Lula vive entre a defesa da soberania e o novo jogo geopolítico
Presidente brasileiro tem discurso firme na ONU, aproxima aliados no Sul Global e desafia sanções impostas pelos Estados Unidos
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 27/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Na 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a ocupar o centro das atenções globais. Em um discurso de cerca de 15 minutos, o líder brasileiro fez uma defesa enfática da democracia, da soberania nacional e do multilateralismo, pilares que têm orientado sua política externa desde o retorno ao Palácio do Planalto. O tom firme, as críticas às sanções unilaterais e a cobrança por mais equilíbrio nas relações internacionais renderam destaque na imprensa mundial e reforçaram a imagem de um Brasil que tenta se reposicionar como voz ativa no debate global.
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Repercussão internacional e críticas às potências
O discurso de Lula teve ampla repercussão nos principais veículos internacionais. O The New York Times classificou sua fala como “dura” e sugeriu que o tom adotado pelo presidente foi uma resposta indireta ao ex-presidente Donald Trump, em meio à tensão diplomática causada pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Já o The Guardian ressaltou que Lula fez uma “defesa apaixonada da democracia brasileira”, citando a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro como exemplo de que “aspirantes a autocratas podem ser responsabilizados”.
Outros jornais, como o espanhol El País, destacaram o alerta de Lula sobre a normalização de ataques à soberania e o uso político de sanções econômicas. O argentino Clarín, por sua vez, apontou que o presidente brasileiro reforçou a posição do país em relação ao conflito em Gaza, afirmando que “nada justifica o atual genocídio” na região. A fala colocou o Brasil em sintonia com parte significativa dos países do Sul Global, que têm defendido soluções diplomáticas e criticado a escalada militar.
Encontro com Macron e o clima nos bastidores da ONU
Nos bastidores da ONU, Lula também protagonizou momentos simbólicos. Em um encontro informal, foi cumprimentado calorosamente pelo presidente da França, Emmanuel Macron, que elogiou seu discurso e o chamou de “grande guerreiro”. O gesto, registrado em vídeo e divulgado nas redes sociais, reforçou a boa relação entre os dois líderes, uma parceria que vem se consolidando desde o início do atual mandato.
Durante a breve conversa, Lula desejou sucesso ao francês antes de sua fala na Assembleia. Ambos defenderam pautas semelhantes: enquanto o brasileiro insistiu na soberania e no respeito ao Judiciário, Macron reafirmou o reconhecimento francês à Palestina e cobrou do presidente dos Estados Unidos um papel mais ativo na busca por paz na Faixa de Gaza. As convergências reforçaram a sintonia entre os dois países em temas sensíveis da diplomacia contemporânea.
Relações com a China e o fortalecimento do BRICS
Outro ponto de destaque da política externa de Lula é a aproximação com a China. Em recente conversa telefônica, o presidente brasileiro e o líder chinês Xi Jinping reafirmaram o alinhamento entre os dois países, tanto no campo econômico quanto político. O diálogo aconteceu em meio às novas tarifas impostas por Donald Trump sobre produtos brasileiros, medida que provocou forte reação de Brasília.
Segundo a agência chinesa Xinhua, Xi Jinping destacou a disposição da China em trabalhar junto com o Brasil para promover “unidade e autossuficiência” entre as nações do Sul Global. O líder chinês também reiterou apoio à defesa da soberania brasileira e elogiou o papel do país como mediador em conflitos internacionais. Lula, por sua vez, ressaltou a importância do BRICS e do G20 na construção de uma nova governança mundial mais inclusiva.
Durante a conversa, ambos concordaram em ampliar a cooperação em áreas como saúde, economia digital, tecnologia espacial e transição energética. A China também confirmou presença de uma delegação de alto nível na COP30, em Belém, consolidando o interesse mútuo em temas ambientais.
Tensão e pragmatismo nas relações com os Estados Unidos
Se o diálogo com a China e a Índia avança em clima amistoso, o mesmo não se pode dizer das relações com os Estados Unidos. Desde a imposição de tarifas e sanções a autoridades brasileiras, o governo Lula tem adotado um tom firme, rejeitando qualquer tentativa de interferência externa. O presidente chegou a afirmar que “nenhum país tem o direito de se intrometer nas decisões soberanas do Brasil”.
Apesar das divergências, Lula sinalizou que mantém abertura para o diálogo com Donald Trump. Durante evento no Palácio do Planalto, o presidente disse acreditar em um relacionamento possível entre os dois países, afirmando que “nada é impossível quando há disposição”. Trump, por sua vez, declarou ter “excelente química” com o brasileiro após um breve encontro nos bastidores da ONU, o que indica uma tentativa de reaproximação diplomática.
Mesmo assim, o governo brasileiro insiste que qualquer reunião futura deve ocorrer de forma institucional, em solo americano, e com foco em temas concretos como comércio e meio ambiente. O Itamaraty avalia que a postura de Lula, embora crítica, reforça o protagonismo do Brasil como mediador equilibrado entre blocos geopolíticos distintos.
O retorno de um ator global
A retomada de uma diplomacia ativa recoloca o Brasil em uma posição de destaque no cenário internacional. A estratégia de Lula, centrada na defesa da soberania, no multilateralismo e na busca por equilíbrio entre potências, tem sido recebida com atenção por líderes e veículos estrangeiros. Mais do que recuperar prestígio, o presidente tenta transformar o país em uma voz influente em um mundo multipolar.
Com encontros com Macron, Modi, Xi Jinping e a reaproximação com Trump, Lula demonstra habilidade em transitar entre polos ideológicos e econômicos distintos. No discurso e, na prática, aposta no diálogo como ferramenta de reconstrução da imagem do Brasil e de fortalecimento de sua posição nas grandes mesas de negociação global.