Mauá inicia restauração histórica com investimento de R$ 4 milhões

Projeto marca resgate da única Casa Bandeirista do ABC paulista e deve ser finalizado até 2027

Crédito: Suzana Rezende / ABCdoABC

A cidade de Mauá deu início a uma das mais importantes obras de recuperação e restauração de patrimônio histórico. Com investimento de R$ 4 milhões, foi autorizada nesta segunda-feira (4) a restauração completa do Museu Barão de Mauá, uma das únicas Casas Bandeiristas remanescentes no Estado de São Paulo e a única existente na região do ABC.

A assinatura simbólica da ordem de serviço foi realizada no próprio imóvel, com a presença do prefeito Marcelo Oliveira, autoridades municipais, representantes da empresa responsável pela restauração e moradores da cidade. Os recursos foram viabilizados por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, em parceria com o Programa de Ação Cultural (ProAC Editais), do Governo do Estado.

O prédio, construído com a técnica de taipa de pilão, passará por intervenções cuidadosas até dezembro de 2027. A gestão da obra será realizada pela Engenho Cultural, empresa especializada em patrimônio histórico, e contará com uma equipe multidisciplinar de arquitetos, engenheiros e arqueólogos.

“Hoje é um dia muito especial para Mauá. Este museu guarda a nossa memória, e restaurá-lo é garantir que nossas crianças, jovens e futuras gerações tenham acesso à história da cidade em um espaço digno e preservado”, afirmou o prefeito Marcelo Oliveira, visivelmente emocionado durante o evento.

Obra vai preservar técnica construtiva de mais de 300 anos

Restauração museu barão de Mauá
Suzana Rezende / ABCdoABC

A restauração do Museu Barão de Mauá será feita com base na preservação dos elementos originais da construção, respeitando a técnica utilizada na época dos bandeirantes.

O telhado será reconstruído mantendo os pilares entalhados, o piso de tijolos será restaurado e as varandas reconfiguradas para refletir o estilo original da casa bandeirista. A área externa também será modernizada, com a instalação de banheiros acessíveis, palco para apresentações culturais e arquibancadas para receber o público em eventos educativos.

“Essa obra vai além de uma simples reforma. É um compromisso com o passado e uma ponte para o futuro. Nosso trabalho será técnico, rigoroso e respeitoso com o valor histórico desse bem tão precioso”, disse Aline Vasca, engenheira da Engenho Cultural, responsável pelo projeto de execução.

Museu terá acervo reorganizado

Um dos focos da reestruturação do Museu Barão de Mauá será a conservação adequada de seu acervo, que conta com mais de 10 mil itens. O material inclui objetos de uso doméstico, peças etnográficas, ferramentas de trabalho, documentos históricos, fotografias, livros e registros audiovisuais que narram a história da cidade de Mauá e da região do Grande ABC.

“Muitas das nossas peças já sofreram com o tempo e até com vandalismo, porque o prédio estava sem estrutura adequada. Agora vamos garantir segurança e valorização do nosso patrimônio”, explicou Marcelo Oliveira.

Cultura e memória: um legado para as próximas gerações

Durante o evento de lançamento das obras, o prefeito Marcelo Oliveira lembrou que a ideia do restauro surgiu ainda em 2021, mas ganhou força a partir da reestruturação das políticas culturais federais, especialmente após a retomada do Ministério da Cultura. Ele destacou a parceria com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e agradeceu o apoio técnico e político para viabilizar o projeto.

“Com a volta do Ministério da Cultura e os novos editais, conseguimos dar andamento ao sonho que nasceu ainda na gestão do saudoso Tadeu de Souza”, disse o prefeito.

O ex-secretário de Cultura de Mauá, falecido no início de 2025, foi homenageado durante a cerimônia por sua dedicação ao projeto. Sua viúva, Jordana de Souza, recebeu uma salva de palmas e relembrou o papel de Tadeu na luta por políticas públicas culturais.

“Ele dizia que mudança social sem cultura é uma mudança manca. E hoje, ver esse projeto sair do papel é ver seu legado sendo honrado”, afirmou Jordana, emocionada.

Restauração também integra plano de educação patrimonial

Além de preservar o edifício histórico, o projeto prevê a integração do museu ao calendário escolar do município. A ideia é que as escolas da rede pública e privada possam utilizar o espaço restaurado como laboratório de história local, oferecendo visitas guiadas e oficinas temáticas. Para o prefeito, trata-se de um passo essencial para fortalecer a identidade mauaense.

“É aqui que as crianças vão entender de onde vêm, conhecer o hino da cidade, aprender sobre o Barão de Mauá, a ferrovia, os emancipadores. O museu vai deixar de ser um lugar esquecido e passará a ser um centro vivo de memória e cidadania”, concluiu Marcelo Oliveira.

Conclusão das obras está prevista para 2027

A expectativa é que as obras sejam concluídas até o final de 2027, com previsão de reinauguração e retorno das atividades culturais ainda no mesmo ano. O restauro marca um novo capítulo na história de Mauá e coloca a cidade em destaque no mapa da preservação do patrimônio histórico brasileiro.

Ao garantir recursos, equipe técnica especializada e compromisso político, o restauro do Museu Barão de Mauá se firma como exemplo de política pública integrada entre cultura, educação e cidadania. Um símbolo de resistência, memória e orgulho local que atravessa séculos e seguirá influenciando o futuro.

O que é uma casa bandeirista

Restauração museu barão de Mauá
Suzana Rezende / ABCdoABC

O Museu Barão de Mauá está instalado em uma Casa Bandeirista, um tipo de construção típica do período colonial brasileiro, especialmente entre os séculos XVII e XVIII. Essas casas eram edificadas por bandeirantes: grupos organizados, em sua maioria por homens paulistas, que se lançavam em expedições pelo interior do país em busca de metais preciosos, terras e, infelizmente, também indígenas para escravização. As residências funcionavam como moradias ou pontos de apoio ao longo dessas rotas, permitindo repouso, armazenamento de mantimentos e planejamento de novas incursões.

As características arquitetônicas das casas bandeiristas são bastante específicas. As construções eram erguidas com técnicas manuais e materiais rudimentares, sendo a mais comum a taipa de pilão, uma mistura de terra, areia, cal, sangue de boi e esterco, compactada em formas de madeira para formar as paredes.

Essas paredes podiam ter até 60 centímetros de espessura. Os telhados eram de barro sobre estruturas de madeira entalhada, e o piso geralmente era de tijolos ou terra batida. As casas tinham amplas varandas e poucas aberturas, em razão do clima e da proteção contra ataques. Hoje, essas edificações são raras e representam um patrimônio histórico e arquitetônico de grande valor.

No Estado de São Paulo, restam poucas dessas casas em pé e no Grande ABC a única existente é a que abriga o Museu Barão de Mauá. Por isso, sua restauração é considerada uma ação estratégica para a preservação da memória local e do patrimônio histórico paulista.

Mais do que um símbolo da colonização, a casa bandeirista permite compreender aspectos sociais, culturais e econômicos da formação do território brasileiro e da cidade de Mauá, sendo um espaço fundamental para atividades educativas e de valorização da história.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 04/08/2025
  • Fonte: Fever