Lipedema afeta 12% das brasileiras e vai além do peso
Atraso no diagnóstico do lipedema, dor crônica e estigma social marcam a jornada de mulheres que enfrentam a doença
- Publicado: 29/07/2026 17:22
- Alterado: 29/07/2026 17:22
- Autor: Daniela Ferreira
Paula Neves perdeu cerca de 20 quilos, mas uma parte do corpo permaneceu praticamente igual. Enquanto a cintura diminuía, as pernas continuavam inchadas, doloridas e cobertas por hematomas. O diagnóstico só veio anos depois: lipedema. Segundo o Consenso Brasileiro sobre Lipedema (2025), a doença afeta 12,3% das brasileiras e ainda é frequentemente confundida com obesidade.
“Os roxos nas pernas eu achava que eram porque eu era muito branca ou estabanada. O peso nas pernas eu achava que era do meu corpo mesmo. A gente aprende a conviver achando que é o normal. Não tem como tu saber como é ser diferente se viveu a tua vida inteira daquela maneira”, conta Paula.
Mentora de comunicação e PhD em Fisiologia, ela só recebeu o diagnóstico décadas depois. Até então, acreditava que aquele era apenas o formato do próprio corpo e nunca imaginou que os sintomas pudessem estar ligados a uma doença.
O lipedema é uma doença crônica que provoca o acúmulo anormal de gordura, principalmente nas pernas. Entre os principais sintomas estão dor, hematomas frequentes, inflamação e fragilidade vascular.
O diagnóstico tardio também afeta a saúde mental das pacientes. Um estudo publicado na revista Frontiers in Global Women’s Health revelou que 50,9% das mulheres com lipedema apresentam sintomas depressivos de moderados a graves. Muitas relatam que os sintomas são tratados como falta de disciplina ou apenas obesidade, o que contribui para o sofrimento emocional.
Diagnóstico demorou anos

Paula percebeu ainda na adolescência que havia algo diferente no próprio corpo. A desproporção entre a cintura e as pernas ficou mais evidente após a primeira menstruação, mas ela nunca imaginou que aquilo pudesse estar relacionado a uma doença.
Foi apenas em 2020, durante a pandemia, que passou a desconfiar de que havia algo errado. Aproveitou o período de isolamento para melhorar a alimentação e incluir exercícios físicos na rotina. Os resultados apareceram rapidamente no tronco. Nas pernas, porém, quase nada mudou.
“Eu conseguia perder de 12 a 15 centímetros de cintura em quatro ou cinco meses de processo de emagrecimento, mas as minhas pernas diminuíam muito pouco”, lembra. “Ali foi o momento em que vi meu corpo mudar e percebi que realmente tinha algo diferente acontecendo.”
A confirmação veio entre 2022 e 2023. Ao assistir ao relato de uma jovem nas redes sociais descrevendo os sintomas da doença, Paula reconheceu características que também faziam parte da sua rotina e procurou atendimento especializado.
Por que dieta e exercício nem sempre funcionam?
A nutricionista e psicóloga Flávia Lucena explica que a gordura provocada pelo lipedema se comporta de forma diferente da obesidade comum. Segundo ela, isso ajuda a explicar por que muitos pacientes passam anos fazendo dietas e praticando exercícios sem conseguir reduzir o volume das pernas.
“Diferentemente da obesidade isolada, a gordura característica do lipedema responde de forma muito limitada à restrição calórica, ao exercício físico convencional e até mesmo à cirurgia bariátrica. A gordura acumula-se de forma bilateral e simétrica, com retenção hídrica intersticial e dor. Prescrever apenas déficit calórico agressivo gera culpa e sofrimento psicológico, mas não resolve a alteração tecidual”, explica.

Segundo a especialista, alguns sinais ajudam a diferenciar o lipedema de outras condições. A dor ao toque e a sensibilidade nas pernas não costumam fazer parte do quadro típico da obesidade. Os hematomas também aparecem com facilidade, mesmo após pequenos impactos. Outra característica é que, ao contrário do linfedema, o inchaço normalmente não atinge os pés, formando um “degrau” visível na região dos tornozelos.
A nutricionista Fernanda Lopes, da Six Clínic, explica que a doença atinge quase exclusivamente mulheres por causa da influência dos hormônios sexuais, especialmente o estrogênio.
“O lipedema acomete quase exclusivamente mulheres devido à forte influência dos hormônios sexuais, especialmente o estrogênio. Observamos que a doença surge ou se intensifica em grandes marcos hormonais, como a puberdade, a gestação e a menopausa. É uma alteração biológica real do tecido subcutâneo que envolve hipertrofia dos adipócitos, processo inflamatório local de baixo grau e comprometimento microvascular”, afirma.
Dor e preconceito fazem parte da rotina
Os sintomas aparecem em atividades simples do dia a dia. O atrito entre as pernas, a dor ao toque e o desgaste nas articulações fazem com que muitas mulheres precisem adaptar a rotina.
“Tenho uma gatinha de três quilos e meio. Quando ela sobe no meu colo, se for um toque um pouco mais firme, já me causa dor”, relata Paula.
Ela também lembra das dificuldades enfrentadas nas academias.
“Eu ia em locais onde os profissionais homens debochavam. Diziam: ‘Ah, mas com essas pernas tu não consegue levantar dez quilos? É só agachar!’. Eu me machucava e achava que o problema era eu. Só consegui treinar com constância quando encontrei uma profissional que respeitou o desgaste que o lipedema gerou nos meus joelhos.”
O preconceito também aparece fora dos consultórios.
“Eu não deixo de ir à praia ou de usar biquíni, porque esse é o meu corpo. Mas é perceptível que as pessoas olham diretamente e já passei por situações de escutar apelidos maldosos. É uma doença que mexe demais com a nossa saúde mental.”
Tratamento exige acompanhamento contínuo

Com o aumento da divulgação do tema nas redes sociais, especialistas alertam que pacientes podem ficar mais expostas a promessas de cura e restrições alimentares sem comprovação científica.
Fernanda Lopes afirma que um dos principais equívocos é acreditar que a lipoaspiração cura o lipedema. Segundo ela, a cirurgia pode aliviar sintomas e melhorar a mobilidade em pacientes selecionadas, mas não elimina a predisposição genética.
Ela também destaca que não existe uma dieta única capaz de controlar a doença. O tratamento deve ser individualizado e combinar alimentação adequada, atividade física adaptada, fisioterapia, quando indicada, e acompanhamento multiprofissional.
Paula lembra de um atendimento que, segundo ela, aumentou a insegurança em vez de ajudar.
“A médica me disse que eu teria que cortar o glúten para sempre e que nunca mais poderia me agachar ou carregar peso se não fizesse os procedimentos caros da clínica dela. Como pesquisadora, sei que isso não tem fundamento. Não existe evidência de que glúten ou lactose façam mal ao lipedema, a menos que a pessoa tenha uma intolerância individual.”
Hoje, Paula mantém uma rotina voltada ao controle dos sintomas. Ela cuida da alimentação, faz drenagem linfática para aliviar o inchaço e utiliza meias de compressão com orientação médica.
Para quem recebeu o diagnóstico recentemente, ela deixa um conselho.
“O principal conselho é tirar a culpa de cima de si e não cair em promessas milagrosas. O caminho é o básico bem feito: alimentação adequada, movimento saudável e acompanhamento com profissionais éticos. Mas, principalmente, entender que o julgamento alheio não pode ter peso sobre você. A própria doença já traz suas dificuldades. O essencial é entender que não se trata de preguiça ou incapacidade, mas de uma condição com a qual é possível conviver com qualidade de vida.”