Livro "Mundo Filtrado" revela os bastidores do algoritmo

ABCdoABC faz um review do lançamento de Mundo Filtrado, de Kyle Chayka. O livro foi lançado no final de 2025 pela Benvirá, selo do Grupo GEN

Crédito: Imagem: Redes sociais

Você já teve a sensação de que o mundo está se tornando uma cópia pálida e repetitiva de si mesmo? Tudo parece padronizado e levar para o mesmo ponto?  Saiba que se você tem essa impressão, você não está sozinho e ela não é apenas uma impressão passageira. 

Para o jornalista Kyle Chayka, é o diagnóstico de uma era. Recentemente lançado no Brasil pela editora Benvirá, Mundo Filtrado (Filterworld), o mais recente livro de Chayka, chega em um momento em que a saturação digital parece ter atingido seu ápice. Como jornalista da The New Yorker e profundo observador da cultura digital, o autor nos oferece uma autópsia da nossa autonomia estética e intelectual.

Mundo Filtrado apresenta a erosão da Individualidade

A premissa central de Chayka em Mundo Filtrado é que as recomendações algorítmicas deixaram de ser apenas ferramentas de conveniência para se tornarem os arquitetos das nossas experiências. É assim que o autor descreve o que chama de mundo filtrado: “uma curadoria invisível operada por equações que se infiltra em espaços digitais, físicos e psicológicos”.

Para sustentar seu argumento, Chayka chama a atenção para alguns pontos curiosos. Por exemplo, ao delegarmos nossas escolhas a algoritmos, perdemos a capacidade de realizar escolhas verdadeiramente livres, uma vez que as opções já foram pré-selecionadas para nós.

Além disso, o livro analisa como feeds infinitos e plataformas de streaming tendem a padronizar a cultura, restringindo a diversidade em prol de um conteúdo sem gosto e previsível. Obviamente que o fenômeno não é restrito às telas. Na observação do autor, há um transbordamento para a arquitetura de cafés e espaços físicos que parecem todos iguais, projetados para serem instagramáveis.

Pontos fortes da obra de Chayka

Mundo Filtrado
Kyle Chayka (divulgação)

O grande trunfo de Mundo Filtrado reside na trajetória do autor. Chayka não é apenas um entusiasta da tecnologia, mas um crítico experiente com passagens por importantes veículos de imprensa, como a Harper’s Magazine e a Vox. Sua escrita é contundente e capaz de trazer clareza a fórmulas matemáticas que, de outra forma, seriam áridas.

Outro ponto de destaque é a inclusão de ferramentas práticas para combater a intoxicação provocada pelos algoritmos. Não se limitando a apontar apenas os problemas da modernidade, Chayka defende que é possível cultivar hábitos mais conscientes de consumo e redefinir nossa relação com o futuro da sociedade.

Alerta de spoiler de Mundo Filtrado

Abaixo, apresento um resumo das ferramentas e reflexões propostas em Mundo Filtrado. Caso você não goste de spoiler, passe direto para a próxima seção.

Uma das primeiras soluções propostas por Chayka é substituir as recomendações automatizadas por vozes humanas em que confiamos. Em vez de deixar o Spotify ou o TikTok decidirem sua próxima obsessão, busque jornalistas, curadores e newsletters independentes que realizam pesquisas profundas e oferecem contextos que os algoritmos ignoram. Confíe nos especialistas.

Não se prender apenas às curtidas é outra prática importante. A tecnologia deve ser vista como uma rede de trocas entre pessoas, não um sistema de transmissão de um para muitos. Compartilhar recomendações diretamente com amigos e debater seus gostos fora das métricas de curtidas abrem caminho para escapar da padronização.

Você já deve ter percebido que o algoritmo busca eliminar qualquer atrito, tornando o consumo constante e, consequentemente, sem graça. Chayka então sugere reinserir obstáculos saudáveis na descoberta cultural: ligar para uma livraria local ou visitar sebos e lojas de discos em vez de aceitar as recomendações de “comprados frequentemente” das grandes plataformas.

Sempre que possível, configure suas redes sociais para exibir postagens em ordem cronológica. Isso quebra a tal da bolha de relevância que o algoritmo cria para manter você preso ao que já conhece. Trata-se de uma forma de descobrir um mundo novo.

Chayka dá outras dicas interessantes para ver o mundo digital com outros olhos, mas você terá que ler o livro para saber. 

A crítica do ABCdoABC

Embora o tema tratado no livro seja explicitamente essencial, é necessário um olhar crítico sobre algumas de suas conclusões.

Elitismo – retornar integralmente à curadoria humana e ao gosto pessoal refinado, como sugere o autor, soa elitista. Cheguei a pensar que eu estava pegando pesado com essa percepção até que fui pesquisar o que alguns jornalistas americanos especializados diziam a respeito de Filterworld. Para minha surpresa, a NPR e a Los Angeles Review of Books concordaram comigo. Historicamente, a curadoria humana também exercia controle e exclusão baseada em classe e poder, algo que o algoritmo, apesar de seus vícios, às vezes rompe.

Nostalgia – Chayka demonstra um certo saudosismo por uma internet esteticamente mais caótica e humana. Eu concordo que a internet já foi mais legal, vide, por exemplo, o que sobrou do Facebook. Mas para alguns leitores, essa visão pode parecer um simples curativo diante de problemas estruturais e econômicos muito maiores produzidos pelas Big Techs: coleta de dados, comercialização desses dados e manipulação de informação.

Realidade – A relevância de Mundo Filtrado é sustentada por dados alarmantes. Segundo o Pew Research Center (2024), 64% dos usuários sentem seus feeds repetitivos. No Brasil, a FGV elaborou um estudo que aponta que 82% dos jovens se sentem sobrecarregados pela pressão digital. Esses números validam a urgência do debate proposto por Chayka.

Veredito

Mundo Filtrado é uma leitura provocativa que atua como um espelho incômodo. Muitas páginas do livro sustentam um discurso pessimista, não porque o autor seja um chato, mas porque a realidade da nossa vida digital atual é, sim, pessimista e precisa ser apontada como ela o é. 

Kyle Chayka consegue o feito de tornar conceitos técnicos em uma narrativa sobre a perda da nossa humanidade. Caso esse texto tenha despertado interesse, meu convite é “não apenas leia, mas estude Mundo Filtrado”. Pode ser um caminho necessário para sairmos do piloto automático e retomarmos as rédeas do nosso próprio gosto.


*Thiago Quirino é diretor de jornalismo do portal ABCdoABC. Além da cobertura diária, apresenta o podcast ABC Cast Conexões e escreve reportagens especiais para o portal.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 19/01/2026
  • Fonte: Sorria!,