Lula e COP30: O poço, o palco e a contradição
Ibama libera petróleo e entrega a Lula uma vitrine oleosa às vésperas da COP30
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 21/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Abertura
Entre a COP30 e o poço da margem equatorial, o governo decidiu misturar hóstia com gasolina. O Ibama liberou a exploração de petróleo às vésperas do maior evento ambiental do planeta, e Lula, que há meses flerta com a ideia, agora tem que explicar ao mundo como se perfura a Amazônia sem furar o discurso.
Belém se prepara para ser palco de um espetáculo verde, mas a cortina já veio manchada. A Petrobrás ergue sondas como quem planta esperanças, enquanto o Ibama recita protocolos para justificar o milagre: explorar sem contaminar, crescer sem contradizer. É o tipo de fé que Brasília pratica — e o planeta assiste incrédulo.
O presidente Lula queria subir à tribuna da COP como símbolo de transição ecológica, acabou virando alegoria da velha contradição nacional. O mesmo governo que promete reflorestar o futuro agora celebra o som do petróleo borbulhando no presente. No Brasil, até o discurso sustentável vem com nota fiscal de carbono.
O óleo sobre as águas do discurso
O governo que sonhava em ser vitrine virou vitral rachado. O Ibama, pressionado até o último parafuso, liberou a exploração de petróleo na margem equatorial — justamente quando o Brasil ensaia seu papel de anfitrião da COP30, o evento que Lula queria transformar em palco global da virtude climática. O presidente, que passou anos defendendo a exploração da costa amazônica, agora assiste ao colapso simbólico da própria narrativa. O figurino verde foi manchado com óleo, e o timing não poderia ser mais cruel.
Desde o início, Lula foi favorável à ideia. Pressionou o Ibama, cobrou publicamente resultados, e empurrou a Petrobrás a cumprir as exigências ambientais que travavam a liberação. Tudo em nome de uma promessa antiga: fazer o país crescer sem pedir bênção ao moralismo ecológico. Mas o preço veio em forma de ironia. Às vésperas da conferência que ele mesmo vendeu como “a COP da Floresta”, o governo se descobre abrindo um poço de petróleo no coração do discurso ambientalista.
Veja como o paradoxo político é simbólico, Lula queria chegar à COP como o estadista que equilibra economia e ecologia, o sindicalista que aprendeu a falar a língua dos cientistas. Em vez disso, virou protagonista de um capítulo que o Sakamoto resumiu bem: coerente com a realidade, incoerente com o discurso. O Brasil, de novo, quer crescer cavando para baixo.
Agora resta entender até onde o Ibama vai na tentativa de limpar a mancha. O órgão exigiu da Petrobrás um plano de emergência — simulações, protocolos, estudos de vazamento — tudo para garantir que, se o desastre vier, ao menos venha regulamentado. É o jeitinho institucional de dormir tranquilo: o poço pode vazar, mas o relatório está em dia.
A ministra e o espelho rachado
Marina Silva, velha guerreira das contradições lulistas, viu de novo o fantasma do rompimento. Há quem apostasse que ela deixaria o governo, como no passado. Mas Marina ficou — para lutar “por dentro”, como ela mesma diz. A escolha não é de fé, é de sobrevivência. Se sair, entrega o discurso da Amazônia na bandeja do pragmatismo. Se ficar, torna-se cúmplice do vazamento simbólico que Lula acaba de autorizar.
A ministra acompanhava de perto o caso, sabia que a liberação viria. O Ibama é subordinado à pasta dela, mas politicamente foi tomado de assalto por um Planalto ansioso. Entre ambientalistas, a notícia caiu como um tiro no coração da COP. No Congresso, porém, soou como música: a bancada nortista vibrou. Para senadores do Pará, do Amapá e do Amazonas, o petróleo representa prosperidade, empregos e narrativa eleitoral. E é aí que o dilema ambiental vira ativo político.
A exploração da margem equatorial é uma velha ambição da Petrobrás. O projeto atravessou governos — nasceu no fim do ciclo Bolsonaro, ganhou forma no início do atual e, finalmente, ganhou licença para respirar. A empresa diz ter cumprido todas as exigências; o Ibama, pressionado, diz ter feito o possível. Entre o “feito o possível” e o “cumprimos tudo”, escorre a ambiguidade que move Brasília.
Assim o presidente Lula, deixou a batata quente no colo de Marina, que agora tem um desafio discursivo: como explicar na COP que o Brasil “salva o planeta” enquanto perfura sua costa amazônica? Talvez com poesia, talvez com PowerPoint. A retórica verde precisará de tradutor simultâneo para o pragmatismo do pré-sal.

A vitrine global e o figurino manchado
A COP30 era o grande espetáculo diplomático de Lula. Um evento de bilhões, infraestrutura nova em Belém, promessas de hotelaria e marketing internacional. Um “momento Brasil” pensado para mostrar que o país voltou à cena — não pela economia, mas pela moral ambiental. E agora? Agora a vitrine virou palco de ironias. O anfitrião da “COP da Floresta” chega coberto de petróleo.
O Ibama sustentou o impasse o quanto pôde. Durante meses, resistiu às pressões, pediu mais estudos, alegou inconsistências. Lula, impaciente, chamou a postura de “lenga-lenga”. O tempo passou, e a realidade veio com holofotes: a exploração foi liberada. O presidente, que planejava discursar sobre consciência climática, terá de abrir espaço para justificativas.
Na prática, a decisão também revela o peso das alianças econômicas. A Petrobrás entra no projeto ao lado de uma empresa americana, e o contrato prevê lucros bilionários. O discurso ambiental é bonito, mas o caixa da estatal ainda fala mais alto. Lula sabe disso — e aposta que o escândalo se dilua entre os aplausos da COP. Afinal, marketing também é método de sobrevivência.
Mas o mundo mudou. Em tempos de redes e conferências híbridas, a incoerência se torna transmissível em tempo real. Quando o presidente subir ao palco em Belém, será recebido por uma plateia que conhece o cheiro do petróleo tanto quanto o da hipocrisia. E não há desodorante diplomático que resolva isso.
O Norte entre o sonho e o derramamento
A região Norte, sempre tratada como apêndice, agora virou ativo estratégico. Os senadores do Amapá e do Pará comemoram a liberação como se fosse o pré-sal dos trópicos. Falam em geração de empregos, arrecadação, desenvolvimento. Argumentam que a pobreza não se combate com floresta em pé, e sim com royalties no bolso. É um discurso que cola, porque vem temperado de desespero.
Para eles, o petróleo é redenção. Para os ambientalistas, é profanação. No meio, o governo tenta conciliar fé e faturamento. É o velho enredo da política brasileira: cada um enxuga a própria culpa com o pano que tiver à mão.
O timing, claro, não é inocente. A liberação veio exatamente quando o governo precisava de boas notícias econômicas. A inflação desacelerou, mas o desemprego e o déficit fiscal ainda são fantasmas. O poço da margem equatorial funciona também como poço de esperança — ou de distração. Lula quer mostrar que o país cresce, mesmo que isso custe a alma verde que ele vendeu ao mundo.
No Congresso, o impacto é imediato. A bancada ruralista comemora, a industrial agradece, e os ambientalistas se organizam para o espetáculo da crítica. Na COP, o palco será o mesmo: o Brasil dividido entre o desejo de explorar e o medo de ser exposto.
O poço e o palanque
O caso do Ibama expõe o que o governo evita admitir: não há política ambiental sem cálculo eleitoral. Lula sabe que cada litro de petróleo é também litro de narrativa. Ao liberar a exploração, ele não apenas autoriza sondas, mas fura o próprio discurso de vanguarda ecológica. Ainda assim, o gesto é calculado. Melhor lidar com críticas globais do que com rebelião doméstica.
A contradição é parte do método. Desde os tempos de sindicato, Lula entende que o discurso idealista serve para abrir a negociação, mas quem fecha o acordo é o pragmatismo. O problema é que, na COP, o mundo inteiro vai assistir ao truque de bastidor. E a plateia não é o Congresso — é a ONU.
Enquanto isso, a Petrobrás monta seu plano de emergência, o Ibama escreve relatórios, e Marina tenta remendar o figurino do governo. O país segue girando no mesmo eixo: crescer primeiro, pensar depois. A costa amazônica vira vitrine e vituperação. O presidente, que queria ser exemplo de transição ecológica, agora precisa explicar como o Brasil pode perfurar o chão e, ainda assim, manter o céu limpo.
No fim, tudo se resume a uma imagem: Lula de paletó verde, sorrindo entre líderes mundiais, enquanto um poço de petróleo borbulha invisível sob o palco. É a política brasileira em seu estado mais puro — uma mistura de fé, pragmatismo e combustão.