Lições cruciais sobre câncer de próstata em mulheres trans
Conscientização: O diagnóstico de Laerte Coutinho acende um alerta sobre o câncer de próstata em mulheres trans e a urgência de novos protocolos
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 17/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
O diagnóstico de câncer de próstata na renomada cartunista e chargista Laerte Coutinho, em setembro de 2023, trouxe à tona uma discussão crucial sobre a saúde das mulheres trans no Brasil. Aos 72 anos, Laerte recebeu o resultado alarmante após uma investigação de rotina, impulsionada por desconfortos que ela inicialmente atribuiu apenas ao processo natural de envelhecimento.
A alteração nos níveis do Antígeno Prostático Específico (PSA), seguida por uma biópsia, confirmou a presença da doença, marcando um ponto de inflexão na narrativa de saúde e gênero no país. O caso de Laerte não apenas evidencia a vulnerabilidade biológica de mulheres trans que possuem a próstata, como também ressalta a necessidade premente de derrubar tabus e promover a conscientização sobre o câncer de próstata.
O Desafio da Conscientização: Negligência e a cultura masculina do negacionismo
A própria Laerte reconhece que houve uma negligência em seu acompanhamento médico. Ela já havia lidado anteriormente com a hiperplasia prostática benigna, uma condição não cancerosa que causa o aumento da glândula e provoca sintomas como dores intensas e dificuldades urinárias. Uma raspagem da próstata resolveu a questão temporariamente, mas, inadvertidamente, levou a um relaxamento nos exames preventivos contra o câncer de próstata.
“Reconheço que fui negligente em relação à minha saúde. Havia um pensamento enraizado de que, por ser uma mulher trans, não precisava me preocupar com esse aspecto masculino da saúde,” reflete a cartunista.
Laerte aponta para um problema cultural mais amplo: a cultura masculina que desestimula a busca por atendimento médico. Essa barreira social, internalizada mesmo por quem rejeita a identidade masculina, contribui para o atraso no diagnóstico e tratamento. A mensagem da artista é clara: “Mulheres trans precisam entender que possuem próstata e que suas condições de saúde exigem atenção específica.”
Fisiologia e Risco: O rastreamento do câncer de próstata

A suscetibilidade das mulheres trans ao câncer de próstata está diretamente ligada à fisiologia herdada ao nascer. Entretanto, o risco pode variar significativamente dependendo do tratamento de transição hormonal escolhido.
O urologista João Brunhara, que integra o comitê científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, explica que a terapia hormonal, ao reduzir os níveis de testosterona, pode diminuir o risco da doença. Estudos indicam que mulheres trans em uso de terapia hormonal podem ter uma probabilidade de duas a dez vezes menor de desenvolver a doença em comparação com homens cisgêneros.
No caso de Laerte, que optou por uma transição sem cirurgia ou reposição hormonal, o cenário de risco é diferente. Sua probabilidade de desenvolver o câncer de próstata se mantém comparável à dos homens cis. Brunhara é categórico nas recomendações: o rastreamento deve seguir diretrizes semelhantes às de homens cisgêneros, com testes anuais de PSA a partir dos 50 anos, ou aos 45 se existirem fatores de risco adicionais.
As barreiras médicas e sociais do cuidado trans

O diagnóstico positivo levou Laerte a realizar uma prostatectomia radical por laparoscopia, em dezembro de 2023. A cirurgia, embora necessária, trouxe desafios, notadamente uma incontinência urinária severa cuja reabilitação tem sido difícil. “Minha uretra ficou ‘jogo livre’, e estou lutando para recuperar o controle sobre minha bexiga”, descreve Laerte, detalhando as consequências diretas do procedimento.
Além das complexidades clínicas, Letícia Lanz, psicanalista especializada em gênero e sexualidade humana, destaca as barreiras sociais e educacionais que permeiam o cuidado:
- Idealização do Gênero: A psicanalista aponta para a idealização do conceito de “mulher verdadeira” em comunidades e mídias sociais, que pode levar a um “negacionismo das condições biológicas das mulheres trans” e criar um tabu em torno de exames essenciais.
- Lacuna Educacional na Medicina: Lanz é crítica à falta de preparo da área de saúde no Brasil. “Não existe uma formação obrigatória nas faculdades de medicina sobre gênero; apenas cursos complementares são oferecidos.” O resultado é a formação de muitos médicos sem um entendimento adequado das implicações práticas da diversidade de gênero na saúde.
João Brunhara concorda que a ausência de protocolos claros para o rastreamento do câncer de próstata em mulheres trans é uma dificuldade real, até mesmo para profissionais com boa intenção, reforçando a urgência da criação de diretrizes específicas para essa população. O caso de Laerte Coutinho, mais do que uma história pessoal, é um chamado à ação para que a medicina e a sociedade reconheçam e atendam às necessidades de saúde específicas de todas as identidades de gênero.