Manifestação Passe Livre: Regra exigida pela PM
Ontem, após impasse sobre trajeto, PM usou bombas para impedir ato e apreende artefatos explosivos com grande poder destrutivo na Paulista. Polícia vai determinar percurso de passeatas
- Publicado: 13/01/2016 09:26
- Alterado: 10/08/2023 09:16
- Autor: Redação ABCdoABC
- Fonte: Estadão Conteúdo e SSP-SP
Após impasse sobre a definição do trajeto do segundo ato contra o aumento da tarifa de ônibus, trens e metrô, a Polícia Militar usou bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo contra os manifestantes, nessa terça, 12, na Avenida Paulista, região central de São Paulo, antes mesmo de a passeata começar. Houve pânico, tumulto e correria por ruas de Higienópolis e Bela Vista. Ao menos 24 pessoas ficaram feridas e 8 foram detidas. A passagem foi reajustada de R$ 3,50 para R$ 3,80 no sábado.
A PM mudou a estratégia de ação no protesto – na sexta, manifestantes mascarados depredaram o centro e espancaram um agente à paisana, conforme revelou o jornal O Estado de S.Paulo. Desta vez, policiais de Rota, Rocam e Choque cercaram a área e controlaram a entrada de manifestantes na concentração, a partir das 17 horas. Suspeitos foram presos com correntes, tesoura, soco inglês e artefatos explosivos.
O Movimento Passe Livre (MPL) pretendia seguir pela Avenida Rebouças até o Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste. A PM exigia que a passeata percorresse a Rua da Consolação até a Praça da República, no centro, porque o trajeto não havia sido previamente informado. Em manifestações anteriores, o MPL já não avisara a polícia sobre o percurso a ser seguido. “O caminho para o Largo da Batata passa por vias importantes da cidade. Independentemente disso, quem define o rumo da manifestação é quem se manifesta, e não a Polícia Militar”, alegou Erica de Oliveira, porta-voz do MPL.
Uma negociação entre o comandante da operação, coronel André Luiz Oliveira, e o militante do MPL Mateus Preis acabou frustrada. A confusão começou às 19h20, quando um grupo se posicionou à frente do Choque e a PM lançou bombas. A jornalista Fernanda Azevedo, repórter da TV Gazeta, foi atingida por estilhaços de uma bomba na perna e teve ferimentos leves. Um manifestante foi ferido no olho e levado para o Hospital das Clínicas.
No corre-corre, manifestantes ficaram encurralados e buscaram abrigo em marquises e prédios, como o Instituto Cervantes. “Foi um absurdo a PM jogar bombas assim. Ninguém tinha quebrado nada” disse o estudante Fernando Minoro, de 19 anos. A Estação Paulista da Linha 4-Amarela foi fechada. Comerciantes também baixaram as portas. Os manifestantes se dispersaram pelas Ruas Bela Cintra, Haddock Lobo e Antônio Carlos. Um ônibus foi pichado na Rua Augusta.
O estudante de arquitetura Gustavo Camargos, de 19 anos, teve uma fratura exposta, quebrou alguns ossos e rompeu um tendão da mão direita. Ele alegou ter sido atingido por um estilhaço de bomba e passava ontem por cirurgia. Segundo o Grupo de Apoio ao Protesto Popular, que desde 2013 atua em manifestações, 14 dos 24 feridos tiveram lesões graves.
O coronel José Vicente, ex-secretário nacional de Segurança, classificou como “correta” a postura da PM. “Se não há comunicado prévio, a polícia tem o direito de estabelecer regras a respeito da ocupação de vias públicas e definir o trajeto menos traumatizante para a cidade, porque isso interfere no direito de ir e vir de outros.”
DISPERSÃO
Parte do grupo seguiu para a Bela Vista na direção da 9 de Julho enquanto a maior parte se juntou na Rua da Consolação e partiu para dentro de Higienópolis. Houve novos confrontos na Rua Sergipe. A PM usou bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo.
“Quando chegamos (a Higienópolis), tinha um grupo da PM à frente e outro atrás. Começaram a jogar bombas juntos, os dois lados, não tivemos para onde correr. Aí os PMs pararam de jogar e mandaram todo mundo sentar no chão”, contou Anneli Nobre, de 23 anos, funcionária de uma ONG. “Teve gente que tentou resistir. Aí, os policiais ficaram muito nervosos e mandaram calar a boca” disse o estudante Daniel Montesanti, de 19 anos.
Os moradores e trabalhadores de Higienópolis foram surpreendidos com a confusão no bairro. Conforme o grupo avançou, estabelecimentos comerciais foram fechados. No momento das bombas, uma babá tentou entrar em um prédio da Rua Itacolomi. “Pelo amor de Deus, moço”, gritou. O porteiro, assustado, não liberou a entrada. “Eu só estava passando. Não tenho nada a ver com isso.” Ela contou que trabalha na mesma rua e ia caminhar até Santa Cecília, porque estava vendo o tumulto na Paulista. Em seguida, não conseguiu mais falar por causa do gás.
Os grupos foram dispersados pelo bairro. Por volta das 21 horas, as equipes do Choque começaram a embarcar em ônibus para a desmobilização da operação. Pouco depois, no entanto, manifestantes se reagruparam na Rua Xavier de Toledo, na região central, na frente do Teatro Municipal, onde houve uso de bombas de gás. Um grupo prometeu fazer “catracaço” na frente da Estação Anhangabaú do Metrô e a PM usou bombas. Dois adolescentes foram detidos e a estação fechou por cinco minutos.
Os manifestantes que seguiram para a Bela Vista foram para a Avenida Brigadeiro Luís Antonio, onde não houve confronto com a PM. Mas na esquina com a Rua Rui Barbosa foi estendida uma faixa bloqueando o trânsito por 15 minutos. A dispersão total só ocorreu às 22h30. O próximo ato foi marcado para esta quinta, 14 17h, com concentrações no Largo da Batata e no Teatro Municipal. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
POLÍCIA VAI DETERMINAR PERCURSO DE PASSEATAS
A estratégia adotada na terça-feira, 12, pela Polícia Militar de São Paulo, de impedir que o Movimento Passe Livre (MPL) decidisse o trajeto da passeata na hora, será repetida nas próximas manifestações. Anunciada pelo secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, a medida é inédita em atos do grupo, que sempre definiu o trajeto durante os atos. A polícia usou bombas para impedir a passeata, mas Moraes negou que tenha havido abuso.
O titular da Secretária de Segurança Pública da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) falou oficialmente às 21 horas dessa terça, 12, enquanto ainda havia confronto entre manifestantes e policiais na região central. Segundo ele, os manifestantes se negaram a fazer o traçado “colocado” pela Polícia Militar, o que teria forçado os agentes a dispensarem o ato.
Moraes afirmou que o MPL deve informar com antecedência o percurso. Caso não faça isso, é a polícia que vai decidir qual deve ser o caminho a ser seguido. “A estratégia utilizada hoje pela Secretaria de Segurança Pública vai ser a utilizada em todas as manifestações”, afirmou. O MPL sempre se negou a avisar o trajeto do ato, defendendo que essa é uma decisão que deve ser tomada coletivamente ao longo do ato.
Segundo o secretário, a antecipação dos planos é uma prerrogativa para a liberação de todas as manifestações, não só as do Passe Livre. O objetivo do governo seria organizar as vias para receber a passeata, realizando desvios de linhas de ônibus em parceria com a Prefeitura e a limpeza de ruas. Principalmente de acordo com secretário, para evitar caçambas com entulhos, onde há pedras que podem até serem usadas como arma por black blocs.
Moraes ponderou, entretanto, que não basta comunicar planos de fechar as principais vias da cidade. “A Constituição não permite ao Estado que negue, mas indica (por exemplo) que, se vai para Rebouças, é uma faixa. Um grupo de pessoas não pode parar a cidade e prejudicar milhões de pessoas”, completou.
ABUSO
Na coletiva, Moraes classificou como “abuso” a atitude dos manifestantes de “furar o bloqueio” e iniciar a passeata. Assim que os manifestantes se colocaram à frente do cordão de policiais, as bombas começaram. “Todo o traçado foi colocado e conversado pelas lideranças (do MPL). No primeiro momento, não havia problema, mas em um determinado momento, ao invés de seguir para a Consolação, os manifestantes tentaram romper o bloqueio para ir para a Rebouças, que não estava preparada para a manifestação, tinha o transito tranquilo”, disse o secretário. “Neste momento houve a necessidade da dispersão.”
Um grande efetivo de policiais militares praticamente “envelopou” os manifestantes, impedindo que eles se deslocassem do local de concentração, na Praça do Ciclista, na esquina da Avenida Paulista com a Consolação. Até mesmo trabalhadores da região foram impedidos de passar por ali. O secretário, porém, negou que a polícia tenha impedido o direito de ir e vir. “Eles tinham total direito de ir e vir no trajeto da manifestação. É isso que a Constituição garante”, afirmou.
Pelo menos dois jornalistas ficaram feridos durante a ação da polícia na Avenida Paulista. Moraes defendeu a ação da PM e afirmou que, caso abusos sejam “provados”, eles serão apurados. “Não acho que houve abuso da polícia e se eventualmente algum abuso for mostrado, e comprovado, vamos como sempre apurar. Mas o abuso tem de ser provado.”
Durante a coletiva, jornalistas relataram que a PM jogou bombas na direção dos repórteres. “As bombas foram atiradas na direção aos manifestantes. Se os jornalistas estavam com os manifestantes ou não, vamos apurar. Temos todas as imagens”, completou ele. Moraes ainda comemorou o registro de apenas dois casos de vandalismo: vidraças quebradas de uma agência bancária e do Instituto Cervantes, na Paulista.
POLÍCIA APREENDE ARTEFATOS EXPLOSIVOS COM GRANDE PODER DESTRUTIVO
A Polícia Militar deteve duas pessoas com artefatos explosivos na noite desta terça-feira (12), no centro da cidade, durante a segunda manifestação convocada pelo Movimento pelo Passe Livre na capital paulista.
Os dois, um adulto e um adolescente, foram flagrados com os materiais explosivos durante o protesto. Eles planejavam detonar os artefatos durante a aglomeração dos manifestantes. Os dois detidos foram autuados em flagrante pelo 78º Distrito Policial (Jardins).
Na delegacia, o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) identificou pregos e parafusos presos ao artefato.
O Instituto de Criminalística (IC) fez a perícia e o Gate provocou a detonação em uma área isolada, equivalente a uma praça pública da cidade. O que chamou a atenção dos policiais foi a alta força destrutiva deste explosivo, uma arma capaz de ferir muitas pessoas.
O jovem foi autuado por ato infracional por porte de material explosivo e será encaminhado à Fundação Casa. O adulto responderá pelo mesmo crime e ficará detido, à disposição da Justiça.
Com base do Estatuto do Desarmamento, o homem pode pegar de três a seis de prisão. O crime pode ser agravado, pois ele estava na presença de um menor de idade.
IMAGENS MOSTRAM VÂNDALOS TENTANDO QUEBRAR ESTAÇÃO DO METRÔ
A Secretaria da Segurança Pública conseguiu imagens de um grupo de baderneiros tentando quebrar a Estação do Metrô Anhangabaú, após um ato contra o aumento da tarifa, no Centro de São Paulo. Há imagens também de uma agência bancária depredada.
No vídeo, um grupo se aglomera em frente a uma das entradas do metrô e combinam de entrar na estação. No caminho, vão batendo nas escadas rolantes e assustando os passageiros que tentavam sair dali.
Os criminosos, porém, são impedidos pelas grades da estação – trancada justamente para impedir a depredação dentro do local. O grupo atira pedras e pedaços de madeira contra os seguranças do metrô.
Pouco depois, com a chegada da Polícia Militar, os vândalos fogem. Ao todo, oito pessoas foram detidas pela polícia – duas delas portando artefatos explosivos.
Em outras imagens obtida pela SSP, é possível ver uma agência totalmente destruída. Os criminosos quebraram os vidros e objetos do local e fugiram após chegada da PM.