociólogo da UFMG, alerta que o medo da violência deteriora a qualidade de vida e gera impactos econômicos. Beato argumenta:
“A falta de tranquilidade para sair à rua indica que estamos vivendo em um ambiente extremamente adverso”.
Como consequência desse medo da violência, observa-se uma tendência de consumo em ambientes fechados e a proliferação de condomínios que oferecem serviços internos. Isso reduz a convivência entre classes sociais e fomenta preconceitos. Beato finaliza explicando que o temor é moldado pela realidade das ruas, não apenas pelo crime organizado:
“Um simples ato como estar parado em um semáforo e presenciar um furto pode intensificar esse temor”.