O milagre da nomeação: Lula transforma Boulos em ministro e o PSOL em base

Entre fé e cálculo, o presidente antecipa 2026 ao trazer o movimento de rua para dentro do Planalto

Crédito: Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Abertura

Lula fez o que sempre soube fazer melhor: misturar religião com política e pragmatismo com afeto. Ao nomear Guilherme Boulos como novo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, o presidente não apenas abre espaço para o PSOL — ele o domestica. A decisão é tão simbólica quanto estratégica: levar a militância das ruas para dentro do gabinete e transformar o discurso em método de governo. É a liturgia do poder travestida de reconciliação popular.

O gesto encerra meses de cochichos no Palácio da Alvorada, de cafés servidos em xícaras de porcelana e dúvidas servidas em voz baixa. Lula esperou o tempo certo, como quem deixa a missa começar antes de chegar. Boulos, que até ontem pregava contra a institucionalização da esquerda, agora reza no altar da governabilidade. A esquerda radical ganhou crachá, e o governo, um púlpito de campanha.

O presidente enxerga longe: não se trata apenas de nomear, mas de construir a sucessão. Com Márcio Macêdo desgastado e o Centrão derretendo em praça pública, Lula arma o tabuleiro com antecedência. Boulos é a ponte com a base social que anda distraída — o elo entre a fé popular e a estratégia de reeleição. O militante vira ministro, e o movimento social, uma engrenagem de Estado.

No Planalto, a sensação é de que o jogo virou rito. Lula sabe que um governo sem alma é só administração, e Boulos chega como o padre mais eloquente dessa missa política. Brasília volta a ter fé em algo, mesmo que seja na performance.

O cálculo eleitoral de Lula

Desde agosto, o nome de Boulos circulava entre reuniões reservadas e colunas de bastidores. Lula gostava da ideia de ter o líder do MTST no quarto andar do Planalto, perto o suficiente para ouvir — e longe o bastante para ser observado. Não se trata de afinidade ideológica, mas de instinto: o presidente percebeu que a esquerda institucional precisava reencontrar sua base antes que o bolsonarismo voltasse a ocupar as praças.

A nomeação é um movimento de antecipação eleitoral. Boulos é o interlocutor com a rua, e Lula precisa desse canal ativo até 2026. A esquerda que venceu nas urnas agora precisa vencer na calçada. O PSOL, antes oposição de estimação, vira satélite útil, orbitando o sol petista sem direito de eclipsar. O cálculo é frio, mas a execução é quente: o velho sindicalista ainda entende o valor do corpo na rua e da narrativa no púlpito.

Ao colocá-lo na Secretaria-Geral, Lula cria um símbolo duplo — o retorno da militância ao centro do poder e a institucionalização do protesto. O movimento dos sem-teto ganha sala com ar-condicionado, e o Planalto, um embaixador da periferia. É a política da conciliação elevada à enésima potência: todos ganham visibilidade, menos os que perdem o discurso.

A elite do governo celebra a escolha com o cinismo habitual: “Melhor Boulos dentro do templo do que pregando do lado de fora.” Em Brasília, até a fé tem cargo comissionado.

A conversa no Alvorada

A decisão foi costurada em silêncio. No último sábado, Lula reuniu dirigentes do PT no Palácio da Alvorada e, entre um cafezinho e outro, deixou escapar o plano. Boulos já havia estado com ele duas semanas antes, e o convite fora confirmado em voz baixa: seria ministro, mas com uma missão clara — unir movimentos sociais sob o manto do Planalto.

Havia, porém, resistências. O MST desconfiava do excesso de protagonismo urbano, e parte do PT torcia o nariz para a ideia de dividir o altar. Ainda assim, Lula bancou. Disse que “era hora de a rua virar governo”, o gesto ecoou como confissão e aviso: 2026 começou antes da hora.

Fontes próximas ao presidente garantem que a demora no anúncio foi puro cálculo. O petista esperava o desgaste definitivo de Márcio Macêdo e o momento político ideal para a troca. Não queria parecer refém de pressões — queria parecer autor da própria providência. No fim, o teatro funcionou: o substituído saiu sem barulho, e o novo ministro entrou com bênção e holofote.

A conversa no Alvorada foi descrita por um assessor como “metade missa, metade reunião de diretório”. E talvez seja esse o segredo de Lula: transformar estratégia em fé e articulação em catequese.

A fritura santa de Márcio Macêdo

Márcio Macêdo foi o cordeiro. A fritura vinha de meses, mas só se consumou quando a relação com os movimentos sociais virou ruído de microfone. Lula, pragmático, decidiu trocar o operador pela mensagem. O Planalto precisava de um rosto mais midiático, e Macêdo, apesar da fidelidade, não entregava narrativa.

A saída foi planejada como uma substituição litúrgica: o apóstolo discreto cede lugar ao pregador carismático. E, para Lula, isso é mais do que estética — é estratégia de campanha. O ex-tesoureiro do PT, que atravessou a vigília de Curitiba e o G20 Social, foi sacrificado em nome do espetáculo da reconexão.

Nos bastidores, a troca foi vista como um recado ao PSOL: o governo está disposto a abrir espaço, mas cobra devoção. Boulos chega com autoridade moral e prazo de validade política — até abril de 2026, quando os ministros que pretendem disputar cargos terão de sair. Até lá, é o missionário encarregado de evangelizar a militância desiludida.

Macêdo, em silêncio, volta à sombra, e o Planalto respira com alívio. Em política, o perdão é provisório e a lealdade, sempre negociável.

O PSOL domesticado

A entrada de Boulos no governo marca o batismo do PSOL na política de coalizão. O partido, que cresceu criticando o PT, agora descobre o prazer amargo do poder. Parte da bancada torce o nariz; outra parte suspira por influência. Lula, veterano, observa de camarote: sabe que toda pureza política dura até a primeira nomeação.

A nomeação também serve de antídoto contra a fragmentação da esquerda. O Planalto percebe que o PSOL, sozinho, pode ser incômodo, mas dentro do governo vira decorativo. Boulos ganha visibilidade, mas perde autonomia. É o preço da cadeira — e da caneta.

Nos corredores do PSOL, há quem veja a movimentação como “adesão tática”. Em tradução livre: fé demais atrapalha a gestão. Boulos assume a pasta com a promessa de fortalecer movimentos sociais, mas a missão real é mais complexa — reanimar a base sem reavivar os fantasmas da radicalização.

Lula, experiente, sabe o que faz. Convida para o altar quem poderia incendiar o pátio. É a velha arte de neutralizar pela proximidade.

Guilherme Boulos em gabinete ministerial, observando o Planalto ao fundo — novo rosto da esquerda no governo Lula.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

A liturgia de 2026

No fim, a nomeação é menos sobre o presente e mais sobre o futuro. Lula sabe que a sucessão precisa de símbolos, e nenhum nome carrega tanto apelo popular quanto Boulos. Ele é o elo entre o passado militante e o futuro institucional, entre a rua e o Planalto, entre a utopia e a urna.

A nova configuração do governo sinaliza o tom da campanha: mais ideologia, menos conciliação. Lula quer o embate — e Boulos, o microfone. O bolsonarismo se desidrata, o Centrão se dispersa, e o presidente volta a falar com a alma de quem o elegeu. O país entra, mais uma vez, em modo eleitoral com dois anos de antecedência.

Entre aliados, há quem veja na nomeação um ato de fé política; outros chamam de estratégia. Mas, em Brasília, fé e cálculo são a mesma moeda — só muda o câmbio. Boulos, agora ministro, é o apóstolo mais novo da igreja petista. E o altar, como sempre, continua em reforma.

E é aí que mora a sagacidade do gesto: Lula não apenas rearranja o governo, ele rearranja a narrativa. Transforma o militante em ministro, o adversário em aliado, o protesto em política pública. Recria a esquerda como quem renova um credo. E enquanto o governador de São Paulo ainda tenta medir a temperatura das pesquisas, Lula já reza a missa da próxima vitória.

No fim, a liturgia do poder não se escreve em atas, mas em linhas tortas de intenções — e as de Lula, como sempre, são mais antigas que o próprio Datafolha. E às vezes, no improviso de quem aprende a parecer sereno enquanto o mundo arde discreto num incêndio ao fundo, carrega o dom raro, de redigir com maestria, mas custa caro o improvável de uma caligrafia firme, mesmo quando a tinta é dúvida e o papel, o caos.

Assim, Lula provou — com a escrita de quem já decifrou a missa da política — que até o improvável pode ser forjado com método de milagre e gramática de poder. É assim no Brasil, onde o destino vem protocolado — e, com sorte, carimbado em três vias e uma hóstia no céu da boca, pra selar de vez a comunhão entre um altar que é palco e o profano, um mero bastidor.

  • Publicado: 19/01/2026
  • Alterado: 19/01/2026
  • Autor: 03/11/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping