Fux entorta o jogo no STF e alimenta narrativa pró-Bolsonaro

O voto de Luiz Fux abriu brechas jurídicas e políticas, reforçando a defesa de Bolsonaro e acendendo alerta sobre impacto futuro

Crédito: Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

O ministro Luiz Fux não virou o jogo — ele usou a régua torta que carregava no bolso para entortar o tabuleiro. Todo mundo sabia que haveria dissidência, mas ninguém esperava que o voto chegasse vestido de bomba, com efeito cascata. Subiu ao púlpito como quem vai dar aula, mas soltou um foguete: “o STF não tem jurisdição para julgar réus sem prerrogativa de foro” — e pronto, virou trilha sonora nos grupos bolsonaristas.

Ele repetiu várias vezes que “acima de tudo, o julgamento foi apressado demais” e aquele trecho virou mantra: na internet, viral, nas falas de quem quer ver a culpa virar dúvida. Fux afirmou que “o caso Bolsonaro deveria ter ido para as instâncias inferiores; se fosse no STF, deveria ser pelo plenário e não por uma turma de cinco”. Se não é um roadmap para recurso, ao menos é um GPS bem apontado. Tudo estrangeirismos do que se podia prever o que estava por vir mais à frente.

Mauro Cid vira alvo de críticas de Fux

Depois, desacelerou o motor com classe: citou a delação do tenente-coronel Mauro Cid, disse que ela tinha “vacilos, omissões e nada de concreto”, como quem devolve o kit plot pronto para o final do professora (de idiomas). Ele não acusou, mas plantou trava silenciosa: se o caso não sustenta a acusação, sustenta ao menos a dúvida que castiga.

O ápice da escalada veio com algo bem poético e venenoso: “size matters” — ele não disse assim, mas foi como se dissesse. No julgamento dos atos golpistas, ponderou que os crimes de golpe e abolição violenta do Estado Democrático não deveriam se acumular; “um engolia o outro”, era a metáfora. Assim, sugeriu penas mais brandas, distorcendo o script dos colegas. Mais termos em inglês em uma postagem desse trecho já brilhou como highlight entre quem quer ver leniência poliglota com etiqueta jurídica. Eram apenas ensaios.

Luiz Fux
Felipe Sampaio/SCO/STF

Nas redes, o voto virou trilha sonora com legendas. “Viram? Até o STF duvida agora.” Influenciadores botaram telescópio na frase “ninguém pode ser punido pela cogitação”. Aquilo virou meme em rede nacional paralela.

Dentro do STF, a sequência de fala virou trilha de tensão. Ministros evitavam olhar para o colega que parecia tocar a batuta de um solo dissonante. Relatos de bastidores falam de “frieza” no plenário, como se cada palavra de Fux fosse aceno para uma plateia invisível (e barulhenta). Ninguém sabia onde parar o carro; ele já tinha furado o freio.

Depois, desligou o torpedo com elegância clássica: “o papel do julgador não é político, mas há quem escute política no tom técnico.” Foi o tom professoral, a lógica fria, mas carregada — jogada perfeita de quem faz com leveza e atinge com peso.

Com rota alternativa traçada em cada frase, o voto já não era apenas divergência: era um mapa cheio de atalhos, desvios e pistas de mão dupla, que permitiam tanto à defesa quanto aos bolsonaristas mais fiéis gritar “proof !” onde só havia dúvida. Tudo estrangeirismos do que se podia prever o que estava por vir mais à frente.

E como se não bastasse, o impacto foi além das paredes do STF. Nos corredores de Brasília, nos grupos políticos e até nas redações, a leitura era de que Luiz Fux tinha construído um texto camaleônico: servia para absolver, para duvidar e até para internacionalizar o discurso de perseguição. Mais que um voto, era um kit pronto para ser exportado como narrativa.

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Voto de Fux ganha leitura política além do STF

Julgamento do Bolsonaro no STF - Julgamento de Bolsonaro
Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

No fim, o voto de Fux fez mais do que abrir brechas jurídicas: soou como um batismo político. Não só declarou a absolvição de Bolsonaro, mas entregou a ele um certificado simbólico — um voto que, sem dizer, já dizia. Antes mesmo de sua longa digressão, a estratégia ficou clara: ninguém mais falaria, apenas ele. E assim ficamos escutando tão somente Fux, entre tosses contidas, bocejos roncando e o microfone batendo no terno. Para os bolsonaristas, virou água benta; para o tribunal, um terremoto silencioso.

Porque, no fim — e no começo também — era pra libertar o “mito” da prisão. E agora, com Fux entortando o jogo, a extrema direita carrega o roteiro pronto: “não é absolvição que buscamos, é dúvida elevada à enésima potência”.

O julgamento continua, mas o palco já arde de tensão — o tabuleiro está torto, o texto virou recurso em potencial, e a política corre com corretivo. No fim, Fux não virou o jogo — ele o entortou. E, como toda peça mal encaixada, o que começou com um voto solitário agora desenha um novo tabuleiro inteiro: não é mais sobre quem vence ou perde hoje, mas sobre como o enredo será reescrito amanhã, com as regras tortas que ele deixou sobre a mesa.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 11/09/2025
  • Fonte: Sorria!,